D'ahi vinha que o poeta, para se guiar no presente olhava para o passado, procurando descortinar-lhe as tendencias e a direcção, os affectos e as aversões, os beneficios e os damnos, a robustez e a fraqueza, a luz e as trevas, as bençãos e os castigos; e assim, por amor da «patria», mandamento da lei[{30}] do seu Deus, e á força de escavar, observar e meditar, viu-se cercado de apparições bemfazejas e espectros terriveis, surgindo das brumas que o olhar inflammado de sublimadas paixões penetrava, encaminhando-o «á gloria e á virtude», mandamentos tambem do seu Deus, e defendendo-o da queda em abysmos de ignominia e tortura. «Pelos becos tortuosos, sombrios e lodacentos» da cidade, embrenhando-se no «labyrintho de terreirinhos, escadas, pateos, arcos, passagens, indelineaveis e enredados como meada a que se perdeu o fio»[[34]], Alexandre Herculano ia procurar no amontoado informe dos restos do passado a revelação do seu fausto e da sua miseria, das suas degradações e da sua nobreza, de todos os seus impulsos, para os exaltar no que tivessem de elevado e digno e para os condemnar no que encerrassem de vil. «Muitas vezes passava largas horas deante dum portal de capellinha carcomida como velha enrugada; deante duma hombreira partida, onde apenas se divisavam cansados e gastos lavores da arte da edade media»[[35]]. Interrogava as pedras, a saber se as suas confissões confirmavam as palavras dos homens; remexia[{31}] a poeira, sobre a qual pesavam annos innumeraveis, a experimentar se, posta á luz do sol, lhe descobria ainda particulas palpitantes da vida d'outras eras; e dos lichens e musgos, cobrindo ruinas, desprendia lembranças que alli se tinham abrigado de contrariedades, e redivivas lhe vinham contar desgraças infinitas e magnificas victorias, esperanças e desenganos, paixões ruins e ardor santo, penas e bemaventuranças. De tudo tirava ensinamento avidamente, confiado em que por seu influxo havia de se salvar ou perder, conforme o empregasse, e por elle tambem, a sua patria, o chão onde nascera e os seus irmãos que o habitavam, encontrariam a felicidade ou a desventura.
A riqueza que n'essas peregrinações amontoou e nos legou, é estupenda; e o uso que d'ella fez, os sanctuarios em que devotamente a enthesourou, as edificações que com ella ergueu e onde a recolheu, o espirito em que por toda a parte a purificou e ungiu, ficaram como monumentos de perpetua gloria do povo portuguez, attestando o poder mental da raça e a susceptibilidade, d'óra avante para sempre provada, da grandeza religiosa da sua alma.
A epoca de Alexandre Herculano favoreceu-lhe singularmente as inclinações do espirito. A exploração historica entrava no desenvolvimento[{32}] assombroso de que as gerações modernas são testemunhas, colhendo-lhe os copiosos e preciosissimos fructos. A Allemanha, paiz que Herculano considerou, «por via de regra, o fóco de toda a sincera e verdadeira sciencia»[[36]], chamava a attenção da mocidade para uma renovação da arte, «a qual veio dar nova seiva á arte meridional que vegetava na imitação servil das chamadas lettras classicas, e ainda estas estudadas no transumpto infiel da litteratura franceza da epoca de Luiz XIV»[[37]]. E as formas em que esse renascimento se fundia e estampava eram abundantissimas, desde o trabalho de erudição rigida e analyse minuciosa até á novella opulenta de trajos resplendentes, palpitante de movimento e pujança no perpassar das multidões que desfilavam por deante dos nossos olhos atonitos, misturando lances dramaticos e gargalhadas comicas, placidez, heroismo e abjecção, generosidades e cobiças, ostentando sem reservas nem piedade todo o vigor e anceio do coração das sociedades nas conjuncturas infinitas a que a fatalidade o traz sujeito. O romance historico, ou a novella historica, como então se lhe chamava, iniciada na Inglaterra[{33}] por um talento de rara fertilidade e fascinação, espalhava-se na Europa inteira, abrindo caminho para desusadas concepções da litteratura e da arte. Associando as cousas vividas e as cousas sonhadas, a imaginação e a realidade, embora producto d'uma alliança