Prologo
Um direito o nosso tempo conquistou plenamente—o direito de heresia. Muitos outros tentou proclamar, desde o meiado do século XVIII até hoje. Pela sua vitória se esforçou e sacrificou. Mas, se muitos quiz e por momentos imaginou possuir, quasi outros tantos surgiram e se apagaram com a rapidez e mágoa com que invariávelmente se desfazem ilusões e esperanças mal fundadas.
O direito de heresia, o direito de discutir, contestar e negar todas as ideias por qualquer modo dominantes, todas as convenções estabelecidas, todos os dogmas, todos os principios e todos os preceitos da religião, da filosofia, da arte, da sciencia, da politica, e de quanta afirmação o nosso pensamento sonhe ou imponha, quer na vida concreta, quer na vida puramente especulativa, o direito que implica a faculdade de regeitar no govêrno da nossa actividade espiritual e material toda a autoridade independente de restricção e de crítica—êsse logrou, porêm, prevalecer atravez de todas as vicissitudes a que o tiveram e teem sujeito multiplos e vigorosos despotismos, sempre fáceis em renascer das próprias cinzas. Abolidas as divindades, as sagradas como as profanas, as que se adoram nos templos como as que se lisongeiam nos palácios, é legítimo duvidar da crença religiosa como da crença política, podemos sem ofensa dos homens e respeitando a nossa consciência desconfiar de muito civismo e de muito patriotismo envelhecidos e envilecidos por diversa corrupção, podemos duvidar da justiça, e até da dignidade, de muito orgulho nacional, pervertido por íntima ruindade. É isso tão legitimo, de uma tão genuina fidelidade à razão, como o desdem das iras olimpicas de Jupiter, ou a revolta contra as fogueiras da Inquisição, ou a libertação da tirania de todos os cesares, sejam êles coroados por direito divino ou aclamados pela insensatez e pela ingenuidade da soberania popular. «Libertamo-nos dos abusos do velho mundo; carecemos de nos libertar das suas glórias», disse Mazzini. E isso, que algum dia poderia parecer blasfemia do revolucionário, encerra hoje apenas uma modesta e incontestada insinuação e autorização de livre exame. Muito heroismo houve que o passado glorificou e o futuro converterá em ignominia, muito fraqueza vilipendiada o tempo nos tornará em merecimento e honra, muita virtude foi crime, muito crime foi santidade, muita prudência foi loucura, muita loucura foi acerto.
O cataclismo de 1914, turvando em ansiedade todos os corações, onde corações encontrou, ainda os mais débeis, foi um ensejo tremendo dêsse direito de heresia que uma lenta e progressiva insistência anterior havia constituído e estabelecido firmemente em o nosso espirito; foi um ajuste de contas correspondente à magnitude sem precedentes da guerra que êle soltou. Verdadeiras religiões politicas e sociais, como a ordem, a riqueza, o nacionalismo, o socialismo, o resplendor militar, as egrejas, o império, e até o próprio cristianismo, foram chamadas a uma revisão sevéra dos respectivos valores e a uma determinação dos seus caracteres e responsabilidades; e dessa revisão sairam profundamente alteradas na sua nobreza, na sua razão e pureza, e na sua mais humilde utilidade. Palavras que eram um paládio transfiguráram-se em espéctros, muito resplendor se apagou, muita treva se iluminou, muito poder se arruinou, muito fetichismo se desfez.
De algumas dessas heresias, que tenho por fundamentais e destinadas a uma influência incalculável no futuro das sociedades humanas, colhi nestas folhas umas breves notas, na esperança, senão na certeza, de que não pouco poderão esclarecer, e sobretudo fortalecer, nestas horas de angustia, os que as meditárem.
Umas foram já impressas no Diário de Noticias, de Lisboa; outras, o maior número, vem agora a público pela primeira vez. E de tal modo me alarguei ceifando em seára alheia, que, constituindo as notas que se referem à Arte de Gastar uma versão quási completa do magnífico opúsculo do sr. E. J. Urwick, julguei-me obrigado a solicitar do editor sr. Humphrey Milford a autorização necessária para a tradução, que êle bondosamente me concedeu, com uma gentileza pela qual confesso aqui o meu reconhecimento.
Não vão os tempos para profecias. Tão profundo é o tumulto em que o mundo se atropela desvairado, que todas são perigosas e se arriscam a um desmentido rápido e radical.
Foi a guerra iniciada em nome da liberdade dos pequenos povos e do respeito da justiça entre os homens e as nações. Mas não teremos que nos surpreender se, chegada a hora da paz e da vitória, forem os primeiros despotas aqueles mesmos que clamaram pela libertação dos oprimidos e no seu clamor conduziram os exercitos às batalhas.
Não teremos de que nos surpreender, se esse for o epílogo desta inaudita desgraça. Em primeiro logar, a guerra é só por si uma escola de despotismo para vencedores e vencidos; é, como agora aconteceu em todos os paises interessados no conflito, sem excepção, a suspensão absoluta de todas as liberdades e direitos individuais, a absorpção de todas as forças e de todas as actividades sociais, uma violência sem limites, involvendo vidas e bens em uma temerosa vertigem do estado. De uma tal situação ficam resíduos; de semelhante incêndio restarão, pela força das cousas, ruínas fumegantes. O que era temporário tornar-se-á facilmente permanente, máu foi ter-se fundado; o que se decretára para salvação da republica, astuciosamente se continua para vantagem das dinastias e das oligarquias. Houve uma fermentação cuja vitalidade reanimou muitos elementos mortos e dormentes e cujos efeitos vão muito alêm do periodo que a levantou, compreendendo por simples contágio muita cousa que lhe era estranha.
Depois, convém não esquecer que a torrente dos impulsos económicos pesará duramente na vida das nações empenhadas na guerra.