«A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma perigoso». Os embaraços economicos presentes são a derivação lógica de uma errada constituição económica anterior. Talvez pelas condições do indústrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os trabalhadores e quem êles servem e os emprega, talvez por essa mecânica de uma absurda divisão do trabalho, que fez que de ordinario não saibamos onde se criou o pão que comemos, nem quem o fabricou, nem quem fiou e teceu o linho e a lã que nos cobrem, o certo é que absolutamente se obliterou o sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de todo deixamos que prevaleçam nesta materia tendências, principios e processos que resultam não só em desamor dos que de nós dependem imediatamente, mas até na instabilidade e muita dissipação da própria riqueza. «Imaginamos que «sustentamos» os trabalhadores gastando dinheiro com as cousas que êles fazem. Ora nenhum gasto de dinheiro ou consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto sustenta alguem, a não ser a pessoa que adquire a fazenda e a consome. Trabalhadores e indústria são em geral sustentados só por um modo—pela criação actual de riqueza real para êles usarem e viverem dela. Se cavamos um campo e criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, só a nós nos sustentamos, à custa de quem criou o pão, seja êle quem fôr. E isto aplica-se a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o conceber; mas a materia é bastante simples. Os dois processos de fazer riqueza, em a nossa capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a consumir, em a nossa capacidade de gastadores de dinheiro, são exactamente análogos aos dois processos de cosinhar os alimentos e de os comer depois de cosinhados. Se o nosso cosinheiro nos prepara um jantar, a seqùência natural dos acontecimentos é que nós ou outros o havemos de comer. Mas comer o jantar não habilita, de modo algum, o cosinheiro a preparar outra refeição, e não o sustenta, a êle, nem à sua cosinha. Isso só se consegue fornecendo-lhe novos materiais para cosinhar. Ou podemos comparar a despeza á explosão de uma arma. A explosão é a conseqùência natural da carga, e foi para isso que a arma foi carregada; mas a explosão não concorre para carregar de novo a arma, isso só se obtem produzindo novas munições. Se a explosão tem algum valor, pertence êle a um resultado totalmente diferente, que por sua vez está inteiramente dependente do seu fim ou direcção. Assim com os nossos gastos. Podem ter efeitos benéficos, se são bem dirigidos, isto é, na proporção em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente realmente necessitada. Mas, só pelo facto de gastar, não contribuem no quer que seja para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se pretendemos sustenta-la, então toda a nossa pretensão deve assentar no facto de que previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que gastamos e por êsse trabalho acrescentámos realmente os recursos dos outros trabalhadores. Gastando o dinheiro ganho, não acrescentaremos o quer que seja a êsse bom resultado.
«Assim, não ha virtude alguma em a nossa acção como gastadores... Muitas vezes, pelo contrário, haverá um resultado definitivamente pernicioso onde fôr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os trabalhadores ou os fabricantes de riqueza são em numero limitado, e, com todo o seu duro trabalho, a soma de cousas que podem fabricar, ou a soma de serviços que podem prestar em um ano, é severamente limitada, mesmo que possa crescer gradualmente à medida que os anos vão correndo. E em uma terra que de modo algum anda inundada de mel e de leite, nenhum individuo e nenhuma classe pode tirar com muita largueza da provisão total produzida sem deixar algures uma falta. Isto é por tal forma verdadeiro e obvio que podemos ir até afirmar que por cada cem libras que gastamos, além das primeiras quinhentas ou seiscentas libras dos nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da nossa comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco shillings. Ora nos tempos bons, quando o clamor dos indigentes não é muito alto, nem de longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de coração leve os rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a relação entre a nossa abundancia e a indigência dos outros, suficientemente para nos inclinar a não dispender o nosso dinheiro como antigamente».
Nestas lucidas asserções, que são afinal versiculos capitais de um breve e fecundo evangelho moral e económico, com tão elevado talento definido por um espírito e por um caracter manifestamente superiores, não quer o seu autor que se lhe atribua a «afirmação de que os nossos habitos de gastar são egoistas, ou indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no caso unico em que êles involvem realmente um perigo grande para o sistema actual da indústria. E que êles na verdade são nêste sentido habitos maus, está provado pelo facto—e êsse é o sinal de todo o habito máu—de que presentemente involvem todo o sistema em dificuldades, mal sofreram um choque. Por êste modo, pelo perigo da instabilidade que lhes é inerente, êsses habitos de gastar da gente fina parecem ser elemento e parte daquele arriscado processo em que se procura equilibrar a pirâmide da indústria no vertice dos desejos e necessidades de uma pequena classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades universais».
