Porque não era materialista, só acusava a egreja onde a julgava infiel à sua missão espiritual e divina; não porque ela se fundasse em uma missão que havia deixado de ser a aspiração da humanidade, a sua religião. Pois «a vida era uma missão, e a existência aquela parte dessa missão que nós temos a cumprir na terra. Descobrir, compreender e intelectualmente dominar aquele fragmento da lei divina que é acessivel às faculdades humanas, transmudá-lo em acção (até onde as forças humanas o permitem) aqui, onde Deus nos pôz, é o nosso fim, o nosso dever. Cada um de nós e todos nós estamos sujeitos ao esforço de incarnar na humanidade aquela porção de verdade eterna que nos foi dado perceber, de converter em uma realidade terrena tão grande parte do «reino dos céus», da concepção divina que repassa a vida, quanto nos foi dado compreender».
Não era ingrato à egreja, «nem irreverente perante as suas grandes ruinas». Não esquecia «que lhe deviamos não só a ideia da unidade da família humana, da igualdade e emancipação das almas, mas tambêm a salvação das relíquias da nossa anterior civilisação latina».
«A salvação do cristianismo e por êle a salvação da civilisação europeia, pela unidade da hierarquia durante um período de anarquia e trevas; o espírito de amor com os pobres e os párias aflictos da sociedade que inspirou os primeiros bispos e papas; a luta severa sustentada por êles em nome da lei moral contra o poder arbitrário e a ferocidade dos senhores feudais e dos reis conquistadores; a grande missão (desconhecida em nosso tempo por aqueles que nada sabem ou compreendem da história) cumprida por êsse gigante da inteligência e da vontade, Gregorio VII, e a fecunda vitória que êle ganhou em auxilio do govêrno do espírito sôbre as armas reais, do elemento italiano sôbre o elemento germanico; a missão da conquista civilisadora entre povos semi-bárbaros levada a cabo pela egreja; o impulso dado à agricultura pelos monjes durante os tres primeiros séculos, a conservação da linguagem de nossos pais, a época esplendida de arte inspirada no dogma, as obras eruditas dos beneditinos, o começo da educação gratuita, a fundação de instituições de benevolência, nossas irmãs de misericórdia»—tudo isso Mazzini lembrava e respeitava na vida da egreja.
Mas acusava a egreja da «insania de pretender que um facho, aceso há desoito séculos para lhe iluminar a jornada atravez de uma única época, estava destinado a ser uma única luz no caminho do infinito». Acusava-a de «desconhecer a santidade da alma de Jesus, superior a toda a outra em inspiração e amor fraterno, transformando-o, a despeito dos seus mais sublimes pressentimentos, em um vulgar e eterno tirano das almas». Uma religião expirava, se perdia o poder de sacrifício. E o catolicismo «podia ainda, com o auxílio dos enganos dos seus ministros e da pompa dos seus ritos, juntar em volta de si o concurso numeroso de fieis, aparentemente dedicados, e assim continuar fazendo, emquanto a única escolha dêsses fieis está entre as recordações de uma fé, outrora grande e fecunda em bens, e as negações áridas de um materialismo embrutecedor. Mas pedissem a esses fieis para morrerem pela egreja e pela fé que ela representava, e não se encontraria entre eles um só mártir».
«Não se enganasse a egreja! Em volta dela a fé agonisava. Como scentelhas derradeiras de um fogo que se apaga, a fé, em nossos dias, desfalecendo encontra expressão nas orações murmuradas perante os nossos altares, por força do hábito, em momentos breves e determinados. Evapora-se à porta da egreja, e não mais governa ou guia a vida quotidiana dos homens. Dão uma hora para os céus e o dia para a terra, para os seus cálculos e interêsses materiais, ou para estudos e ideias estranhos a toda a concepção religiosa».
A fé em Deus determinava uma economia, uma constituição e uma repartição da riqueza, assim como determinava uma regra de liberdade e amor nas relações civís e políticas. Fôra ela que lentamente fizera crescer «no espírito dos homens o sentimento do dever social com as classes trabalhadoras», que se tornára preponderante na política do nosso tempo e fizera da liberdade de concorrência um espectro de crueldade. «Para aqueles que nada possuem, para aqueles que são incapazes de poupar o quer que seja no salário quotidiano e não teem, por conseguinte, cousa alguma para começarem qualquer empreza comercial, a liberdade de concorrência era uma mentira, como a liberdade política era uma mentira para aqueles que por falta de educação, instrução, oportunidade e tempo não podem exercer os seus direitos».
