Tudo aquillo que o apostolo carecia de saber e confirmar em sua consciencia, tudo a historia lhe dizia.

A obra demolidora da revolução, a que se associou com tão claro applauso, não seria um acto de ruina e destruição, mas sómente o desafogo e desobstrucção das tendencias[{57}] evolutivas nacionaes. Para se continuarem e perfazerem, careciam d'essa violenta remoção de obstaculos que as prendiam e paralysavam. Aborrecia o modernismo. Detestava a mania das imitações estrangeiras. «Deplorava profundamente essa abdicação vergonhosa da razão nacional».

A liberdade, aspiração suprema da sua geração e da sua alma, não seria uma innovação trazida de terra alheia pela phantasia aerea de sonhadores: era uma planta nascida e creada no solo da sua patria e apenas calcada e esmagada, mas não morta, aos pés da crueldade despotica dos reis e dos ministros do estado.

«As tradições de que tinha saudade, o passado que amava, não eram lendas absurdas, inventadas por interesses mundanos, dos quaes, por mais graves que fossem, nem a philosophia nem o christianismo consentem se faça o céu instrumento. Nos tempos que foram o que lhe sorria, não só como saudade, mas tambem como esperança eram as tradições d'essa liberdade primitiva, posto que incompleta, filha primogenita do evangelho, que elle gerara para mãe, para abrigo das sociedades da Peninsula; d'essa liberdade, rude e turbulenta como uma creança educada á lei da natureza, mas como ella robusta e viçosa; d'essa liberdade que se estribava nos[{58}] habitos, que resultava de instituições positivas e exequiveis, e não de instituições copiadas quasi ao acaso da primeira theoria que tivesse transposto os Pyreneus; d'essa liberdade que tornava a monarchia uma cousa santa, necessaria, indestructivel, e que a monarchia, por desgraça sua e nossa, foi lentamente esmagando debaixo do seu throno, formado dos infolio, politicamente fataes, do Digesto, do Codigo e das Glossas e commentarios das escolas d'Italia; d'essa liberdade que, desenvolvida e organisada logicamente com a sua origem, nos teria poupado talvez á gloria immensa, mas para nós mais que esteril, de nos convertermos em victimas da civilisação da Europa, de revelar o Oriente á sua cobiça, para logo virmos assentar-nos extenuados num occaso de tres seculos; d'essa liberdade que nos teria salvado por certo de um longo estrebuxar em esforços impotentes de emancipação, que tomámos como lições de estranhos, e que era mais velha para nós do que o era para elles. Eis aqui a maravilha, melhor que milagres imaginarios, na qual não só cria, mas tambem esperava»[[47]].

O apostolo ardente d'essa crença «amaria o passado do seu paiz e as suas tradições[{59}] primitivas. Desejava-lhe uma maneira de ser logica com as suas origens, porque, nas formulas sociaes de cada nação no berço, tudo vinha naturalmente; as instituições derivam dos instinctos de liberdade innatos no coração do homem, das suas necessidades materiaes e moraes, que a força então despreza e algumas vezes reduz ao silencio, mas que ninguem pensa em sophismar. N'esta epoca da vida dos povos, ha muitas cousas incompletas, barbaras; muitos absurdos de detalhe; mas a estructura da sociedade nunca era absurda. Essas epocas são em geral ainda muito grosseiras para a inanidade de legisladores chimericos, fabricantes de systemas, jurisconsultos encarregados de embrulhar os usos simples do povo. Queria que se prendesse a liberdade moderna á liberdade antiga». Não importava o facto desamor ou menosprezo do progresso e das alterações que no seu juizo seriam como phases de um desenvolvimento organico. «Amava as cousas antigas mas não amava as velharias. Porque sabia que, estudando as instituições da nossa edade-media, lá descobriamos quasi todos os principios de liberdade que julgavamos haver descoberto em nossos dias; porque ahi via garantias mais reaes, no fundo mais solidas do que aquellas que gozavamos, não se seguia[{60}] que desconhecesse a experiencia dos seculos, as vantagens da civilisação e as verdades adquiridas para as sciencias sociaes». As instituições que procurava derrubar eram apenas uma sobreposição funesta aos principios em que a nação portugueza se constituira. Não attentava contra a tradição nacional, desenterrava-a e limpava-a da corrupção em que andava perdida, embora a corrupção pretendesse abrigar-se e defender-se «na sombra santa dos tumulos, dourada pelo sol de milhares de dias». «Desafiava quem quer que fosse a provar-lhe que as instituições que Mousinho lançou a terra tivessem existido antes do seculo desesseis, ou que, no caso affirmativo, houvessem chegado ao começo do seculo desenove sem terem sido desnaturadas, a ponto de se tornarem completamente desconhecidas: desafiava-o a provar-lhe que n'essa epoca satisfaziam de qualquer modo ao seu destino primitivo; a provar-lhe, emfim, que o que se chama meios de governo fosse outra cousa senão meios de absolutismo»[[48]].

