Antes porém da libertação extrema, o crente teria de experimentar as tentações da impiedade e n'esse combate succumbir ou armar-se, invencivel, para o ultimo triumpho.
Alexandre Herculano passou pelo baptismo pessimista. Não lhe poupou o destino o transe supremo, que é provação da grandeza, e perante o qual succumbiram ou se desvairaram nobilissimos espiritos do seu tempo. Sómente o soffre quem entreviu reinos sublimados de pureza e, para os alcançar, lançou o vôo que invariavelmente o mundo corta, na sua miseria eterna, com crueldade e escarneo. E então a dôr é tão aguda e funda que ainda os mais fortes muita vez lhe preferiram a rendição total e ultima desgraça, entregando-se, exultando, a quem os remisse do supplicio e lhes desse a paz, anjo ou demonio que se lhes apresentasse.
A «doce mãe do repouso» com o seu «amoroso aspecto», a «calumniada morte» tentou Alexandre Herculano, como sempre, invariavelmente, tentou quantos se enlevaram[{20}] em aspirações santas e, «sentindo-as morrer no fundo do coração», calcadas por «quanto ha vil no mundo», sonharam libertar-se do conflicto terrivel das visões celestes com as realidades terrenas. Tambem elle soffreu os negros anceios de anniquilamento que essa angustia provoca; tambem lhe entonteceu os sentidos a vertigem dos abysmos da inconsciencia, para se resgatar de contradicções intimas, pungentes, em que n'uma agonia infinda a negação das cousas respondia ás affirmações da alma, satanica e desapiedadamente, com irrisão e ludibrio. E implorou então o soccorro da «peregrina eterna» que, sendo temida em seu mysterio, a elle, infeliz e naufrago, lhe promettia a redempção de todo o mal:
«Oh morte, amiga morte! É sobre as vagas
Entre escarceus erguidos
Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
Meus dias aborrecidos:
Quebra duras prisões que a natureza
Lançou a esta alma ardente;
Que ella possa voar por entre os orbes
Aos pés do Omnipotente.
Doce mãe do repouso, extremo abrigo
De um coração oppresso
Que ao ligeiro prazer, á dôr cansada
Negas no seio accesso,
Não despertes, oh não! os que abominam
Teu amoroso aspeito;[{21}]
Febricitantes que se abraçam, loucos,
Com seu dorido leito!
Tu, que ao misero ris com rir tão meigo,
Calumniada morte;
Tu, que entre os braços teus lhe dás azylo
Contra o furor da sorte;
Tu, que esperas ás portas dos senhores,
Do servo ao limiar,
E eterna corres, peregrina, a terra
E as solidões do mar,
Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
Já filhos teus nasceram:
Um dia accordarão d'esses delirios,
Que tão gratos lhes eram.
E eu que vélo na vida e já não sonho
Gloria nem ventura;
Eu, que esgotei tão cedo, até ás fezes,
O calix da amargura:
Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
De quanto ha vil no mundo,
Santas inspirações morrer sentindo
Do coração no fundo,
Sem achar no desterro uma harmonia
De alma, que a minha entenda,
Porque seguir, curvado ante a desgraça,
Esta espinhosa senda?»[[28]]
Respondia-lhe uma voz intima, assegurando não só a necessidade de proseguir na jornada, atravez de todas as angustias, mas tambem a certeza da recompensa, se fosse em obediencia[{22}] á vontade divina e sujeito á sua inspiração.
A tentação da morte teria sido para Alexandre Herculano apenas um «pensamento infernal», gerado em meio da tempestade[[29]]. Ao seu rugir comparou o clamor da consciencia desvairada, quando, accordando para o conhecimento das cousas e dos homens e reconhecendo mentira nas esperanças cujos sonhos nos affagavam ao «despontar do dia», ao entrar na vida da aspiração, recua aterrada e endoidecida, sem saber que caminho a possa conduzir a salvamento. Mas a tempestade é de sua essencia transitoria, por muito violenta e assoladora que haja sido nos effeitos de destruição irreparavel; seguem-se-lhe horas de bonança, a serenidade reapparece e mantem-se, illuminando os destroços e atenuando-lhes a tristeza do aspecto; embora jámais deixemos de os vêr, duradouros, claros e manifestos, sobrevém reparações do tempo, lentas e imperfeitas, sem duvida, mas capazes todavia de nos trazerem momentos de calma e até de ventura; sobre as ruinas crescem verduras. Na propria terra ha poderes de renovação indestructiveis, eternidades cosmicas[{23}] que de toda a tormenta sáem illesas e intactas.
Do mesmo modo acontecia ao poeta. A angustia em que os primeiros golpes da desillusão o lançaram, a agitação de que nascia o desejo de se afundar n'essa noite sem fim da inconsciencia, dissipava-se como os bulcões varridos pelo vento que elles geraram e que o vento na sua violencia desfaz. Acalmada a tormenta, contemplando o que lhe restava da sua devastação e procurando unil-o e reanimal-o em novas creações d'uma fortaleza intangivel, precavida contra o assalto de toda a adversidade, o poeta encontrava «um consolo», e pressentiu que «nas trevas da existencia Deus lhe deixára doce amizade e amor». Por elle se ergueria para «passar sua noite a luz tão meiga até ao amanhecer, até subir á patria do repouso, onde não ha morrer»[[30]].
É que ás eternidades cosmicas correspondem eternidades do espirito, e n'ellas se formára e retemperava incessantemente a alma de Alexandre Herculano, defendida contra toda a traição da amargura, para todo o combate armada invencivel, em toda a contingencia.[{24}]
[{25}]