Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque tambêm se casou; tambêm um dia foi à egreja «maila a sua açucena», como diz, rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgência êsses malfadados passos.

Deu-se mal. Era de prevêr. Não sei o que seria a mulher; não creio muito que primasse pela doçura. E, como êle pelo seu lado não personificava a brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a sua conseqùência.

Pesava-lhe pouco êsse apartamento em que rehavia a independência, dando-a tambêm à mulher e aos filhos. Porque, como sôbre os bens não havia questão, como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava maravilhosamente com as suas propensões, o divórcio tornava-se, e de facto se tornou, em extremo simples. Não precisava de juiz nem escrivão. Era deixar à mulher e aos filhos a casa, o lar, o campo, e mais toda a poesia, graças e confortos que lá não encontrou, e mais todas as inquietações que lá o mortificaram, e ir-se êle embora, a cavar nas terras de alguem que lhe desse o pão e o socêgo. E foi o que êle fez, serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor. Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdára de um fidalgo a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condição e da bondade a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus criados e servidores.

Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade e a paz, pagava-as com a isenção; não as pressentia nas cobiças, por elas não se afreimava.

Cavar e servir, eis a suprema felicidade à qual obedecia. Não se detinha a verificá-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a mais penetrante arte de persuadir.

Cavar, servir... e tambêm amar. Servir com um tão arrebatado desprendimento já significaria muito amor, mas êsse amôr, que lhe andava no ânimo, tinha traducção ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zêlo terrivel. Por êles se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era escasso ou se a avareza do amo ou do feitor não alargava as rações até onde era mister para uma ostentosa prosperidade do estábulo. Algum anjo ou demónio lhe mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacíficos a afeição e a dedicação que os homens pagavam mal; advinhava-lhes superioridades na inconsciência, e com ternura as reconhecia.

Entretanto, acrescentava em seu espírito e lembrança o compêndio dos ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham levado, não era indigente de opiniões. Tinha a sua filosofia, consistente, sólida, de largos e singelos alicerces, e de resto rematadamente singular. Assim, entre as lições que lhe ouvi, aprendi que no casamento a questão de idade só importa ao homem. A mulher a todo o tempo póde casar; o homem é que precisa de ser novo.

—«Porque?»

—«Porque?!... Ora essa! Porque o homem é que tem de o ganhar, precisa de ter fôrças para isso. A mulher é só para o governar e gastar».

E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que póde ainda trabalha, com uma tenacidade indomável. Não é para se enriquecer nem para enriquecer o amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma indiferença. É por trabalhar; é o trabalho pelo trabalho, impulso essencial, significação única da vida, única razão de ser da existência na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema moral e económico trabalhar é usar dos braços para criar o pão. Não concebe outra cousa.