«Carecemos de ensinar não o direito, mas o dever, acordar para melhores cousas a natureza degenerada, a alma semi-exausta, o entusiasmo decrescente; carecemos de possuir a consciência do valor humano e da missão dos homens na terra, e por aí erguer a fôrça de proceder, que até agora está esmagada pela indiferença. E isso obra de princípios, de crença, de pensamento religioso, de fé. Foi a obra de Jesus. Não procurou êle salvar pela crítica um mundo moribundo. Não falou de interêsses a homens cujas almas estavam envenenadas pelo culto dos interêsses. Prégou no santo nome de Deus certas verdades até então desconhecidas. Estas poucas verdades que agora, desoito séculos depois da sua passagem, procuramos esforçadamente realizar, mudaram a face da terra».
«Três cousas eram sagradas—tradição, progresso, associação».
A tradição histórica tinha de ser considerada, «não com a ignorância presunçosa dos materialistas modernos, mas com a atenção reverente devida a uma representação da nossa vida colectiva, único padrão onde podemos deduzir e verificar a concepção da lei que a governa». A verdade encontrar-se hia no «estudo severo da tradição universal que é a manifestação da vida na humanidade». A humanidade, dizia, invocando e desenvolvendo o pensamento de Pascal, «é um homem que aprende continuamente. Os indivíduos morrem; mas a verdade que pensaram e o bem que produziram, não se perdem com eles. A humanidade junta-o, e os homens que passam sôbre as suas sepulturas aproveitam-no. Cada um de nós nasce hoje em uma atmosfera de ideias e crenças que são a obra de toda a humanidade antes de nós; cada um de nós traz inconscientemente algum elemento, mais ou menos valioso, para a vida da humanidade que se lhe segue. A educação da humanidade cresce como aquelas piramides orientais a que cada viandante junta a sua pedra. Passamos, viajantes de um dia, chamados a completar a nossa educação individual em outro lugar; a educação da humanidade brilha por scentelhas em cada um de nós mas o seu inteiro resplendor descobre-o lentamente, progressivamente, continuamente, na humanidade. De uma a outra tarefa, de uma a outra fé, passo a passo, a humanidade conquista uma visão mais clara da sua vida, da sua missão, de Deus e da sua lei». Onde a tradição e a intuição se completam e consubstanciam, «onde encontramos a voz permanente da humanidade harmonisando-se com a voz da nossa consciência, aí teremos ao nosso alcance alguma cousa com absoluta verdade».
O homem não é, porêm, apenas o investigador da verdade. «É pensamento e acção. As teorias podem modificar o primeiro; não podem criar o ultimo». E, fielmente obedecendo ao próprio espírito, em Mazzini confundiram-se o profeta e o homem da acção, o apostolado e a visão, o poeta e o revolucionário. Desde a adolescência selando com o sangue os juramentos da sua fé, conspirador e camarada certo em todas as inumeráveis e prolongadas revoluções que sonharam e fundaram a Itália unificada, muitas vezes o seu chefe audacioso e nobre, a sua alma, inspiração, e o seu braço executor, não houve risco a que se esquivasse, não houve penas que não experimentasse, desde o aturado exílio que em condições de pobreza, às vezes extrema, o apartou da família, da pátria e dos amigos, até à condemnação à morte e porventura à tentativa de assassinato que o perseguiram como milhafres. Não houve contrariedade ou ameaça que lhe vencessem o desprendimento e o ardor, uma vaga sêde de martírio. «Particularmente aborrecia o egoismo, tão popular com a gente de hoje. Não gastava o seu tempo cantando, orando e clamando a Deus que lhe salvasse a alma. Nem se entregava ao estudo e à cultura para lhe salvar o espírito. Sempre cuidava do espírito e da alma, mas era sempre do espírito e da alma dos outros». E «foi conspirador porque era muito fiel a Deus e ao Povo para que consentisse em os vêr atraiçoados, muito honesto para que vivesse submetido ao mal, muito bravo para que aceitasse a paz sem honra»[9].
