[APPARIÇÕES E ESPECTROS]
O poeta tinha uma missão na terra. O Deus que na consciencia se lhe revelava e elle adorava, não era um principio de puro extasi e absorpção contemplativa, uma corrupção da energia organica no arrebatamento e na abdicação de todo o desejo proprio, mas uma vontade determinando a acção, desenvolvendo-se de continuo nas cousas da terra, exigindo dos homens de fé que se subordinassem ao seu imperio, e lhe traduzissem a essencia nas realidades contingentes e mortaes.
Sentindo no intimo o dominio d'essa vontade suprema, Alexandre Herculano logo cogitou os modos de a cumprir, tão perfeitamente quanto em suas forças coubesse, e sem tardar se entregou á execução dos seus mandados com uma fidelidade absoluta.[{28}]
[I]
Ordenava-lhe Deus que servisse a patria, a gloria e a virtude.
Deus á poesia deu por alvo a patria
Deu a gloria e a virtude[[31]].
Mas o que era a sua patria? Que queria ella do seu affecto? Como conhecel-a e concebel-a, para se identificar com a sua vida e encorporar o impeto do seu genio no pulsar d'essa vida maior que a sua, commungando-lhe da aspiração e n'ella se abrazando, immolando-se ao seu triumpho?
«Os annos e os seculos confundem-se e igualam-se deante da vida perpetua do universo»[[32]].
Ha uma eternidade no mover das cousas do mundo que Alexandre Herculano não ignorou; ha uma continuidade e repetição que apaga a distancia, o espaço e a individualidade, as distincções entre o dia de hoje e o dia de[{29}] hontem, entre o pólo e os tropicos, entre o rochedo e o homem, entre as raças, nações e epocas. Mas a repetição e a continuidade operam-se pela renovação successiva, pela dissolução e reconstituição incessantes; as distincções e as distancias, de cujo confronto e verificação ha de resultar a percepção da unidade, só se revelam nas creações ephemeras e, para bem servir o eterno, havemos de o sentir e amar na caducidade a que descer, no transitorio e momentaneo.
«Debaixo dos pés de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de muitas gerações que a precederam»[[33]], e só ligando a nossa geração áquellas de que procede, conseguiremos, por nossa vez, encarnar a vontade divina. Sendo a mesma atravez dos seculos, demanda para integridade da sua expressão a filiação estreita dos seres em que se mostra.