O que é incontestável, reconheça-se. Simplesmente convêm advertir e ponderar que a «sciência» religiosa alemã, aliás assombrosa, é uma cousa, e a «emoção» religiosa inglesa e o «ascetismo» russo são outra cousa; e o que nas margens do Reno é um valor intelectual, conclusão de silogismos, demonstração de textos e arquivos, elemento de compreensão do mundo e dos homens, é fora dali, em terras suas inimigas, um valor moral, fundamento e motivo de proceder nas relações individuais e sociais. De modo que o que algures se tornou objecto de curiosidade, sem duvida salutar e benéfica, que se cultiva de mistura com todas as outras culturas, é em paragens próximas uma fôrça tão misteriosa como soberanamente poderosa, obedecida superiormente a todas as outras fôrças a que o homem está sujeito. E ai estará a razão pela qual a Alemanha, sendo país de muita religião e teologia escolástica, práticamente pouca religião encontrou, e essa muito acanhada e escassa, fértil em disciplina e activa em política, mas tão pobre de fé que autorizou e reclamou, em proclamação dos seus sacerdotes mais graduados, a vingança a que a Áustria devia sujeitar a Sérvia porque um principe fôra assassinado.

Um nosso prelado que conhece o sertão africano e aí tem exercido a sua missão sacerdotal com uma dedicação exemplar, contava-me há pouco que o negro prefere o domínio português ao domínio alemão, porque, no lúcido instinto que o não engana, considera que, quando o preto tem culpa, ajoelha, põe as mãos, e o branco, se é português, perdôa, e, se é alemão, castiga sem dó nem piedade, como se perdão não lhe houvesse implorado.

Isto compreendeu o negro e não o compreendeu o alemão no aviltamento moral da sua maravilhosa cultura, em que a misericórdia não teve lugar; e por isso é bem de crêr que o negro compreenderia o que o alemão não alcança, quando lhe dissessem que a guerra que se espalhou no mundo e o inunda de sangue e de dôr, é a guerra entre os que perdoam, quando os delinqùentes ajoelham, e os que não sabem perdoar, nem mesmo em face da mais submissa humildade e contrição.

Alguma cousa nos diz que não estão em êrro aqueles que anunciam como fruto desta guerra tremenda uma renovação de todo o nosso modo de ser social. Ousarei até acrescentar que essas conseqùências últimas da guerra, mais do que esboçadas, acentuando-se já clarissimamente em pontos essênciais, são certas e inevitáveis, independentemente da vitória das armas. Desde a lição formidável da queda do império romano, abdicando das suas velhas fôrças morais, das que considerava fundamentos da sua austéra e cruel grandeza, e entregando as rendidas a um poder mais alto, à inspiração cristã, desde então nunca mais o materialismo, culto ou inculto, e o idealismo, ingénuo ou refletido, se encontraram em conflito sem que, tarde ou cedo, o idealismo, erguendo-se de todas as derrotas, não acabasse por arrastar os homens e os conduzir à alegria e à felicidade em reinos superiores à sordidêz do mundo, mesmo quando essa sordidêz fôsse abundantemente doirada e inteligentemente regrada. Desde que esta alma acorde, confundirá, por fôrça ou por arte, pela irresistibilidade que é a sua essência, aquela outra alma de baixa servidão terrena que lhe repugna.

