A ruina foi de uma vastidão insondável. A riqueza que por diversos modos se aniquilou na guerra, excedeu quanto os cálculos podem atingir e quanto os números podem somar. Não há arimética possível para volumes desta largueza e complexidade.
Finda a guerra, êsses valores perdidos hão-de, naturalmente, procurar uma restauração pura e simples, uma reintegração de posse, por processos e em termos inteiramente conformes com o estado anterior ao desastre. E êsse estado económico, que foi uma das causas mais poderosas desta calamidade que nos aterra, é fundamentalmente despótico, e nem por outro modo tem probabilidades de subsistir. Um publicista de grande autoridade na imprensa inglesa, o professor L. P. Jacks, escrevendo no Hibbert Journal sôbre «a tirania das cousas que são meramente cousas», mostrou como a mecânica e os maquinismos, «primitivamente destinados ao serviço dos homens, se tornaram a muitos respeitos o seu senhor.» «O militarismo e o industrialismo, como hoje existem na Europa, teem a sua origem em uma fonte comum. Ambos esclarecem a inclinação dada ao espírito humano pelo culto do maquinismo, que tão extensamente se tornou dominante na vida espiritual do mundo ocidental.» «Ganha terreno a suspeita de que o industrialismo deve afinal ser contado, em si e por si, entre as causas positivas da guerra. Acrescentando a riqueza, a ostentação e o orgulho dos povos, não servirá para acentuar as suas rivalidades, para cavar mais fundas as suas invejas, e para inflamar as suas paixões predatórias?»
Ora não é de crêr que o industrialismo, causa de guerra e dos seus despotismos, abdique de boa mente do seu império e renuncie às armas com que o sustenta, mórmente depois de ter sido o soldado mais forte da guerra, que se fez mais nas fábricas e nas fundições monstruosas do que nos campos de batalha, onde os soldados empregáram os engenhos de morte que as oficinas e os laboratórios criavam e lhes mandavam.
Se ao industrialismo, de sua natureza despótico, que com grande cópia de alegações ha-de reclamar o antigo logar, juntarmos as urgências financeiras, ansiosas por uma organização económica fácil e abundantemente colectável, se houverem de ser consideradas as necessidades fiscais dos estados esmagados com dívidas fabulosas que se contraíram rapidamente, mas que levam anos a saldar, muitos anos e muito penosos, não será de estranhar que a guerra, no seu seguimento imediato, robusteça aquela constituição do trabalho que, seguramente, por uma já longa e amargurada experiencia, sabemos ser a mais perfeita negação da liberdade, a mais fatal das opressões.
Todavia, embora quaisquer profecias se achem evidentemente sujeitas a formais desenganos, ousarei dizer que alguma cousa é certa desde já nos resultados da guerra. Podem as instituições políticas e os sistemas económicos ser arquitetados e fundados como melhor convenha aos caprichos dos reis, à fortuna dos homens, à sapiência diplomática e aos seus sortilégios cabalisticos. Póde ser que, afinal, a guerra pareça, nos seus efeitos concretos, radicalmente contrária aos sonhos de liberdade que inflamaram os seus incendios e precipitaram as suas hecatombes. Mas determinou uma renovação da consciência, uma filosofia, uma moral, um modo de ser economico, um renascimento íntimo, que são de durar e crescer, invulneráveis às artes dos imperadores e ao poder dos vendilhões, superiores ao seu domínio.
A catástrofe de 1914 «não foi na realidade um acontecimento que mudou o mundo. Foi uma grande mudança do mundo que rematou em um grande acontecimento, cujo final ainda não é conhecido de homem algum[1].» Foi essencialmente uma agonia espiritual perante a qual importam pouco e serão transitórias as alterações ou a persistência da ordem material do mundo.
