Talvez então, quando fôr a seu termo, as guerras nos pareçam, além da «futilidade» que hoje são, uma infantilidade cruel, de que nos lembraremos com a mesma opressão do coração que nos mortifica, se na mente nos passa a recordação dos ninhos que na meninice destruimos e das vidas que por capricho sacrificamos. E na humanidade chegada à edade da razão a Eneida será porventura um conto para crianças, e os herois que nos exaltaram perder-se-ão em trevas distantes como aquelas em que entrevemos a rudeza da edade da pedra.


Convulsões dum enfêrmo

Quando em 29 de julho de 1914 a Alemanha enviou à Russia uma declaração de guerra, o mundo, acordando tragicamente da sordidez indolente e gananciosa dos interesses baixos e das corrompidas comodidades, enervado por longos anos de paz empregados em abrandar a fúria insaciável dos seus prazeres e complexas sensualidades, julgou no auge da indignação que um pensamento monstruosamente scelerado meditára e consumava um «crime contra a civilização», o maior e o mais odioso que jámais se sonhára e praticára na história da humanidade. Declaradamente se armavam, havia quási meio século, os grandes poderes militares da Europa; engrandeciam os exércitos, acrescentavam as armadas, acumulavam os canhões, amontoavam munições e edificavam fortalezas por modo nunca visto. Mas a confiança na autoridade e eficácia do velho preceito que nos mandava preparar para a guerra se queriamos a paz, sustentava uma segurança profunda e a tranquilidade, como certeza, de que tão dispendioso e aturado forjar dos arsenais era apenas um côro de louvores à glória da paz, soberana, possuindo o mundo, conquistando-o dia a dia pela sua fascinação e ainda pelos engenhos de guerra que prometiam uma inviolabilidade formidável a quem os soubesse fabricar e usar.

Depois, não estava demonstrado que a guerra importava a ruina de vencedores e vencidos, e era de todo incompatível com a sustentação e prosperidades das riquezas industriais e mercantis que a custo e com enorme esfôrço haviamos criado e nos absorviam? Os pensadores, os economistas e os homens de boa fé e melhor razão não tinham provado que só por demência, e jámais por conveniência ou glória de uma nação, fôsse ela qual fôsse, se poderiam desencadear ou consentir tão insensatos e pavorosos cataclismos? A paz era reconhecidamente o mais lucrativo dos negócios, emquanto as armas significavam a mais sólida das garantias da amizade entre os povos. Apesar dos vaticinios de profetas tenebrosos impenitentes, que tambêm os havia e não cessavam de agourar desgraças, tendo por fatal a hora terrível de uma guerra europeia, o mundo ia remexendo os seus oiros e os seus estercos, os seus bens e as suas devassidões, convencido de que a bonança, uma perene bonança orgiaca, era de ora em diante a lei da vida.

De facto, a guerra, lançando o fogo subitamente a todos os paioes, surpreendia-o. Era a subversão das suas melhores crenças. Não podia crê-la.

Quem ousava lançar a terra inteira nessa insondável voragem?!...

A guerra, no primeiro momento dêsse aflitivo e desvairado despertar, era unicamente o fruto amargo da soberba lugubre dos que governam as nações, alimentada na obscuridade das chancelarias, moralmente obtusas e empedernidas e ignobilmente ávidas e crueis, de todo desprendidas do zelo e respeito da fortuna dos povos que um desapiedado egoismo lhes fazia ignorar; e a traição aos arrebatamentos da ventura em que viviamos era executada e proclamada pelo braço e pela bôca de três imperadores, um caduco na senilidade própria dos seus anos, o outro demente de raça e de vaidade, e o terceiro não muito são, sujeito a acessos de melancolia. Eram êles que na mais atroz loucura gerada de imaginárias ambições lançavam uns contra os outros homens de todos os continentes, por igual escravos do trabalho, que realmente se amavam e não tinham motivos para se desamarem, e antes sentiam razões poderosas para se auxiliarem e unirem. Eram êles os reus da atrocidade estupenda que ia cobrir de desolação e de cadáveres o chão que Deus nos dera e nós queriamos para criar e cultivar o pão, e os filhos e a arte e a religião, toda a fortuna, toda a dignidade e toda a glória da nossa espécie.

