A critica, na interpretação e auctorisado exame d'um extraordinario e grande mestre, cujo saber e elevação foram dignos d'aquelle a que honrou, analysando-lhe a obra portentosa e prestando culto ardente ao seu caracter, viu no «solitario de Val-de-Lobos», como em respeitoso carinho o cognominou, um suicida. «Quando as feridas, as perseguições, os ataques, os ultrages são profundos e agudos como os que expulsaram da politica—e tambem das lettras,—Alexandre Herculano, o stoico, repetindo a historica phrase do Africano, suicida-se. É então que vivamente nasce, pois só então o caracter apparece com toda a sua pureza. Não o mata o scepticismo, mata-o o excesso d'uma imperfeita doutrina. Não descrê, e é por cada vez mais acreditar em si que foge a um mundo rebelde a ouvir a verdade. A morte não é pois um acto de desespero, é um acto de fé. Só a differença dos tempos fez com que no suicidio não[{5}] entrasse o ferro, como entrou nos suicidios stoicos da antiguidade»[[10]].

Porventura seria porém mais justo ou, pelo menos, mais exacto considerar a attitude do ultimo periodo da vida d'Alexandre Herculano, não propriamente um suicidio, a morte voluntaria d'uma parte da sua individualidade, mas o perfeito remate, o termo ultimo da evolução natural do seu espirito desde o começo promettida, contida nas primeiras confissões da sua consciencia. Com o stoico coincidia no mesmo peito o poeta; e os poetas não se suicidam, a não ser por pressão de desordem physiologica grave ou no desvairamento de uma surpreza. O poder de crear, sollicitando-lhes de continuo a actividade de que carecem e são avidos, salva-os da tentação do anniquilamento; das visões que se esvaem e, perdendo-se, os deixam prostrados, reanimam-nos as que sem cessar se geram e de novo os inflammam: e caminham, caminham infatigaveis, d'amor em amor, tão depressa succumbidos como de subito arrebatados por energias mysteriosas e immortaes. Nem Camões, nem Dante, nem Petrarca se suicidaram, embora a dôr a nenhum d'elles houvesse poupado.[{6}]

Jámais se penetrará inteiramente, porque o genio sempre guarda para si certa essencia transcendente dos seus segredos, a natureza do impulso intimo que conduziu Herculano ao ermiterio de Val-de-Lobos; se foi desgosto do mundo e protesto contra as suas vilanias, se a seducção da paz dos campos e rendição aos seus encantos, se uma libertação que as exigencias do caracter austero ha muito reclamavam, se a doçura de bençãos que a terra prodigamente lhe offerecia e todo o seu ser lhe pedia. Sem duvida, diversos sentimentos se conjugaram na mesma tendencia, mas nas suas palavras ha signaes claros de que a corrente d'affectos teria prevalecido sobre rigores de condemnação; não será muito desvairada suspeita julgar que amou tanto as arvores e as rosas dos seus estreitos canteiros como a Historia de Portugal ou a promulgação de leis justas que engrandecessem a patria. Para elle, como para tantos outros da sua feição e estatura, até a tristeza e mágoa se convertem em belleza, pela serenidade de que as revestem, pela religiosa conformidade com que as acceitam e pelo objecto em que as transformam. O que nos fracos redunda em estereis contracções torturadas de desespero, é nos fortes o ensejo de subirem a maior altura.[{7}]

Eurico, que Alexandre Herculano modelou cedo e cedo amou, «era uma d'estas almas ricas de sublime poesia, a que o mundo deu o nome de imaginações desregradas, porque não é para o mundo entendel-as»[[11]]. «O povo rude de Carteia não podia entender esta vida d'excepção, porque não percebia que a intelligencia do poeta precisa de viver num mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão mesquinhos limites». «Ensinado pelas largas horas de intima agonia, esmagado o seu coração pela soberba dos homens, Eurico percebera, emfim, claramente que o christianismo se resume em uma palavra—fraternidade. Sabia que o Evangelho é um protesto ditado por Deus, para os seculos, contra as vãs distincções que a força e o orgulho radicaram n'este mundo de lodo, d'oppressão e de sangue; sabia que a unica nobreza é a dos corações e entendimentos que buscam erguer-se para as alturas do céu, mas que essa superioridade real é exteriormente humilde e singela»[[12]]. «Os virtuosos» não perceberiam os poemas em que o poeta lançava torrentes d'amargura, «como, tranquilla a consciencia e repousada a vida,[{8}] um coração póde devorar-se a si proprio, e os máus não criam em que o sacerdote, embebido unicamente em suas esperanças credulas, em suas cogitações d'além tumulo, curasse de males e crimes que roiam» a patria. Ignorariam a colera e maldições que podem dimanar e dimanam dos prophetas do perdão e do amor. «Era por isso que o poeta escondia as suas terriveis inspirações. Mostruosas para uns, objecto de ludibrio para outros, n'uma sociedade corrupta em que a virtude era egoista e o vicio incredulo, ninguem o escutaria, ou, antes, ninguem o entenderia»[[13]]. «A força moral da nação tinha desapparecido e a força material era apenas um phantasma; porque, debaixo das lorigas dos cavalleiros e dos saios dos peões das hostes, não havia senão animos gelados, que não podiam aquecer-se ao fogo do santo amor da terra natal. Com a profunda intelligencia do poeta, o Presbytero contemplava este horrivel espectaculo d'uma nação cadaver e, longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes d'aquella geração degenerada, ou derramava sobre o pergaminho, em torrentes de fél, d'ironia e de colera a amargura que lhe trasbordava do coração ou, recordando-se dos[{9}] tempos em que era feliz porque tinha esperança, escrevia em lagrimas os hymnos de amor e de saudade»[[14]]. No coração de Eurico, que parecêra morto, porque havia procurado o ermo, o enthusiasmo e a virtude nem um só instante se tinham todavia apagado; um surdo labor da sua alma perpetuamente os alimentava. Apenas mudavam as vidas a que se applicavam e consagravam. O vulgo, na inercia propria do acanhamento do seu espirito, não podendo alcançar os voos do sonhador, desconhece-os e injuria-os, reputando-os insensatez, delirio, uma dissipação inexplicavel de faculdades preciosas; incapaz de prender o genio no circulo estreito dos seus interesses, imagina que o illuminado os despreza e atraiçoa, desamando-o, quando o viu elevar-se e perder-se n'uma atmosphera inaccessivel á debilidade commum das forças mortaes. O mundo nunca poderia entender plenamente o affecto que, «vibrando-lhe dolorosamente as fibras do coração», arrastou Eurico para a solidão, «quando os outros homens nos povoados se apinhavam á roda do lar acceso e fallavam das suas mágoas infantis e dos seus contentamentos d'um instante»[[15]].[{10}]