Nem por isso lhe faltaram inimigos. Não podiam faltar a quem, na lógica inevitável dos princípios que se deduziam da sua fé, viu «classes perigosas nos eclesiásticos ociosos, de que há muitos mil, e nos ricos que com o seu dinheiro não faziam bem». Um instinto seguro os advertia de que quem tudo confiava do povo era naturalmente o adversário perigoso dos apanágios e privilégios que ensoberbeciam as aristocracias políticas e eclesiásticas. Cavour e Luiz Napoleão Bonaparte eram irmãos nos sentimentos com que detestavam Mazzini, e nem outra cousa se compadecia com o conflito de ideais que o amor do apóstolo e a ambição do aristocrata e do imperador em confronto necessariamente inflamavam. O profeta era apenas o éco da voz do cristianismo, e o cristianismo é a negação radical e a ruina de quantas aristocracias, hierarquias, divisões de classes e servidões o egoismo e a perversão dos homens teem inventado para contentar e engrandecer a paixão de mandar e as suas cobiças. Todos êsses sistemas de dependências morais, políticas e económicas partilharam daquela decadência das divindades pagãs que o monoteismo cristão confundiu e afugentou. Foram, na verdade, a tradução, em diferentes modos da vida social, de uma concepção moral e religiosa que caducou; foram deuses adorados por multidões submissas e inumeráveis, tiveram o seu culto, e absorvente, nos homens e nas cousas, no coração e nos bens da terra; mas, lentamente, outra e mais alta religião os destituiu do seu poder e prestigio, inspirando-nos e mostrando-nos uma outra razão da vida, adjudicando toda a nossa actividade intima e externa a um outro espírito. Não faz sentido ter e invocar como princípio de acção e dedicação o meu senhor», ou êle seja rei, ou sacerdote, ou fidalgo ou capitão de industria, quando senhores e vassalos de toda a casta e ordem e categoria todos teem de invocar e seguir o «seu Deus», aquêle perante o qual são irmãos igualmente humildes e sujeitos, dêle recebendo igualmente uma só e única lei de comunhão e coadjuvação. A obediência comum nivelou, e de facto destruiu só porque as nivelou, todas as gradações e distâncias em que as comunidades bárbaras se ordenaram e estratificaram, todos os despotismos e dogmatismos, mais ou menos benignos e fecundos, em que primitivamente se fundaram e viveram, tomando por eternidade a conveniência política ou religiosa de uma hora. Se em nossos dias essa ordem se mantém ainda por muitos modos e em diversos lugares, se persistem e são uma fôrça espiritual efectiva aquêles sentimentos de fidelidade, lealdade, dedicação e sujeição que eram seus vínculos e instrumentos, se essa ordem e todo o seu cortejo mental e espiritual sobrevivem quando já terminou a religiosidade íntima que era a sua essência e alma, é sómente porque, convertida em tradições políticas, estéticas, morais e eclesiásticas, senhora de altos monumentos e fortalezas que edificou, póde representar, e em muitos casos representa, uma utilidade prática, um sistema de conjunção e organização oportuno e cómodo, o remanescente de hábitos tardos em mudar e fiadores de uma estabilidade que é a primeira das condições de um desenvolvimento seguro. Mas, sem embargo, o império de Deus arruinou virtualmente o império dos cesares, desde os que são coroados em tronos magnificos até aos que teem seus escudos nos cofres à prova de fogo; e aquela simples virtualidade de um princípio é de efeitos práticos incomensuráveis e invencíveis. A consciência de uma escravidão eterna que a todos nos involve e subjuga, obliterou e perdeu aquela outra consciência de escravidões mortais, condicionadas, contingentes e transitórias, por longos séculos decisivas e supremas. Mazzini, que por ser fiel à primeira e lhe sujeitar a política denunciou as ultimas e as combateu e teve por calamitosas, não podia merecer-lhes senão anatemas.
Assim devia ser. Vinha antes da sua hora. E condição do profeta. Tinha de ser apedrejado e consagrado pela aversão e pela ira dos fariseismos absolutistas e demagógicos que disputavam o domínio do seu tempo. Amaldiçoado dos despotismos, por isso que pedia a liberdade, não podia ser amado do demagogismo, por isso que invocava Deus, religião e dever perante aqueles que em sua estreiteza e cegueira sómente viam e queriam o mundo, a materia e os direitos do homem, quanto a sordidez sugere e aponta, e na sordidez e nos seus enganos e dôres tripudia, mente e se desfaz.
Quando morreu, a 10 de março de 1872, deixava a terra inteira, e sobretudo a Europa, atónita e prostrada na adoração daquêle materialismo da fôrça e da riqueza que vencera em Sédan e nas escolas e academias, cimentando os alicerces de um grande império e aí se oferecendo à imitação das nações, emquanto se insinuava nos laboratórios e nas bibliotecas e aí endurecia o coração e envenenava o espírito das novas gerações. Nesse momento, Mazzini era um vencido; com o seu débil corpo se sepultavam as suas ilusões. Liberdade, religião e o povo que inconscientemente as guarda e serve, iam de tropel calcados e esmagados no culto de multíplices escravidões, no desprendimento de Deus e da sua lei, na fé vil de que o mundo era um banquete do qual só ao nosso ventre tinhamos a dar contas.
Dêsse banquete do materialismo robusto e convicto, reflectido, astuto, sabedor e previdente, tão abundante de servos envaidecidos da própria servidão como pródigo de vitualhas e orgias e orgulhoso dos seus anfitriões desvairados na grandeza do mando e dos bens, Mazzini viu as primeiras horas gloriosas. Então, o apóstolo era apenas uma sombra que se afundava naquêle crepúsculo em que o romantismo sonhador anoitecia, escarnecido satanicamente dos fortes que o apontavam à irrisão e condenação das multidões, por muito ter amado a liberdade e os homens.
Quarenta anos vão passados. O banquete degenerou no ajuntamento trágico das fúrias da morte e da ruina. E eis que Mazzini volta, na auréola da sua glória, a repetir-nos que sem Deus e sem dever e sem amor a terra será eternamente o inferno ensanguentado a que descemos.
FIM.