Poucos dias, porêm, haviam decorrido desde a primeira hora de espanto e aversão, e uma vaga consciência começou a mostrar que sob o impulso e comando dos imperadores e dos generais, sob as cobiças das castas militares e dos seus chefes, inflamando-as e explicando-as, senão legitimando-as, entre o estrépito dos cavalos e dos canhões, havia o conflito das raças, uma diversidade e uma incompatibilidade de aspirações que se excluiam e por condição estavam sem remissão destinadas a chegarem à agudeza dos combates em que se encontravam. Bastaram as primeiras batalhas e as primeiras vitórias dos alemães na Bélgica para que uma luz súbita mudasse todos os apectos. As primeiras atrocidades que os exércitos da Alemanha cometeram, perante o desrespeito dos tratados confessado com um extremo impudor e a perfídia cínica em sua hedionda nudez, perante a hospitalidade traída, construíndo fortalezas ocultas e pondo espiões onde com amizade eram acolhidos, perante o morticínio de velhos e crianças, o insulto e injúria das mulheres e a destruìção e saque dos mais preciosos tesouros do espírito humano, mal se revelou a animalidade barbara que alimentava a fúria germanica, compreendeu-se a que tremendo duelo eramos chamados. E, assistindo à ressurreição dos sentimentos e processos que ha longos séculos tinham movido as hordas teutónicas, de tenebrosa e amaldiçoada fama, e se julgavam para sempre condenados e banidos, e confrontando-os com o espírito religioso de abnegação e bondade que animava o slavo, com o respeito, decôro e dignidade que é honra e brazão do mundo britânico, e com a gentileza e rectidão que em toda a conjunctura caracteriza o espírito gaulez, estremados assim fundamente os campos ao fim de um mês de hostilidades, a experiência estava feita e o desengano acabado, e o primeiro ministro da Inglaterra, Asquith, no discurso magistral que pronunciou no Guildhall, podia dizer com o aplauso retumbante da Grã Bretanha e de todo o mundo culto:—«Não é um conflito meramente material, é tambêm um conflito espiritual. Das suas últimas conseqùências se verá que mais tarde ou mais cedo dependem tudo o que contêm promessa e esperança, que conduz à emancipação e mais completa liberdade de milhões que constituem a massa do género humano».

Quem tinha olhos para ver, entendimento para considerar e sôbretudo coração para sentir, logo sem a menor sombra se convenceu de que, envolvido no tropel das ambições políticas e das rivalidades militares, o que rialmente as precipitava em um embate temeroso era a incompatibilidade, irreconciliável e ardente, entre a fôrça e o direito, entre a brutalidade e o respeito, moderação e tolerância, entre as cobiças da sordidez e o desprendimento da nobreza, entre o cinismo e a crença, entre a liberdade e o despotismo, entre a boa fé e a deslealdade, entre o orgulho e a modéstia, entre a candura e a corrupção, entre o Deus do sacrificio à caridade e à bondade e o Deus das batalhas, da avareza e do ódio. Nem sequer era uma disputa de doutrinas e de sistemas; era e é uma oposição violenta de temperamentos, uma divergência de modos de ser sociais, morais e religiosos entre si antipáticos até à exclusão mútua. Era Tolstoi contra Strauss, Ruskin contra Bismarck, Voltaire contra Treitschke, o monismo degradante de um Ernesto Haeckel contra o dualismo espiritualista, nobre, credor inflexível de responsabilidades, de um Alfredo Wallace; era a fé, a graça, a justiça e a liberdade contra o scepticismo, a bruteza e o despotismo, embora os primeiros se apresentassem desprotegidos de previsão e astucia e os últimos viessem servidos pelo estudo, pelo metodo e por subtil engenho.