hybrida perigosa que constrangia a imaginação pelas pressões da realidade e desfigurava a realidade pelas violencias da imaginação, o seu apparecimento assignala um fermentar de fecundidade inexaurivel e o descerrar de largos horisontes. Corrigiu com elementos sãos e de verdade os desregramentos da phantasia morbida, entontecida pela vertigem de liberdade infinita; conduziu á comprehensão das possibilidades, fundadas, logicas, acautelando-nos dos desenganos de ambições e esperanças insensatas; produziu salutares effeitos educativos. Na verdade, disciplinou e moralisou a imaginação, infundindo-lhe a consciencia do limite, obrigando-a a mover-se na esphera do facto e nos termos por elle marcados. Influiu até, em ultimo mas não menor resultado, no modo de comprehender e escrever a historia. Sem embargo, por virtude de influencias geraes contemporaneas mas um pouco, incontestavelmente, pela repercussão das tendencias da litteratura imaginativa, a historia começou a esquecer-se da narração dos feitos d'armas e[{34}] a emancipar-se do deslumbramento de façanhas heroicas e entrou com um esplendor sem precedente na resurreição integral dos seculos passados, tomando-lhes em conta todos os factores, apreciando e coordenando os multiplos poderes que collaboram na vida social dos povos e das nações, perante os quaes se reduz a proporções inferiores a efficacia da acção individual; dirigindo «as indagações historicas mais para o estudo da indole das sociedades do que para os actos dos individuos»[[38]]; verificando a concorrencia do clima, da situação geographica, das raças e dos accidentes do destino nos caracteres das diversas civilisações, representando-as e reconstituindo-as na plenitude da sua substancia. Coube á novella historica um papel de feliz equilibrio, accudindo por um lado áquella necessidade de exactidão e rigor scientifico que cada vez se exigia com maior instancia, annunciando a prodigiosa altura a que a ergueu a segunda metade do seculo XIX, e por outro lado deixando ainda livre curso e largo campo á liberdade da imaginação, que a ruptura e ruina da antiga ordem e de vinculos caducos provocava a reclamar os seus direitos. Todo o devaneio e ingenua falsidade do romance[{35}] historico, todos os seus exaggeros, correcções e corrupções, quasi invariavelmente motivados por desejos candidos de dar formosura e realce a muita cousa que merecia ser amada: os seus vicios e deficiencias estrictamente litterarios, porque para o produzir eram necessarios estudos aridos e, «no meio de estudos tediosos e positivos, é impossivel que o imaginar não descore, que o estylo não ganhe asperezas»[[39]], e obliteram-se faculdades creadoras essenciaes—todas essas faltas merecem prompta indulgencia, quando consideramos os beneficios de que elle foi vehiculo no progresso do pensamento humano. Que profundezas não cavou e abriu á nossa meditação a novella historica! Que clareza de visão do nosso ser não nos deu, como nos protegeu de fraquezas e errores dum imaginar sem lei, confiado a mero capricho, que estabilidade não nos infundiu! Com que delicia não nos insinuou o sentimento da immutabilidade das cousas e dos homens, a impossibilidade de nos esquivarmos a moldes, regras e sujeições, que se tornaram como ingenitas pela diuturnidade da sua influencia, e de que circumstancia alguma é capaz de nos isentar! Quanta vaidade desfez, que loucuras d'orgulho não dissipou, que[{36}] vigor não nos infundiu, que alma nova e bella não ajudou a crear e a alimentar, em logar d'aquell'outra, desnorteada e turva, formada nos turbilhões da poeira intellectual e moral erguida do ruir do velho edificio! Convertendo-se em propulsor energico do conhecimento da historia, em todos os aspectos da vida social, e simultaneamente sua filha e escrava, a novella alimentada n'esse riquissimo manancial foi, sem duvida, obra de grande proveito na jornada das nações e dos homens para os reinos luminosos de paz e felicidade, a que tão lenta e dolorosamente se encaminha. De todas as bençãos são dignos os trabalhadores pacientes e apostolos que lhe desprenderam de nuvens a claridade.
