Quando o profeta cuidou de traduzir a fé na solução dos problemas do seu tempo e do seu país, no ardor de mártir a que consagrára a vida, sentiu que duas doenças corrompiam as classes que preponderavam no govêrno dos estados—«o maquiavelismo e o materialismo. A primeira, mesquinho disfarce de um homem grande mas infeliz, leva-nos para longe do amor e de uma franca, corajosa e leal adoração da verdade; a segunda, através do culto do interêsse próprio, precipita-nos no egoismo e na anarquia». Eram essas as doenças sociais e políticas que ameaçavam e embaraçavam uma renovação política da Itália, e que hoje, é tristemente manifesto, de todo perturbaram a fortuna da Europa.

Por completo nos desprendemos da lei, e «não há vida sem uma lei. Onde a vida existir, existe em certo modo, conforme certas condições, sob uma certa lei. Uma lei de agregação governa os minerais; uma lei de crescimento governa as plantas; uma lei de movimento governa as estrelas; uma lei nos governa, a nós e à nossa vida, lei mais nobre e mais elevada do que aqueloutras, por isso que nós estamos superiores a todas as outras cousas criadas na terra. Desenvolver-nos, proceder, viver conforme a nossa lei, é êsse o nosso primeiro, e até mesmo o nosso único dever».

A ordem do progresso é clara e evidente. Revela-se-nos pela história como pela consciência. Mostra-se na grande distância entre a crença do presente e a fé que foi a base da moralidade das gerações que nos precederam. «Os primeiros homens sentiram Deus, mas sem o compreenderem, sem mesmo procurarem compreendê-lo na sua lei; sentiram-no no seu poder, não no seu amor; tiveram uma vaga concepção de certa relação entre Deus e o homem, mas nada mais». Foi longa, durou dilatados séculos a insinuação do espírito que nos havia de levar a compreender que há um só Deus e todos os homens são filhos de Deus. Foi a promulgação destas duas grandes verdades que mudou o aspecto do mundo, e «só então o homem soube que onde encontrar um companheiro está um irmão, dotado de uma alma imortal como a sua, destinada a erguer-se ao seu criador, um irmão a quem deve amor, participação na sua fé, e auxilio de conselho e acção quando o carecer. Só então se ouviram nos lábios dos apóstolos palavras sublimes, proféticas de outras verdades contidas em germen no cristianismo, palavras ininteligiveis para a antiguidade e mal compreendidas ou desprezadas pelos sucessores dos apóstolos. Porque da maneira que em um corpo temos muitos membros, mas não teem todos uma mesma funcção, assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um de nós membros uns dos outros. (S. Paulo, Ep. aos Romanos, c. XII, vv. 4, 5). E haverá um só rebanho e um só pastor (Evangelho de S. João, c. X, ver. 16)».

A política era a traducção dessa lei suprema no govêrno das nações, em toda a extensão dos princípios que daí se deduzem. Seria uma acção religiosa e moral, e jámais era lícito degradá-la em uma disputa de egoismos ou em uma convenção de interêsses. «O govêrno do pais tem de ser baseiado pelo nosso trabalho sôbre o culto dos princípios, não sôbre o culto idólatra dos interêsses e da oportunidade. Há países na Europa onde a liberdade é sagrada no intimo, mas sistematicamente violada externamente; povos que dizem que a verdade é uma cousa e a utilidade uma outra cousa, que a teoria é uma cousa e outra a prática. Êsses países teem necessariamente de expiar a sua culpa em longo isolamento, opressão e anarquia».

A educação, que é a insinuação da lei e a integração das gerações na sua substância, assume, nesse sistêma, uma missão e poderes capitais.

«O indivíduo é um renovo da humanidade, e alimenta e refaz a sua própria fôrça na fôrça da humanidade. Êste trabalho de alimentação e renovação opera-se pela educação, que directa ou indirectamente transmite ao indivíduo os resultados do progresso de toda a raça humana. Por conseguinte, não só porque é uma necessidade da nossa vida, mas tambêm porque é uma espécie de santa comunhão com todos os nossos companheiros e com todas as gerações que viveram, isto é, que pensaram e trabalharam antes de nós, por isso carecemos de nos educar, o mais possível, em uma educação moral e intelectual que compreenda e cultive todas as faculdades que Deus nos deu, como semente para produzir fruto, e forme e mantenha um laço entre a nossa vida individual e a vida colectiva da humanidade. E para que êsse trabalho de educação se realise o mais rapidamente, e para que a nossa vida individual se ligue mais segura e intimamente com a vida colectiva de todos, com a vida da humanidade, por isso Deus nos fez essencialmente seres sociais. Toda a espécie de ser inferior póde viver por si, sem outra comunhão além da que tivér com a natureza, com os elementos do mundo físico. Nós não. A cada passo temos necessidade dos nossos irmãos; e não podemos satisfazer as necessidades mais simples da vida sem nos socorrermos do seu trabalho.»

Infelizmente, estávamos e estamos longe de atribuir à educação o seu valôr religioso. Vai desvairada e em erro, semeiando muitos males e produzindo escassissimos e contaminados bens. «Hoje, na Europa, a instrucção, desacompanhada de um gráu correspondente de educação, é um grave mal; mantem a desigualdade entre as diversas classes de um mesmo povo e inclina o espírito ao calculo, ao egoismo, a compromissos entre a justiça e a injustiça, e a toda a falsa doutrina».

Comunhão «é uma palavra santa. Ensinou aos homens que eles eram uma família única de irmãos em Deus, e uniu o senhor e o escravo no mesmo pensamento de salvação, na mesma esperança e no mesmo amor do céu». Símbolo da igualdade entre os homens, cumpre à humanidade desenvolver toda a verdade que nela se encerra.

«A egreja não o fez e não póde fazê-lo. Tímida e incerta no seu começo, mais tarde aliada com os príncipes e com o poder temporal, embebida no próprio interêsse, com uma tendência aristocrática alheia ao espírito do Fundador, vagueou na estrada direita e retrogradou até diminuir o valor da comunhão, limitando-a para os seculares só ao pão, e reservando para os sacerdotes a comunhão nos dois géneros».

«Não era materialista. Os moços de inteligência estreita e educação superficial, mas excessivamente inflamados e irritados contra um passado morto que ainda quer dominar o presente; cuja vaidade é lisongeada pela ideia da ousadia intelectual; que carecem de capacidade para descobrir naquilo que foi a lei daquilo que ha-de ser, são levados a confundir a negação de uma forma gasta da religião com a negação daquela religião eterna que é inata na alma humana. Neles o materialismo assume o aspecto de uma rebelião generosa, e muitas vezes é acompanhado pelo poder de sacrifício e pelo respeito sincero da liberdade. Difundido, porêm, entre os povos, o materialismo, pelo culto exclusivo do bem-estar material, tenta mais infalivelmente, extingue o fogo de um pensamento alto e nobre, assim como toda a scentelha de vida livre, prostrando-os finalmente perante a violência triunfante, perante o despotismo do fait accompli». Fôra êle que «em Roma extinguira toda a virtude republicana».