Acreditassem os seus camaradas revolucionarios da Italia «nas palavras de um homem que, durante trinta anos, estudou o curso dos acontecimentos na Europa e na hora do triunfo viu perdidas pela imoralidade dos homens as emprezas mais santas e uteis. Não venceriam senão tornando-se, êles mesmos, melhores; não conquistariam o exercício dos seus direitos senão merecendo-os pelo sacrifício, pelo engenho e pelo amor. Se os procurassem em nome de um dever cumprido ou para ser cumprido, alcançá-los hiam; mas, se os procurassem em nome do bem-estar que os materialistas lhes tinham ensinado, apenas alcançariam triunfos momentaneos, seguidos de desilusões tremendas. Atraiçoavam-nos aqueles que lhes falavam em nome do bem-estar, da felicidade material. Tambêm êsses procuravam o seu bem-estar e para o obterem queriam unir-se com eles, como um elemento de fôrça, emquanto tinham obstáculos a vencer; mas, logo que com o seu auxílio tivessem obtido o bem estar, abandoná-los hiam para que tranquilamente podessem gozar a conquista. Era essa a história do último meio século e o nome dêsse meio século era materialismo».
As sociedades nunca poderiam renovar-se pelo conhecimento, estudo e organização dos interêsses económicos. «As classes abastadas, no conforto da sua prosperidade, nunca experimentam privação ou sofrimento. Por vezes, vêem a miséria do pobre, mas facilmente se habituam a considerá-la uma triste necessidade, e deixam às gerações futuras o cuidado de lhe encontrar remédio. A indiferença e o esquecimento são doces para o homem que se sente no santuário da sua família, cercado de faces sorridentes, emquanto lá fóra sopram as rajadas do inverno e a neve, ligeira e bela, lhe bate nas vidraças da janella dupla. Esperareis erguer da sua apatia estes favorecidos do mundo pela simples expressão da situação económica e do que deva substituí-la em uma sociedade bem organizada? Esperareis arrancá-los do seu repouso egoista meramente pela análise do que acontece em uma esfera na qual eles nunca penetraram? Talvez em teoria aprovem as vossas doutrinas utilitárias; não lhes peçam, porêm, que promovam a sua aplicação. Porquê? Falam-lhes em nome de interêsses. Não é o gozo o primeiro dos interêsses? E êles gozam».
A nacionalidade e o patriotismo que a sustenta, serve e fortalece, será tambêm um facto de consciência moral e religiosa e nunca, por mais habilmente desfigurada que ela seja, pode fundar-se e manter-se pela delimitação do território, pelo agregado e conjugação das fôrças económicas e por qualquer combinação de actividades políticas. «A nacionalidade é a crença em uma origem e um fim comum. Se hoje fôr fundada em um interêsse, pode ser derrubada amanhã por outro interêsse mais ousado e mais poderoso». «Só quando o evangelho da fraternidade de todos os homens de uma nação fez da alma santuário de virtude e amor, quando a grande concepção da nacionalidade deixou de se encontrar reduzida a proporções mesquinhas, quando procura para base dos seus direitos alguma cousa mais que o interêsse material, interêsse que sempre tem o seu rival... só então teremos uma nação como nunca será possível tê-la dos sofistas que podem achar uma nacionalidade sem Deus».
O progresso é um acto de fé. «A cada passo no pensamento religioso correspondia um progresso na vida civil». «Deus assim o quer» seria o grito eterno de todo o movimento que tem «por fundamento o sacrifício, por instrumento os povos, e por fim a humanidade». «O pensamento religioso é o alento da vida da humanidade, a um tempo a sua vida e alma, o seu espírito e o sinal externo. A humanidade só existe na consciência da sua própria origem e no pressentimento dos seus próprios destinos». Fora do trabalho da reforma moral «toda a organização política é estéril», e é ilusão esperar triunfos se «do nosso trabalho banirmos a ideia religiosa». «Só a consciência liberta os povos». «O elemento religioso é universal e imortal. Em toda a grande revolução está marcado o seu sinal, revela-o na sua origem e fim».
