Aos pensadores e erúditos não foi difícil esclarecer-nos, demonstrando que vinham de longe as incompatibilidades cujas energias contrárias, agravadas e acumuladas no correr dos anos, chegavam em uma hora angustiosa a um combate de vida ou de morte. Reeditaram-se e notaram-se, com a aureola das profecias, palavras de Ruskin nas quais a intuição penetrante do génio muito cedo apontou a distância que havia entre o carácter germânico e as tendências britânicas. Já em 1859 Ruskin falava, em carta a um amigo, do «intenso egoismo e ignorância do pintor alemão moderno (na sua obra)» que «era indizível no que tinha de ofensivo. A eterna vaidade e vulgaridade mascarando-se de piedade e poesia, a surdez profunda a toda a beleza rial, inchada em abomináveis caricaturas daquilo que êles imaginam ser o carácter germânico, a absorpção de todo o amor de Deus ou do homem na impaciência de aplauso» feriam-no e repugnavam-lhe. Na França ainda êle achava certa paixão de beleza, embora não fôsse senão na faina de um açougue ou na concupiscência; «mas o alemão era por demais vão para se deliciar no quer que fôsse».
Nem tinha mudado de sentir em 1874, não obstante muito haver mudado a reputação do valor alemão nas coisas do mundo. Então escrevia:—«As bençãos são apenas para os dôces e misericordiosos, e um alemão não pode ser uma coisa nem outra; nem sequer compreende o que essas palavras signifiquem». «Egoista nos mais puros estados de virtude e moralidade», «não ha sôma de saber que possa jámais fazer modesto um alemão». De modo que, quando os alemães se apossam da Lombardia, bombardeiam Veneza, roubam-lhe os quadros (de que não podem compreender nem um traço), e inteiramente arruinam o país moral e físicamente, deixando atraz de si miséria, vicio e ódio profundo, onde quer que os seus malditos pés hajam pisado. Foi precisamente o mesmo que fizeram em França—esmagaram-na, roubaram-na, deixaram-na na miséria do desespero e da vergonha, e fôram para casa a lamber os beiços e a cantar «Te-Deus».
O almirante Von Tirpitz, interrogado pelo senador Beveridge, homem público muito popular nos Estados Unidos da América, disse-lhe que «o povo alemão se tornára feliz e prospero pelos velhos métodos de duro trabalho, vida limpa e pensamento claro. Tomára os mercados da Inglaterra, porque o inglês insistia nas suas férias, nos seus dias livres em cada semana e nos sports». Querendo glorificar o temperamento alemão e explicar as suas conquistas, depreciando ao mesmo tempo a vida inglesa, estabelecia um confronto no qual se definiam admiravelmente o caracter e tendências dos dois povos em guerra. Vive um para enriquecer; nisso se absorve e consome absolutamente, empregando um talento e arte que são maravilha. Quer o outro férias que lhe são indispensáveis para a contemplação e intimidade da natureza e para cultivar aspirações apolineas; e disto fez uma religião.
Renovaram-se as lições do passado; e pelos factos presentes compreendem-se hoje em toda a extensão os clamores, escritos e pregações dos profetas, guias e educadores da Alemanha moderna, entre os quais ficará de triste celebridade a obra de Bernhardi, cujo pensamento fundamental é de uma simplicidade incomparável:—«A Alemanha tem nos destinos do mundo uma alta e divina missão, espalhar a sua cultura, levar a cabo o renascimento dos homens e das sociedades na cultura germânica e pela cultura germânica, e o processo único de cumprir êsse destino religioso é o ferro e o fogo, o poder militar e a aniquilação radical de todos os povos que não sejam da opinião do missionario vencedor ou não se sujeitem à sua despótica vontade e império. A cultura, no seu derramamento, começaria esmagando a França que, sendo a inimiga mais inquieta e perigosa pela agilidade e fascinação do seu espírito, é a primeira que à Alemanha cumpre suprimir para capazmente desimpedir o caminho.
Rematava nisto o bismarkismo, talvez interpertrado muito àlêm ou fora dos seus princípios. Concluia pela prussificação de toda a Alemanha, afagada, soprada e insinuada no sangue teutónico e nos afins por nascimento ou inclinação, por todas as universidades, todos os prélos e todos os mestre-escolas, e divulgada aos quatro ventos, em todo o globo, por enxames de caixeiros viajantes transportados em navios sumptuosos com matrícula em Hamburgo.
Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso foi necessário arrazar, como alegremente se arrazou, até aos alicerces, aquela outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era vencida, a Alemanha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do tempo em que, toda impregnada de idealismo, de sabedoria, arte, ingenuidade, simplicidade e anceios de liberdade, tinha menos sciência de laboratório e mais sciência do coração, e não sabia mentir, intrigar, corromper e oprimir. Mas isso se fez completamente. Não falta entre os seus filhos quem, vendo maguadamente e sem paixão a situação, termine por confessar que os alemães «deixaram de ser uma nação de pensadores, poetas a sonhadores e agora só procuram o domínio e exploração da natureza... Conservaram um harmonioso equilíbrio entre o desenvolvimento económico e o desenvolvimento moral como algum dia sucedeu com os gregos? Não; com o enorme crescimento da riqueza negras sombras caíram sôbre a vida nacional. Na nação como no indivíduo, vemos com o crescimento da riqueza o decrescimento do sentimento moral».