Teve Alexandre Herculano a incontestada gloria de desbravar na litteratura portugueza esse campo tão fecundo como saudavel. Elle mesmo nol-o confessa na Advertencia do primeiro volume das Lendas e Narrativas, cujos merecimentos se lhe afiguravam minguados pela inexperiencia, pela «singeleza da invenção, pouca firmeza no contorno de alguns caracteres e o menos bem travado do dialogo»; mas quiz colligil-as, tentando apenas preservar do esquecimento «as primeiras tentativas do romance historico que se fizeram na lingua portugueza, mormente dos esforços do auctor[{37}] para introduzir na litteratura nacional um genero duplamente cultivado, n'aquelles tempos, em todos os paizes da Europa». «Na historia dos progressos litterarios de Portugal, desde que a liberdade politica trouxe a liberdade do pensamento, e que o engenho poude apparecer á luz do dia sem os anginhos de uma censura tão absurda na sua indole, como estupida na sua applicação e esterelisadora nos seus effeitos», n'essa historia, dizia, aquella nova edição, reunindo pequenos romances e narrativas, que andavam dispersos em volumes separados e em publicações periodicas, devia ser julgada principalmente com attenção «á prioridade das composições n'ella insertas, e á precisão em que, ao escrevel-as, o auctor se via de crear a substancia e a forma, porque para o seu trabalho faltavam absolutamente os modelos domesticos».
Desconfiava do talento com que produzia as primicias d'essa renovação litteraria, mas tinha certeza e fé na fecundidade e belleza dos resultados que promettia, sobretudo no resurgimento moral que nos infiltraria. «Fossem as memorias da patria, que tivemos, o anjo de Deus que nos revocasse á energia social e aos santos affectos da nacionalidade. Que todos aquelles a quem o engenho e o estudo habilitavam para os graves e profundos[{38}] trabalhos da historia se dedicassem a ella. No meio d'uma nação decadente, mas rica de tradições, o mistér de recordar o passado era uma especie de magistratura moral, era uma especie de sacerdocio. Exercitassem-no os que podiam e sabiam; porque não o fazer era um crime. Que a arte em todas as suas formas externas representasse esse nobre pensamento; que o drama, o poema, o romance fossem sempre um ecco das eras poeticas da nossa terra. Que o povo encontrasse em tudo e por toda a parte o grande vulto dos seus antepassados»[[40]].
N'esse «quinto imperio de mentecaptos dissertadores e mexediços»[[41]], em que por sua desgraça se via involvido e de cuja inanidade e degradação tremia, n'essa liberdade de especulação e impudor que foi a primeira das liberdades asseguradas ao fim de tantas batalhas e sacrificios, já aterrado pela ruina e devastação de toda a casta, material e moral, no meio da qual se debatia, tropeçando e ensanguentando-se a cada passo nos destroços de tanta cousa querida e digna de ser amada, clamava aos homens de espirito são e coração puro que corressem a defender e guardar o[{39}] patrimonio das nossas infinitas riquezas, desbaratadas pelas mãos ignorantes e sacrilegas de ambiciosos depravados e sordidos, e de imbecis não menos funestos do que os mercantes ingenuamente avidos e cynicos. «Com a rapidez da colera ou da peste corria por todos os angulos de Portugal e encasava-se em todos os povoados uma cousa hedionda e torpe, que, inimiga do passado e do futuro, se chamava illustração; que tendo por logica o escarneo e por syllogismo o camartello, se chamava philosophia. Deus a mandára ao mundo como mandou Attila e a Inquisição, como um verbo de morte. Seu mistér era apagar todos os santos affectos da alma, e incarnar no coração, em logar d'elles, um cancro para o qual nossos avós não tinham nome, e que estranhos designaram pela palavra egoismo. Que se apressasse aquelle que quizesse guardar alguns fragmentos do passado para as saudades do futuro; porque a illustração do vapor e do atheismo social alli ia livelando o que foi pelo que era, a gloria pela infamia, a fraternidade do amor da patria pela fraternidade dos bandos civis, as memorias da historia gigante do velho Portugal pelo areal plano e pallido da nossa historia presente, a obra artistica pelos algarismos do orçamento, o templo de Christo pela espelunca[{40}] do rebatador. Que se apressasse; porque esses rastos dos antepassados que o tempo e os incendios, e os terremotos nos deixaram, não nol-os deixaria o descrer brutal d'aquelle seculo, que a historia distinguiria pelo epitheto de bota-abaixo, e cujo legado monumental para os seculos que viriam após elle seria um cemiterio immenso; mas cemiterio sobre o qual não se elevará sequer a humilde distincção d'uma cruz»[[42]].