O poder de revelação deste cataclismo excede muito a força de destruição das edificações materiais que pulverisou. «A verdade é que entramos em relações com um novo mundo que até aqui nos foi desconhecido. Poderes espirituais até hoje invisiveis aparecem no seu ambiente. Digo «invisiveis», sómente porque a sua acção se ocultava aos homens emquanto êles andavam imersos nos cuidados do bem-estar material. E agora, neste mesmo momento em que o mundo se alaga em sangue, e uma tormenta de fogo, destruindo tudo na sua passagem, ameaça converter em pó e cinzas o nosso bem-estar—eis que os cegos vêem e os surdos começam a ouvir. Obscuramente pressentimos a aproximar-se a vitoria do espírito sôbre o cáos. Quasi podemos dizer que uma scentelha desprendendo-se da tempestade universal nos revelou subitamente um novo aspecto do mundo... Além do inferno que se desencadeou sôbre a terra, distinguimos a presença de um Poder mais alto, sôbre o qual o inferno não prevalece; e é a êste poder mais alto que o futuro pertence. A sua acção é sempre a mesma—no indivíduo, na nação e na humanidade. Afirma a vida contra a morte e a integridade daquilo que vive contra as forças que o dissolveriam. Vimos êste Poder incarnando em uma longa sucessão de aparições que nos surpreendem. É precisamente nesta antecipação da sua conquista final no futuro que encontramos a inolvidável significação da guerra presente[2]».
Progresso, só no espírito existe. O materialismo de que a Alemanha foi neste momento um estupendo representante, esplendido em seu género, valerá tanto ou tão pouco nas cousas da terra como nos reinos do puro pensamento. «Parecia dominar como filosofia na hora presente. Tinha a seu favor uma certa força. Estamos em um mundo material, e os que estudam o organismo corporeo andam sujeitos a virem gradualmente a uma espécie de conclusão de que êle é a existência inteira. Por isso erram. A matéria é muito importante, mas por modo algum é a totalidade do universo. Há dois aspectos do universo, o espiritual e o material, e um tem de ser aproveitado pelo outro. Não póde admitir-se que o aspécto material domine; tem de servir as necessidades do espírito. A nota do universo material é repetição; a nota do universo espiritual ou psiquico não é, porêm, repetição, mas progresso. Isto se vê na história do nosso próprio mundo—primeiro os animais inferiores, depois os animais superiores, e por fim o homem. O que depois disto virá, não o sabemos ainda, mas estamos longe da perfeição. Deve ser qualquer cousa melhor. O próprio homem se tornará melhor sôbre a terra. E, assim como para o indivíduo, o progresso da evolução não tem fim. Temos de compreender que somos todos seres eternos, que temos um destino infinito deante de nós, ou para cima ou para baixo, conforme o nosso caracter e atributos. Esta é a nota do universo espiritual. O seu resultado é a vida, e a vida cada vez maior. A soma de vida no universo parece crescer continuamente, emquanto a soma de matéria e energia não cresce; esta é constante. A inteligência póde crescer; póde crescer a felicidade; póde o conhecimento espiritual atingir alturas presentemente inacessiveis[3]».
Apliquemos à crise presente êstes princípios, que são universais. Procuremos um balanço exacto e consciencioso das alterações que a guerra trouxe e nos deixou. Logo veremos a profundeza do seu alcance e os seus lucros positivos um desenvolvimento de sensibilidade moral e religiosa nas sociedades cultas, como jámais se viu, uma acentuação de tendências de liberdade, de justiça, de amor e de religiosidade que acrescentáram em proporções assombrosas os tesouros da vida do espírito, único progresso possível, único que importa o domínio da matéria, mesmo quando a materialidade se reputa fortalecida e inexpugnável pela solidez das suas filosofias e sistemas, pelo poder das armas e da riqueza, e pela prepotência triunfante e orgulhosa sôbre as infinitas escravidões que a servem e são a sua mais funda aspiração e o seu mais eficaz instrumento de reinar.
Mais prolongada no tempo e nas conseqùências, sobretudo infinitamente mais fecunda do que a breve e incerta jornada militar, política e económica em que tiver de rematar os combates, será a jornada moral e religiosa a que a guerra nos conduziu. Não há poderes do mundo que a perturbem. Porventura será mais activa quando êles menos a favorecerem. A necessidade de reacção acelera-a e fortifica-a.