De longa data, Herculano traçára a propria carreira na contemplação do filho do seu genio. Porque o conflicto da inspiração e do mundo é e será o mesmo, irreductivel, eternamente, heri et hodie, ipse et in secula. Se a inspiração veio alojar-se n'um pobre corpo humano, deixae-o, não cuideis mais do seu destino. É só o tempo de percorrer a via dolorosa pela qual tem de seguir seus fados. O termo da jornada está previsto, e será o unico que á sua condição convém, o isolamento e o espaço que a intensidade de irradiação reclama, provoca e determina nos astros ou nos prophetas, nas parcellas minimas da luz da materia ou do espirito.

Alexandre Herculano foi para Val-de-Lobos, não para morrer e sepultar-se ainda quente das palpitações do seu sangue, mas para viver inteiramente sua vida; não para deliberada cessação de actividade, mas para a sua mais perfeita expansão e mais lidima e bella applicação. Apenas eliminava relações e cousas que o atormentavam, estorvando-o de se manter continuadamente, face a face, na presença da aspiração intima. Entrou no claustro que a seu modo edificou, naturalmente porque os das antigas communidades estavam prostituidos e em ruinas. Não lhe regateiára o mundo, atravez das injurias, as lisonjas que[{11}] concede á inanidade vaidosa com a mesma insensatez e inconsciente impudor que usa na calumnia, na inveja e na flagellação do merecimento. Se não foi amortalhado em trajo de grande do reino, recamado de chaparia, foi porque constantemente repelliu de si esses symbolos de grandeza emprestada, cobrindo o mais das vezes uma real mesquinhez. O premio que buscava dos seus combates, aquelle que o alegraria, se os estranhos lh'o houvessem dado, era a communhão na sua fé, de que contrariedade alguma o arrancaria, e o fortalecimento nas suas virtudes, em cuja propagação se lhe figurava uma nova patria, rejuvenescida para a gloria. E como essa communhão e essas virtudes não encontrou, senão em raros companheiros, desventurados como elle, e da outra, da communhão na sordidez em que os demais folgavam, estava excluido por aversão da sua alma, viu-se expulso do banquete, e foi alimentar-se ao longe, n'um recanto obscuro e impoluto, do pão grosseiro e bemdito da singeleza incorruptivel, a guardar o sacrario que Deus lhe confiára. «Cantor da solidão, foi assentar-se junto do verde cespede do valle, e a paz de Deus consolava-o do mundo»[[16]].[{12}]

«Consolava-o», disse o poeta candidamente, imaginando carecer de consolo ao deixar o mundo.

Não era assim. Os resplendores enganosos do mundo por que passou, sómente para os aborrecer e desprezar, é que nunca poderiam furtal-o á fascinação do ermo. Na verdade, emquanto habitou esse mundo de torpezas é que necessitava compensação da violencia imposta ás suas tendencias e caracter, e compensação não alcançou.

«Céu livre, terra livre, e livre a mente,
Paz intima, e saudade mas saudade
Que não dóe, que não mirra e que consola
São as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procellas do mundo os que o deixaram»[[17]].

Essas riquezas abandonára o apostolo, para partilhar com os homens dos bens que no seu peito abundavam. Os homens desconheceram-nos. Para que pois privar-se de beneficios preciosos, sem proveito do sacrificio para os desvairados no tropel da ruindade impenitente?!... Não ignorava, quando desceu aos mercados da cidade, nem a fortuna incomparavel da solidão nem a profundeza do esqualido tremedal onde ia arriscar a saúde do corpo e[{13}] a paz do espirito, para estender a mão aos desventurados que n'elle se afogavam[[18]]; mas incitava-o e arrebatava-o a esperança de levar opulentissimos thesouros aos estranhos que tanta miseria soffriam. Destroçada a esperança pelos repetidos vendavaes da desillusão, voltava ao ermo a que jurára fidelidade antes[{14}] de se empenhar no combate[[19]]. Ao fim de incerta jornada, o peregrino vinha cumprir a promessa que ao partir fizera nos altares da sua crença, da verdadeira patria dos seus sonhos, onde tinha em recompensa a liberdade.