Anunciam os augures políticos que esta guerra traz comsigo a libertação das pequenas nacionalidades. Mas, entrevendo em semelhante empreza mais do que uma conquista de meras liberdades políticas e de independência dos povos, recordando a dissolução do império romano, seguida da fragmentação medieval, e aproximando-a da revolução iminente dos impérios modernos nas suas tendências descentralisadoras, já amplamente e brilhantemente exemplificadas na Inglaterra, não estará muito afastado da realidade quem supozer a política levada neste pendor pelo surdo impulso de fôrças morais e religiosas, pela pressão das exigências da mentalidade característica da nossa era. Á liberdade do pensamento, emancipada de toda a espécie de dogmatismo, exaltada e avigorada pelo estudo, pela experiência e pela reflexão, corresponde a pulverização das crenças e das aspirações, a infinita variedade do modo de ser intelectual, moral, religioso e estético do nosso tempo, demandando com a legitimidade da revisão e contestação de toda a fé a legitimidade e direitos de tolerância de todo o espírito nas suas manifestações especulativas e concretas. Dentro de grandes linhas psicológicas fundamentais, a diversidade é extrema e reclama liberdades correlativas, a assegurar-lhe a expansão. Quando, por exemplo, e o mais vulgar, uns pedem «Deus, Pátria e Rei» e outros exigem «Liberdade, Igualdade e Fraternidade», podemos estar certos de que de cada lado não se apuram algumas centenas de homens que vejam Deus no mesmo altar, que amem na pátria as mesmas feições, que dêem ao rei o mesmo trono, que encerrem a liberdade nos mesmos limites, repartam pela mesma medida a igualdade e sintam pelo mesmo coração a fraternidade. Ora à desagregação do pensamento tem de corresponder, naturalmente, a pulverisação dos poderes políticos que não podem subsistir na antiga integridade e extensão sem a unidade de tendências mentais, constantemente contrariados, minados e traídos por obscuras mas indomáveis rebeldias. Se vêmos um estupendo império, como o da Grã-Bretanha, englobando sob a mesma bandeira, irmãmente querida e amada, as raças mais diversas e as mais diversas aspirações, é porque para êsse milagre político, sem precedente na história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que é maravilha de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e desusadas liberdades com a coincidência em uma unidade, para a qual provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à própria liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender.

Sendo, porêm, excepcional este modo de ser e sendo ao mesmo tempo evidente que não conseguiu êle até hoje reproduzir-se, particularmente no continente da Europa, onde à extrema desagregação do pensamento, de todo carecido de unidade, se junta a extrema opressão dos impérios, de todo avessos a suportarem independências, o conflito tem de seguir seus trâmites para abolir uma unidade forçada que a unidade psicológica não autoriza; e para satisfazer a diversidade pela liberdade há de encontrar as soluções convenientes. Os ingleses não exageram, quando dizem que combatem tanto pela Inglaterra como pela Alemanha. De facto, preparam a vitória de princípios, por cujo triunfo anseiam todos os povos chegados à idade da razão.

O que êsses povos vão fazer déssa liberdade, até onde a levam, para que a querem e em que a aplicarão, o que ela vai demolir e o que ela vai construir, não é fácil prevê-lo, como não é fácil prever que destino as estações reservam à planta que hoje nasce bafejada do sol e ámanhã se verga e esmorece açoitada do temporal. Mas dêsde já se torna manifesto que estamos em vésperas de uma profunda reacção, pois que por efeitos de reacção chegámos à convulsão presente. Desde já se adivinha que a negação da cultura alemã, e negada está seja qual fôr a sorte das armas, sendo ela a cultura e a ambição meditada e tenaz de toda a especie de materialidades, implica um largo desprendimento de infinitas materialidades com que agora sobrecarregamos e afligimos a vida. O dr. Inge, prégando há pouco em Londres, na abadia de Westminster, e discorrendo sobre as conseqùências da guerra, definiu o que entre os pensadores começa a distinguir-se nitidamente, dizendo: «Teremos de nos contentar no futuro com uma vida mais chã e, espero, com um mais alto pensar. Se assim fôr, veremos a verdade daquêle velho e belo proverbio espanhol, de que «Deus nunca bate com ambas as mãos». As nossas perdas seriam ganhos.»

Mesmo entre nós, alguma coisa se passará de conseqùências talvez larguissimas, e porventura altamente benéficas, apezar da crise dolorosa a que nos sujeitam.

É sabido que os rendimentos das alfândegas chegaram a baixar em proporções assustadoras. Significa isso a privação de muita coisa que sempre nos será indispensável e que por qualquer modo teremos de criar ou substituir, e significa tambêm a abstenção de muita outra coisa que sempre nos foi supérflua, só por vício se divulgou e é urgente suprimir. Se esta situação persistir, a que modificações obrigará a economia do pais e respectivamente a economia de cada um? Acontecerá que por urgência das pressões económicas cheguemos a um nacionalismo e a uma simplicidade aos quais nenhum incentivo moral póde levar-nos, e em favor dos quais se esfalfaram em vão a arte mais sã, o mais bem inspirado patriotismo e mais modesto bom senso?

Evidentemente, a alma dos povos não se vence e aniquila e transmuda com aquela prontidão que os canhões mostram ceifando os exércitos e arrazando as cidades. Não consente mutações instantâneas.