«Feliz ou infeliz, triste ou contente
Livre o poeta seja.»[[20]]

De facto, libertou-se. E, libertando-se, em toda a sua magestade se mostrou, na atmosphera a que anciosamente aspirava, fóra d'aquell'outra que o desfigurava pela incessante coacção das suas energias caracteristicas.[{15}]

[II]

Pouco indulgente com a sensualidade, porventura deshumanamente rigoroso com os seus impulsos, a solidão e a vida rural não seriam para Alexandre Herculano isenção de fadigas physicas e desenlace d'aspirações naufragadas, adormecimento de mágoas e repouso n'uma animalidade cuidada, bem mantida, satisfeita e robusta. Não seriam uma festa lauta dos sentidos, por demais castigados da escuridão da cidade, mas uma devoção gratissima do espirito desonerado de temporalidades que o mortificavam, tão pesadas pelo tumulto e pressão ininterrompida, como estereis pela inanidade das consequencias moraes. Amando o ermo e procurando-o, não o chamava a delicia pagã; se tanto lhe queria, era por obediencia religiosa, porque alli melhor interpretava e cumpria a vontade do Senhor. O sentimento da alegria e equilibrio no pulsar livre da natureza, a contemplação da harmonia e belleza das formas que por si vivem como divindades independentes e distinctas, só por excepção prenderiam Herculano. É um accidente[{16}] raro, muito raro, que elle se quede com sympathia a escutar nymphas do rio, dryades da floresta e as felizes gentes dos reinos de Apollo. Por duvida teria condescendido em attentar nas crueldades e exaltações orgiacas das estações e dos astros. Se por elle passaram faunos e bacchantes ou lhes suspeitou os folguedos, voltou o rosto descontente; os olhos habituados a luz divina, vinda dos céus, e outra não procuravam, não supportariam fumo e labaredas, ateiados com o sangue e erguidos dos infernos em que penam condemnados. Mal sorriu ao carvalho magestoso que encontrou em meio do valle.

«Na primavera
Vinham os moços adornar-lhe o tronco
De capellas cheirosas de boninas,
E coreias gentis traçar-lhe em roda,»[[21]];

e o quadro captivou-o um rapido instante. Que encanto de formosura, perfume e gentileza e côr! Outros eram, porém, os enlevos do poeta, que não esses, candidos, sem duvida, na sua graça, mas fugitivos e pereciveis, de perto vigiados pela enfermidade e pela corrupção. A fecundidade da imaginação, a riqueza de conhecimentos e a expontanea intensidade[{17}] da attenção todas as relações dos seres e todos os estados da alma lhe representariam, d'ascetismo ou de expansão; mas o arrebatamento religioso não lhe consentia identificar-se senão com aquelles que traduzissem nos mais elevados modos o dominio e amor d'essa vontade omnipotente e omnipresente, de summa sabedoria, que tudo ordenava e a quem tudo obedecia, na verdade Deus e Senhor, como o poeta lhe chamou, invocando-a para o guiar e consolar, deus pela magestade e virtude infinita, e senhor pelo imperio sem limites na vida do universo.

«Ante o olhar do Senhor vacilla a terra!»[[22]]. E Alexandre Herculano renunciaria, por ignoto impulso, ao seu quinhão nas incertezas vacillantes da terra, para mais firmemente receber o olhar do Senhor, que era eterno e por isso lhe insinuava uma eternidade, inflamando-o no seu fulgor. A abdicação salval-o-ia da degradação inherente aos timidos e fracos que, acorrentando-se á caducidade das cousas mortaes, com ellas se afundam e desapparecem, nenhumas outras de sua substancia infinitas tendo visto ou amado, além d'essas mesquinhas e passageiras nas quaes se absorveram.[{18}]

«Entendimento bronco», tomando com adoravel candura por aspereza a fortaleza ingenita, «lançado em seculo fundido na servidão atraviada de goso, cria que Deus era Deus e os homens livres»[[23]]. Aos infieis clamava, para os defender de perdição, que «entrassem no templo e não temessem aquelle Deus que os labios negam e o coração confessa»[[24]]; «não escarnecessem do que em Deus confiou»[[25]]. Ahi se isentavam da morte, porque «o justo, chegando á meta extrema que nos separa da eternidade, transpõe-na sem temor e exulta em Deus»[[26]].

O apostolo tinha jurado a sua fé. «Louvaria o Eterno!» Embora humilde reconhecesse que os seus hymnos d'amor não eram dignos d'aquelle a que adorava, embora vis hypocritas, mentindo, o Eterno pintassem como um tyranno barbaro, para assim dominarem o vulgo cégo e insano, o poeta passaria tranquillo entre os abrolhos dos males da existencia, guardado por essa Providencia, a cuja misericordia de todo se entregava[[27]].[{19}]

[III]