A tolerancia religiosa, sonho das grandes almas dos seus companheiros da epopeia liberal, encontrava-a tambem na historia. A[{61}] ambição, porventura intangivel para o inveterado despotismo latino, pela qual se derramava tanto sangue e se exaltava tamanho esforço de meditação e de propaganda, isso que parecia um reino novo, conquistado pela philosophia e por ella arrancado ao fanatismo cruel de sectarios tenebrosos, a tolerancia, seria para Alexandre Herculano uma singela tradição de bons tempos da vida nacional. Seguissemos-lhe o rasto: conduzia a paraisos de candida e repousada fraternidade. E contava, rememorando a jornada em que a abençoada curiosidade do historiador lhe trouxera por lá o pensamento:

«Restello, como quasi todas as aldeias das cercanias de Lisboa, parecia quasi uma terra musulmana ainda no fim do seculo XIV. Ainda então avultava, entre a raça goda e christã, a raça africana-arabe. Até esta epoca, ou antes até quasi o fim do seculo seguinte, as Hespanhas offereciam um phenomeno unico, talvez, na historia: o de tres povos, sectarios de tres religiões inimigas, vivendo juntos, e cada qual adorando Deus a seu modo, sem que por isso viessem ás mãos, apesar de todas essas crenças serem persuasões profundas, e por conseguinte exclusivas. As tres religiões eram o christianismo, o islamismo, e o judaismo: o primeiro dominante, o segundo[{62}] tolerado, o terceiro consentido. Nobres, cavalleiros e o grosso dos burguezes pertenciam ao primeiro, os homens de trabalho, em boa parte, ao segundo, os mercadores, em grande numero, ao terceiro. E acima do Evangelho, e da Toura, e do Alcorão, havia um livro que fazia o que nunca souberam fazer os comentadores de cada um d'elles; um livro que os conciliava. Esse livro era a lei. A lei protegia os diversos cultos nacionaes, sem que todavia fosse incredula, como as leis da tolerancia moderna... Por algumas d'estas leis, feitas na primeira metade do seculo XV, chegaram a ficar sujeitos a graves penas aquelles que ousavam offender estes desgraçados na unica herança que lhes restava, a religião de seus paes. Todavia não se creia que os legisladores ou o povo eram tibios na fé. Como religionario, o christão detestava, ou antes desprezava o mouro e o judeu; como cidadão vivia e tratava com elle. Nas leis relativas a estas duas raças reprobas, não ha uma só palavra que revele hesitação ou indifferença religiosa; mas vê-se que á sua promulgação presidiu a sabedoria. O fanatismo cego, bruto e feroz, veio-nos com as primeiras luzes de uma falsa civilisação, nos fins do seculo XV, e progrediu com ella por todo o seculo XVI. D'antes a raça christã tinha a consciencia[{63}] d'uma grande superioridade religiosa, e fazia-a valer na legislação; mas não confundia a crueldade e a intolerancia com as distincções que nascem da differença entre o superior e o inferior[[49]]».

Internando-se nos labyrinthos da historia, nem sempre teve porém a alegria de contemplar suaves apparições bemfazejas, como essa de serena magnimidade que viu na aldeia de Restello, povoada de gentes para as quaes a adoração de Deus não era motivo de oppressão e odio entre os homens, e onde se mostrasse, em qualquer templo da sua eleição, ou erguesse um hymno a Christo ou o consagrasse ao propheta islamita, seria invariavelmente protegida pela largueza dos corações, pela severidade dos tribunaes e pelas armas dos magistrados da cidade. Por vezes o assaltaram espectros terriveis, em logar de apparições consoladoras; e, fiel ao seu apostolado, d'elles nos deu fidelissima imagem, sem occultar o pavor que lhe infundiam nem a temerosa suspeita de que desvairados impios tentassem restituir-lhes a vida para flagello da humanidade.

D'este modo, na presença de espectros hediondos, filhos legitimos de Satanaz, negação[{64}] sacrilega de Deus, contou-nos Alexandre Herculano a Historia da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, pamphleto, libello e homilia, extraordinario e unico de eloquencia, pelo calor da enunciação, pela solidez dos fundamentos, pela magestade altiva da construcção, pelo poder de dominio, por esse caracter augusto de sentença emanada, não do juizo fallivel dum homem, mas da auctoridade incontestavel da experiencia e legados das gerações. E, com aquella sinceridade perfeita que usava em todos os actos da sua vida, previamente confessou os motivos que o instigaram a facultar-nos essa lição soberba.

«Confundindo as ideias de liberdade e progresso com as de licença e desenfreiamento, o direito com a oppressão e a propriedade, filha sacrosanta do trabalho, com a espoliação e o roubo; tomando, em summa, por systema de reforma a dissolução social», certos homens e certas escolas traziam aterrada a classe media. Esse erro «de muitas intelligencias aliás eminentes e a quem, em parte, sobrava razão para taxar de viciosas ou de incompletas muitas instituições dos paizes livres, abria caminho e subministrava pretexto por toda a Europa a uma reacção deploravel.» Era um acontecimento grave[{65}] pelas consequencias materiaes e sobretudo pelas suas consequencias moraes; era o «espectaculo repugnante» da tyrannia, esmagando o governo representativo aos pés dos batalhões de infanteria e dos esquadrões de cavallaria, e demonstrando que os «exercitos permanentes, nascidos com o absolutismo e só para elle, com elle deviam ter passado para o mundo das tradições.» Mas a reacção moral que ia acompanhando a reacção material era mais grave para os destinos da liberdade e da civilisação e para as crenças dos seus fieis. Ouvia-se já o alarido da soldadesca embriagada: applaudia-o o vulgo, que saúda sempre o vencedor; applaudiam-no velhos interesses mortalmente feridos que agora se proclamavam alto «em nome do direito, em gritos de furor e ameaça»; applaudia-o a hypocrisia que, depois de minar debaixo da terra, surgia á luz do sol «balouçando o thuribulo e incensando todos os que abusam da força, declarando-os salvadores da religião, como se a religião precisasse de ser salva ou coubesse no poder humano destruil-a». Renasciam os milagres em frente dos quarteis; «o cercilho e o bigode jogavam o futuro sobre o tambor posto em cima da ara».