Acreditava «em um Deus, autor de quanto existe, o pensamento absoluto vivo, de que o nosso mundo é um raio e o universo a incarnação». Acreditava em «uma lei, geral e imutável, que constitue o nosso modo de existir, que compreende toda a série possivel de fenómenos e exerce uma influência continua sôbre o universo e sôbre tudo aquilo que êle contêm, no seu aspecto físico como no seu aspecto moral». E a lei da vida, para Mazzini, era por igual essencial e simples.
«Cristo disse:—«Amae primeiro a Deus e amae-vos uns aos outros com afeição fraterna». E disse tambêm:—«Entre vós será o primeiro aquêle que fôr o servo de todos». Toda a essência do cristianismo se compreende nestas palavras. Unidade de fé, mútuo amor, fraternidade humana, actividade nas boas obras, a doutrina do sacrifício, a afirmação da doutrina da igualdade, a abolição de toda a aristocracia, o esforço de perfeição no indivíduo e a liberdade, sem a qual nem o amor nem a perfeição podem existir—tudo assim se resume naqueles dois preceitos».
«Toda a revolução social é essencialmente religiosa. Toda a época tem a sua crença. Sem unidade de fé, a associação é impossivel; prégar a humanidade, a pátria, o povo, essas grandes fórmulas da associação que superiormente dominam o nosso tempo, emquanto negamos ou despresamos o sentimento religioso, é desconhecer a significação dessas palavras, querer o fim sem os meios, a obra sem os instrumentos necessários. Como fôrem as nossas crenças, assim elas nos hão-de dar a regra de acção». Em seu coração «amava a visão de uma fé, não de uma escola».
Os direitos em que a Revolução Francesa se fundou, involviam a mais traiçoeira das aspirações de uma sociedade. Foi glória do Profeta, talvez a mais alta das muitas que o coroaram, a intuição e o ardor com que opôz o dever ao direito, em um momento em que apaixonadamente se combatia e morria pelo fetichismo do direito, sem que das hecatombes que provocou podesse resultar nem a fortuna nem a tranquilidade dos homens, arrastados de escravidão em escravidão, de miséria em miséria, de tormento em tormento, de incerteza em incerteza. Um erro inicial os transviava e perdia; ignoravam que «o unico padrão da vida é a ideia do dever, santa, inexorável, dominante».
«Fazer da política uma arte e apartá-la da moralidade, como os estadistas e diplomatas reais desejavam, era um pecado perante Deus e uma destruição perante os povos. O fim da política era a aplicação da lei moral à constituição civil de uma nação na sua dupla actividade, doméstica e estranha. O fim da economia era a aplicação da mesma lei à organização do trabalho no seu duplo aspecto de produção e distribuição».
«Não pregassem, não trabalhassem em nome de direitos que apenas representavam o indivíduo, mas em nome do dever que representava o fim de todos. Não havia direitos alguns, salvo os que eram conseqùência dos deveres cumpridos; podiam resumir-se em um só direito—que os outros cumpram comnosco o dever que nós cumprimos com êles. Não dissessem que a soberania está em nós. A soberania está em Deus. A vontade do povo só é sagrada quando interpreta e aplica a lei moral. Quando dela se afasta, é impotente ou nula e não representa outra cousa senão tirania.» «A sociedade de Rousseau, como a de Montesquieu, é apenas uma sociedade de seguros mútuos». Partindo da filosofia da liberdade individual, destituiu de fecundidade êste princípio baseando-o, não sôbre um dever comum a todos, não sôbre a definição do homem como uma criatura social por essência, não sôbre a concepção de uma autoridade divina e de um designio providencial, não sôbre o laço que une o indivíduo à humanidade do qual êle é um factor, mas sob a simples convenção, confessada ou subentendida».