Nem mesmo Nietzsche, que, isento de sentimentalismos e branduras, não adorou pouco a fôrça e uma robustez pagã, nem êsse poupou à cultura alemã o mais amargo desdem, insurgindo-se contra essa sua «obscuridade» e «nausea», que «todos os deuses aprenderam a temer. Se alguem quizesse vêr a alma germânica demonstrada «ad oculos», que observasse o gosto germânico, as artes e os modos germânicos. Que grosseira indiferença pelo gosto!» Para «todo o leitor que tivesse um «terceiro» ouvido», dizia, eram «uma tortura» os livros escritos em alemão, «sem tom, sem ritmo nem cadência». O próprio alemão lia «mal», negligentemente arrastado.
Para ser lógico, o alemão tinha de descer a toda essa dureza e de varrer do espírito tudo o que não significasse meramente a fôrça e poder de subjugar físicamente. Outra coisa não era de prevêr. As virtudes da caserna aborrecem e cortam o desenvolvimento dos subtis e eternos encantos das academias, embora êsse comércio de sentir e pensar e dizer, que só em si se alegra e alimenta e se atribui a delicadeza da vida e muito da sua grandeza, valha muito no conceito dos homens e na sua felicidade, sem embargo de ser ignorado pelo militarismo, mercê da sua natural rebeldia no conhecimento de qualquer coisa estranha à arte da brutalidade e da chacina sábiamente organizadas e condecoradas. E esta Alemanha bismarkina, militarisada até à medula dos ossos, materialisada em todo o sentido, purgada, em absoluto, de influências idealistas, fazendo da disciplina, obediência, ordem e comodidades a razão última da nossa existência, reduzida a um rebanho de animais bem ensinados e bem mantidos, de pêlo luzidio e músculos titânicos, prontos à voz e dóceis ao chicote, esta Alemanha edificada de fresco e tendo posto na caserna a bandeira que arriou da catedral gótica e dos paços da cidade, tingindo-a de novas côres, surpreende-se, muito sincera e candidamente, se o mundo lhe significa pela inimizade que detesta a sua cultura.
Não sabe a Alemanha explicar que haja nações civilizadas contra ela unidas com os povos da Rússia, semi-bárbaros no seu conceito. Como sujeitam a Europa ao risco da sua invasão e predomínio, chamando-os e admitindo-os, em pé de igualdade, de portas a dentro dos seus velhos palacios?!... Pasma desta infidelidade à sua cultura e outra cousa não compreenderá, pois, destituída de todo o sentimento verdadeiramente cristão, não percebe os laços que juntam os povos educados no Evangelho, fazendo do Evangelho a razão suprema da existência; e outros não há que mais profundamente o sigam e nêle creiam do que a Grã-Bretanha e a Rússia, apezar de viverem sob instituìções políticas opostas em larguíssima escala. Porque deixou apagar todos os impulsos íntimos do amor, trocados pelos regalos do estomago, não atinge que aquilo que os povos aliados seus visinhos e inimigos correm a combater, é exactamente a cultura alemã, esta aspiração que reduziu a fortuna e contentamento da humanidade a comer bem, beber melhor, dormir quente e descansado, andar agasalhado, ter uma velhice farta e tranquila, remédios, médicos e bons hospitais nas doenças, habitações esmeradas, e gaz, electricidade, caminhos de ferro, muitas oficinas, cinematógrafos, telefones e gramofones, e quanto, e sómente quanto, se paga a dinheiro nos mercados e se encomenda nas fábricas, sendo tudo isso regido por uma política e por uma mecanica administrativa que na precisão matemática em nada difere das máquinas de aço e que pelas suas potentes alavancas reduziu o homem à mísera condição de matéria prima, questão de número, volume e qualidades físico-químicas, tal qual o minério que se tirou das profundezas da terra. Não concebe que foi o extremo fastio dessa cultura, em que tudo foi cultivado menos a liberdade e o amor entre os homens, êsse reino incontestado da alma, o que impeliu para a guerra as raças que o adoram, outro não suportam e o vêem ameaçado: não concebe que entre exércitos que, como o alemão, deixam, por onde passam, uma esteira infinita de garrafas vasias, e os que, como o da Russia, proìbem o alcool entre as suas gentes, sacrificando para isso os melhores rendimentos do tesouro pùblico, não concebe que só isso seja informação suficiente de que interesses morais estão em jogo no que aparentemente os incautos tomarão apênas pela guerra das ambições dos reis e das castas políticas e militares. Nem por sombras imaginará que estas lutas de vida ou de morte são as convulsões de uma civilização enferma de inanidade religiosa e de gôso, cansada do peso da cultura absurda das materialidades, caída em um desespero febril de libertação dos germens mórbidos que lhe invadiram o sangue e lhe converteram a vida em tormento.
Se me quizerem contraditar, dir-me hão que a religião, e muito em especial o cristianismo, tem na Alemanha os seus historiadores mais profundos e os estudiosos mais penetrantes. Não pouco terão êles concorrido para manter acesos, ao abrigo dos vendavais da filosofia racionalista, os fachos do mais sublimado idealismo.