Aparições
[Mazzini]
É condição ingénita dos homens sofrer para conhecer. A experiência e o que ela ensina não passa sem máguas. A dôr ilumina e revela o caminho da salvação. Porventura tanto nos elevamos e robustecemos, no entendimento e no caracter, pelos desenganos dos erros e pelas atribulações que eles importam como nos cegamos, desvairamos e enfraquecemos pelos bafejos de uma fortuna fácil e prolongada.
Se benefícios teve a guerra, o mais alto seria acordar, até às suas mais remotas profundezas, a consciência dos povos, o sentimento do seu destino e responsabilidades na vida. Perdidos nas mais pungentes incertezas, em labirintos de ruinas inundadas de sangue e habitadas pela morte, pela fome e pela desgraça, perguntam entre agonias se na terra haverá refúgio de tão agudas penas e calamidades; anciosos, interrogam os céus e a imensidade, rogando que lhes mandem uma voz que seja o pregão do resgate, um alento onde respirem a fortaleza e paz. Profetas que a embriaguez das paixões votára à mudez dos seus tumulos e a quem o seu tempo desconhecêra ou apenas suspeitára a grandeza, erguem-se das cinzas aureolados de poderes divinos. Á confusão tenebrosa do tumulto em que os homens se despenham nos abismos que a própria loucura cavou, sucedem aparições que os guiam na estrada da redenção. São remorso e esperança, remorso da infidelidade em que as esquecemos e que pagamos cara, e esperança da glória a que nos conduzem.
Poucos dias apóz a declaração da guerra, encontrei em uma folha inglesa o nome de Mazzini.
Como o mais inculto, mal conhecia essa sombra quasi apagada pela obsessão do realismo e pela torrente de realidades que haviam dominado os espíritos e edificado os impérios do nosso tempo, alvoroçando o assombro da nossa imaginação e inflamando-nos traiçoeiras vaidades. Revolucionário, poeta e sonhador, incarnação de idealismos que haviam ganhado fama de estéreis e perigosos, e a negação daquela espécie de homem prático em que a sordidez se converteu em suprema virtude, Mazzini jazia no manso olvido e proscrição a que uma época toda enlevada e confiada na ordem, na sciência, na razão e no positivismo havia votado a legião inquieta dos descontentes, crentes e videntes, pensadores rebeldes e apóstolos intemeratos, à qual êle pertencera e dera todo o fulgor do seu génio. Ia na onda que varrera da nossa presença e da nossa fé as visões romanticas que um entendimento prático até aos aviltamentos da brutalidade usava acoimar de ridículas e vãs.
Era surpreza que alguém desse bando exilado voltasse, e exactamente na hora em que menos deveria poder, quando a violência estava senhora do mundo e nêle corria solta, em momento sem dúvida nada favorável à contemplação de visões que o ferro e fogo não fôsse capaz de desfazer.
Mas por isso mesmo que a surpreza me incitava, por isso mais depressa e atentamente corri a ouvir os clamores da aparição.
Que dizia?[8] Em que arrebatamentos se exaltava e nos induzia?!...
Não compreendia Mazzini a subsistência do mundo e da razão só por si, independentes de um princípio superior a que se subordinassem. O universo pertência a Deus. «A terra era apenas um degrau para os céus, uma linha no poema imenso do universo, uma nota na harmonia da ideia divina. Da conformidade das nossas obras com essa harmonia dependia» o triunfo final, toda a paz, toda a ventura, toda a dignidade e grandeza das sociedade humanas. Sendo um sonho, uma aspiração, uma essência impalpável, era isso a sumula, regra, condição da vida de todas as realidades em que a nossa vontade podia influir, o fundamento, único consistente, de todas as edificações que tentassemos construir.