Não são «cousa simples» as obrigações de caridade com os nossos dependentes, e muito menos o são o conhecimento e arte de a exercer pela nossa acção em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se imagina autorizado a dispendê-la, na boa fé de que para isso tem moralmente inteira liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal. Mas, se houve beneficios na guerra e nos transes por que nos faz passar, a seu activo teremos de lançar as profundas lições sociais que nos deixa e o poder, senão o terror, com que nos obriga a escutá-las. Porque, no dizer de um jornalista inglês, «a guerra ensinou a certa gente, pela primeira vez, exactamente o que significa viver em uma sociedade. Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem organizada, está mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as pretensões individuais estão em conflito com os interesses de todo o povo. Daí vem que a guerra está desenvolvendo uma agudissima série de problemas sociais» e, ousarei acrescentar, daí vem conjuntamente que, sendo a maior das calamidades, poderá resultar em uma fecunda angústia, se por sua instigação houver o bom senso e coragem de dar a êsses problemas as soluções evidentes que êles reclamam, e que de resto continuamente conhecemos e entrevemos pela voz de interpretes eloquentes.
Viu o nosso tempo uma terrivel desgraça que não pôde evitar e o tortura; mas viu tambêm uma geração que, esclarecida como nenhuma outra igual que a história nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dôres e delas tirar ensinamento para emendar os seus êrros e para acautelar a justiça e a paz das gerações futuras. Honesta e delicadamente se apressa a aproveitar e meditar as lições de uma experiência cruel. É isso a sua honra e o seu dever, e é afinal o interesse imediato do seu contentamento e felicidade.
O Cavador e o Profeta
Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada, porque a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigação de assiduidade e serviço efectivo, o velho que vive comigo é um caracter irreductivel em seus moldes. Feito à lei da natureza, do que ela deu e do que o destino quiz, em uma liberdade intransigente, por uma rebeldia infinita constituido fóra de toda a pressão da vontade e intenções de estranhos, não há nada que o vergue, nem há contingência que o amedronte, nem mesmo força que facilmente o modere. O seu braço e a consciência são a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto orgulho o domina e conduz. Tem a sua aspiração, sua crença, regra e necessidade, a sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela não se afasta. Não há insinuação alheia que lhe modifique a opinião ou que lhe abrande a teimosia; e o vigor da afirmação é tanto mais seguro quanto é pura e estreme a ingenuidade. Não conhece duvidas, como por certo as ignoram as raizes que alimentam os lirios e as sarças que se cobrem de espinhos.
Cavador e servo por condição e nascimento, desde a infância até à velhice adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos, é uma destas creaturas que nasceram para tirar da terra o pão com o suor do rosto, comendo as migalhas e abandonando o principal aos seus senhores, e que, por sua grandeza e nobreza, não maldizem semelhante estado e nem sequer o evitam. Toda a metralha filantrópica e seus condimentos e acessorios sociológicos e socialistas, que se traduzem em bibliotecas infindas e em odios, guerra e sangue, toda essa ambiciosa disputa e repartição da riqueza, e seus venenos, astucias, e engenhosas e subtis ilusões, tudo isso se teria afigurado futil e vão a êsse velho pobre, se êle fôsse capaz de definir em teses, discursos e combates o que lhe vai no íntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo principio que não permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam magras e outras gordas e uns ninhos estão altos e outros baixos, uns em logar seguro e outros em risco, por êsse motivo se julgaria impedido de se atormentar estudando as desgraças do mundo e a sua redenção. Para o meu cavador, a servidão seria uma cousa que «acontece», como o crepúsculo, a aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas vezes seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lógica e aceitável, porque nessa natureza com que lida de perto, não encontra injustiças, nem resignações, nem sofismas, e apenas há uma ordem eterna e intransgressivel que só a natureza determina e conhece. Um fatalismo vago será talvez um dos bordões da humildade.
E talvez fosse por isso que o velho tomou tanto amor à sua condição. A melhor condição seria a primeira e a mais proxima para que o destino o lançára. Porque se deixou induzir na tentação de descobrir onde mora a riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a pé, por êsses caminhos fóra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as sessenta leguas que tinha a calcar da aldeia até à cidade. Mas em nenhuma dessas aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o seduzisse, luxo que o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E depressa voltou à enxada e à escravidão do amo a quem cavava as terras, e que em troca lhe dava o pão. A experiência do mundo, quando o via de perto, inflamava-lhe logo um obstinado desejo e contentamento da pobreza.