Elle, por sua parte, dava-lhes exemplo. No sagrado trabalho a que chamava os outros era o primeiro, infatigavel no ardor com que lhe votára uma energia e capacidade de todo o ponto raras, e copioso na abundancia com que desentranhava diamantes de filões obscuros e nunca encetados, e até muitas vezes desprezados, estando aliás bem patentes á luz do sol, de continuo pisados pela vulgaridade obtusa. Foi assim que nos deu o Eurico, o Monge de Cistér, Lendas e Narrativas, O Bobo e mil outras pequeninas joias prodigamente dispersas onde quer que o seu genio passasse, em qualquer assumpto sobre que discorresse.
Sem duvida, nem sempre o fez com perfeição. Muitas d'essas joias ficaram por lapidar, ou melhor, foram lapidadas de modo que[{41}] não lhes poz em evidencia todo o seu brilho. As suspeitas de Alexandre Herculano quanto á sua obra d'arte imaginativa, eram fundadas. «A singeleza da invenção» tocou por vezes a pobreza de esqueleto; «a pouca firmeza nos contornos de alguns caracteres» aqui e além se manifesta, enfraquecendo-os por insuficiencia d'accentuação, não lhes facultando ensejo de intervirem em situações tão multiplicadas e diversas que a diversidade de conjunctura, coincidindo com a identidade de proceder, ponha bem clara a invariabilidade das feições; e ao dialogo, embora habitualmente «bem travado», contra o que o auctor aventa, acontece com frequencia encurtar-se e terminar muito áquem do desenvolvimento necessario ao pleno effeito de impressão. Mas todas essas faltas, que em outros seriam grandes, porque a magreza das creações não lhos dispensava cuidados de trajo, a debilidade da estructura carecia de se occultar na opulencia do adorno e só por si, sem o amparo e esmero do involucro, não se sustinha nem realçava, todas essas faltas em Alexandre Herculano somem-se na torrente d'um cabedal avultado, cuja enorme somma nos confunde e avassala. Ou procure esboçar-nos o quadro d'uma epoca, como no Monge de Cistér, ou se restrinja ao desenho de simples incidentes, como nas Lendas[{42}] e demais obras d'igual natureza, a exuberancia da seiva que as nutre, a intensidade de vibração psychologica que as anima e o grau de concentração em que tudo isso se nos revela, são um facto unico na litteratura portugueza, um limite nunca antes nem depois de Alexandre Herculano excedido ou sequer alcançado. O que nos fica na lembrança quando pousamos qualquer d'esses livros, por magia igualmente deliciosos e severos, é um torvelinho indescriptivel de objectos estranhos e não menos estranhos espiritos. Se a riqueza é grande em materia descriptivel, trajos, moveis, armas, habitações, combates, festas, jogos, banquetes e bens do mundo, movimento e côr, não é inferior na prodigalidade de aspectos moraes; n'esse tropel de servos e senhores, no conflicto de dependencias e instituições, a violencia do drama, riqueza tambem e preciosa em todos os tempos, não cessa de jorrar um instante, agitando de ondas humanas as materialidades ambientes, espargindo-se em uma atmosphera de ambições, de cobiças, de hypocrisias, de traições, de heroismo e dedicação a par da mesquinhez e da perfidia, de grandeza e de miseria, de todas as paixões emfim que constituem e eternamente hão de constituir o supremo mysterio e seducção suprema da nossa alma. Porque todas essas[{43}] cousas que Alexandre Herculano resuscitou as tirou das cinzas, não para por si só reviverem mas para de novo se mostrarem nas suas relações com os homens; por isso que no passado adivinhou problemas d'uma actualidade perpetua, por isso os seus romances nos prendem e vencem, rendendo-nos á apreciação e ao peso de forças immortaes, communs ao passado e ao presente, mostrando-nos docemente o passado no presente e o presente no passado. Esta unidade da historia realisada na unidade do coração humano atravez de todos os tempos e modos, ergueu-lhe a phantasia litteraria a tal altura que não podia perturbar-se-lhe a grandeza por escassez de adornos, de refolhos de expressão ou fertilidade de invenção—revestimento, tantas vezes enganoso, d'uma real e profunda inanidade, supprida por alimento succulento para os que por sua fortuna e gloria foram dotados de excellencia authentica de faculdades.