O progresso seria essencialmente um estado de consciência. «Realiza-se passo a passo, por virtude de leis que nenhum poder humano pode dominar, por desenvolvimento, pela modificação perpétua dos elementos que manifestam a actividade da vida. Muitas vezes os homens, em certas épocas, em certos países e sob a influência de certos erros e prejuízos, deram o nome de elementos, de condições da vida social, a cousas que não teem a sua raiz em a natureza, mas sómente nas convenções e costumes de uma sociedade iludida, e que desaparecem fora dessa época particular ou além dos limites próprios dêsses países. Mas podemos descobrir quais são os verdadeiros elementos inseparáveis da natureza humana, interrogando os instinctos das nossas almas e verificando em face das tradições de todos os tempos e de todos os países se êsses instinctos nossos são como sempre fôram os instinctos da humanidade».
E, evidentemente, desde que o progresso é êsse «desenvolvimento», sujeito a leis fóra do alcance do poder humano, o remédio para a deplorável condição presente não podia encontrar-se em qualquer organização geral arbitrária, feita segundo o plano de certo espírito e estabelecida por decretos. Tudo isso resultava em ilusões por diversos modos destinadas a naufragarem e a dissiparem-se. O remédio tinha de ser qualquer outra cousa que não significasse a criação de uma humanidade nova, mas que continuasse a humanidade nas suas tendências essenciais e indestructiveis. «Algum dia fomos escravos, depois servos, depois assalariados; não tardará que sejamos, se o quizermos ser, livres produtores e irmãos na associação—associação livre e voluntária, por nós mesmos organizada em certas bases, entre homens que mutuamente se conhecem, amam e estimam, não a associação obrigada, imposta pela autoridade que governa e ordenada sem respeito pelos laços e afeições individuais, tratando os homens mais como máquinas de produzir do que como seres de livre e espontânea vontade».
Só pela renovação moral dos homens se alcançará a renovação das sociedades. Essa é a condição de toda a reforma social. O progresso só é eficaz e duradouro se o fundou a capacidade de progredir. «A sorte de um homem não se altera renovando e embelezando a casa em que êle vive. Onde só respira o corpo de um escravo e não a alma de um homem, todas as reformas são inuteis; a morada limpa, luxuosamente mobilada, é um sepulcro branco, nada mais». «Só os princípios edificam». «Onde quizermos realizar um dos grandes feitos chamados revoluções, temos sempre de ir ao conhecimento e à pregação dos princípios. O verdadeiro instrumento do progresso dos povos tem de se procurar no factor moral». Não suprimiremos o factor económico nem é possível suprimí-lo, mas subordinámo-lo ao factor moral, «porque fora do govêrno da sua influência, desligado dos princípios e abandonado às teorias do individualismo que hoje o governam, resultará em egoismo bruto, na luta perpétua entre homens que devem ser irmãos, na expressão dos apetites da espécie humana». A cada estado do progresso devia corresponder «uma melhoria positiva da condição material do povo»; mas sustentava que «os interêsses materiais não podem desenvolver-se sósinhos, dependem dos princípios, não podem ser a mira e o fim da sociedade. Porque sabiamos que semelhante teoria destrói a dignidade humana, porque nos lembramos que, quando o factor material começou a apossar-se de Roma, e o dever com o povo se reduziu a dar-lhe pão e jogos, Roma e o seu povo apressaram-se na própria destruição; porque viamos hoje em França, na Espanha, em todos os países, a liberdade calcada aos pés ou atraiçoada, precisamente em nome dos interêsses comerciais e daquela doutrina servil que separa dos princípios o bem-estar material».
São «as ideias que governam o mundo e os seus acontecimentos. Uma revolução é a passagem de uma ideia da teoria à prática. Digam os homens o que disseram, os interêsses materiais nunca causaram e nunca causarão uma revolução. A pobreza extrema, a ruina financeira, a tributação opressiva e desigual, podem provocar levantamentos que são mais ou menos ameaçadores e violentos, mas nada mais. As revoluções teem a sua origem no espírito, nas próprias raizes da vida; não no corpo, no organismo material. Na base de toda a revolução há uma religião e uma filosofia. É uma verdade que pode provar-se por toda a tradição histórica da humanidade».