Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a poupança e a previdência. Onde é que êle viu isso nas plantas que semeia e nos animais que estremece? Não póde, evidentemente, caber na sua lógica o que não coube na lógica da natureza. Por isso a dissipação da taberna e do alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe parecerão um facto tão natural e legítimo como as correrias dos potros na pastagem.

Quanto tem é para beber, e a sua mágua é que eu lhe dê muito pouco para êsse fim. Se lhe dizem que é um vicio e a causa da sua miséria, recebe com um desdem altivo a advertência. No seu conceito, a embriaguez é apenas uma alegria, abençoada como todas as alegrias.

Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas provações do mundo, tivesse fechado a abóbada de uma grande filosofia. A vida seria uma obrigação e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade, uma sujeição de toda a nossa actividade ao esfôrço de criar o pão e uma independência de todos os instinctos na suma vibração das suas energias—uma religião em que o mesmo amor, e por igual, servia a Deus e aos homens, à terra e aos céus, porque a terra e os céus eram as duas grandes verdades iniciais, duas emanações sublimes de um só espírito misterioso.

Ora eu gosto de ouvir êsse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito aquilo que eu não fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de vida que eu não fui capaz de atingir, indubitávelmente há-de saber o que eu não sou capaz de saber.

Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre de sangue o mundo?

—«A guerra», respondeu-me, «é por causa dos que querem comer sem trabalhar. Olhe, quando eu vou à cidade e vejo por lá os soldados, bem agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo comigo que é essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de costa direita, quer comer sem trabalhar».

Ai está uma opinião! Opinião de um cavador, que o é, honestamente, há mais de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinião. E como tem seus apóstolos, como há-de ser prégada na taberna, entre os cavadores, caveant consules! tomem nota os generais e os seus imperadores, andam-lhes inimigos na fortaleza.

Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias inteiras, e em uma simples carroça levam todos os seus bens, e vão muito longe, à Sibéria, quasi à China, a fazerem as colheitas. Depois por lá ficam, por lá engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos incultos, e «são felizes até que os governos as descobrem para lhes pedir impostos e os filhos para a guerra».

Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o génio, em todo o seu resplendor de glória, soletrassem ambos as mesmas palavras nas mesmas acções? Foi o cavador que falou pela bôca do profeta ou foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e identificaram, que mundo novo prometem a sua conformidade e consubstanciação em uma única visão?!...