Mas «no meio de estudos tediosos e positivos é impossivel que o imaginar não descore», dizia-nos o mestre no escrupulo da sua franqueza; e, por certo, dizendo-o tinha em lembrança a sua propria experiencia. Emquanto se afferrava a compulsar e a interrogar a historia, e o amor da patria lançára-o n'esse caminho e ahi o mantinha quasi sem admittir[{44}] desvio, o espirito tornou-se cada vez menos indulgente com os errores da imaginação, menos docil para as suas exigencias, menos affeiçoado aos seus prazeres; enamorado de realidade extrema, deixava affrouxar sem saudades impulsos creadores, e nem sequer tentara conservar-lhes a vivacidade primitiva. De facto, o sonho ia descorando; desvanecia-se. As tendencias, de sua natureza divergentes e algum tempo conciliadas por muito e subtil engenho, recobravam independencia e em campo proprio abrigavam-se da rudeza dos attritos que as enfraqueciam, inutilisando largo capital, sacrificando a embates e antagonismos bens valiosos, perdidos em restricções obrigadas e concessões mutuas indeclinaveis. O novellista e o poeta tinham de abdicar nas mãos do historiador, para o deixarem livre de toda a coacção, não todavia tão absolutamente que lhe privassem as obras dos reflexos da presença de tão leaes servidores, nunca de todo affastados, mas apenas distanciados o bastante para o dominio e evidencia da robustez herculea do mineiro e escriptor do passado. Desembaraçou-se do enleio em forças estranhas, e, desprendido das paixões e artificios que abalavam a affirmação e a impediam de accentuar-se e dilatar-se, foi então até onde o incitavam a chegar uma abundancia e valor[{45}] de materiaes desentranhados dos archivos e uma lucidez de interpretação, até aquella data ignoradas em terras portuguezas. Embora os caprichos de narrativas romanticas muito encantassem, estorvavam todavia o inteiro desenvolvimento da capacidade de revelação, justamente avida de ostentar-se na plenitude do seu vigor. Necessario se tornou ceder-lhe a preponderancia.
Singular fortuna! Exactamente quando a arte não buscava e só d'uma extrema exactidão historica cuidava, Alexandre Herculano produziu a sua mais bella obra d'arte. Em nenhum dos seus trabalhos, e é de notar que em toda a ordem do pensamento humano discorreu, alcançou a lucidez, a ponderação, a singeleza e a elasticidade de forma que attingiu na Historia de Portugal. Olhamos com temor para os seus quatro volumes bem providos de citações, de factos e referencias, tumidos de velharias extravagantes e termos obsoletos na linguagem e nos objectos que significavam, suspeitamos do peso do saber e agouram-se-nos enfados de repetições e minucias, de analyses prolongadas e discussões infinitas; e vamos encontrar uma suavissima lição, rapida sem insufficiencias levianas nem obscuridade de precipitações e lacunas, profunda sem oppressão e cansaço de dissertações[{46}] ociosas, sem a fadiga de esforços de attenção e applicação á destrinça de elementos agglomerados ao acaso e mal ordenados, lição tão segura quando tem motivos de affirmar como discreta quando pressente alguma duvida, infundindo-nos um encanto e confiança que d'um só golpe nos subjugam e nos arrancam applausos de admiração e de affecto sorridente e grato a quem nos concede um elevado e purissimo prazer e o fabricou, para nosso bem e cultura, á custa d'um trabalho gigantesco.