Isso era grave, era atroz. Mas havia ainda cousa mais grave. Entre os grupos que por[{66}] quasi toda a Europa aclamavam as saturnaes da reacção, havia um mais forte e mais perigoso, porque em muita parte era senhor do poder politico. Era o «d'aquelles que deviam quanto eram e quanto valiam aos triumphos da liberdade; que sem as lides dos comicios, dos parlamentos, da imprensa; sem o chamamento de todas as intelligencias á arena dos partidos; calcados por um funccionalismo despotico, por uma nobreza orgulhosa, por um clero opulento e corrompido, teriam fechado o horisonte das suas ambições em serem mordomos ou causidicos de algum degenerado e rachytico descendente de Bayard ou do Cid ou em vestirem a opa de meninos do côro de algum pecunioso cabido.
«Estes taes que trocaram o aposento caiado pela sala esplendida, o nome peão de seus paes pelos titulos nobiliarios, a sapato tauxiado e o trajo modesto do vulgo pelos lemistes e setins cortezãos, cobertos d'avelorios e lantejoulas, das condecorações com que o poder costuma marcar os seus rebanhos de consciencias vendidas», esses «sentiam esvair-se-lhes a cabeça com os tumultos eleitoraes, com as luctas da imprensa, com as discussões tempestuosas», e, sem se atreverem a abjurar a nova ordem mas atraiçoando-a, imaginavam desvario as necessarias e dolorosas experiencias[{67}] e aterrados, «renegando as ideias que propugnaram», tentavam salvar pela restauração d'um «absolutismo cachetico e impotente» «as suas carruagens, mitras, bastões, veneras, rendas e dignidades». Esse era o grupo «dos grandes miseraveis».
Ao pé d'este, estava ainda a burguezia, timida, a tremer dos terremotos politicos, pela perturbação que traziam á sua avareza e ganancias. Começava a vêr na liberdade espoliações, esquecida das que o absolutismo creára, ferozmente protegia e de todo tinham trazido manietada nas ambições economicas essa mesma burguezia que agora se afreimava pelo grave risco dos seus haveres. Insensata e egoista, com o medo de perdas hypotheticas no futuro, auxiliava a renovação das oppressões que no passado a suffocavam.
«Felizmente, no meio das loucuras do terror, muitas almas fortes, muitas cabeças intelligentes tinham sabido conservar frio o animo para não abdicarem o senso commum» e não consentirem que espiritos vãos ou «corações fementidos fizessem das nações materia bruta das suas experiencias politicas ou preza das suas ambições desregradas», indo «aspirar a vida no cemiterio dos seculos». Nós mesmos, «nação pequena e que a historia desconsiderava ainda pela ideia que[{68}] d'ella fazia», davamos n'esta parte mais de um exemplo de alta sabedoria a algumas das maiores nações.
«Em certa esphera e até certo ponto, a reacção geral tinha representantes entre nós. Cumpria combatel-a, não para convencer aquelles que sempre amaram o passado e nunca negociaram com as suas crenças, porque esses respeitava-os; mas para fortificar na fé liberal os tibios do proprio campo e premunil-os contra as ciladas dos transfugas».
«Levado pelas suas propensões litterarias para os estudos historicos, era, sobretudo, por esse lado que Alexandre Herculano julgava poder ser util a uma causa, a que estava ligado, rememorando um dos factos e uma das epocas mais celebres da historia patria; facto e epoca em que a tyrannia, o fanatismo, a hypocrisia e a corrupção nos apparecem na sua natural hediondez. Quando todos os dias lhe lançavam em rosto os desvarios das modernas revoluções, os excessos do povo irritado, os crimes de alguns fanaticos, e, se quizessem, de alguns hypocritas das novas ideias, fosse-lhe licito chamar a juizo o passado, para vermos, tambem, onde nos podiam levar outra vez as tendencias de reacção, e se as opiniões ultramontanas e hypermonarchicas nos davam garantias de[{69}] ordem, de paz e de ventura, ainda abnegando dos foros de homens livres e das doutrinas de tolerancia que o Evangelho nos aconselha e que Deus gravou em nossa alma»[[50]].
A demonstração foi completa. Será difficil produzir mais persuasiva accusação das demencias crueis do despotismo do que essa estampada para sempre nas paginas da Historia da Inquisição. A irradiação do espectro correspondeu ao ardor da fé que o evocou para o anathematisar. Petrificados de terror ao vêl-o, não sabemos se nos fulmina a suspeita de que elle renasça da treva para nos infligir o martyrio, se nos faz cair prostrados a vergonha da prostituição da honra da especie, a perversão humana que affrontou até a presença da cruz de Christo e a sua imagem.[{70}]
[III]
A historia, a cujo conselho Alexandre Herculano pedia o conhecimento dos homens e a confirmação das aspirações do seu genio, esclarecia-o e ditava-lhe de continuo regras de vida. Teria por isso de lhe traçar parallelamente uma politica, que não deve ser outra cousa senão a regra da vida publica, a expressão do dever civico, ampliando e completando o systema de obrigações com o proprio individuo e nas suas relações mais proximas.
Por esta ligação, o principio religioso do amor entre os homens, luz perpetua do apostolo em toda a contingencia, iria encontrar a definição concreta mais completa no povo, no ser anonymo, substancia e alma das sociedades, presente em todos os movimentos de caracter collectivo e modificando a communidade, imprimindo-lhe tendencias, direcção e forma, embora o resultado ultimo houvesse dado por longo tempo a illusão de ser obra do esforço de genios e heroes. Pulsava no povo a bondade do coração; esse dote tão cobiçado e raro entre os maiores, era vulgar[{71}] nas ultimas camadas sociaes, onde o continuo roçar das privações e dores predispõe os animos para a compaixão»[[51]]. N'elle se refugiava a franqueza e a sinceridade, a negação da mentira, principio fundamental de virtude e expressão primaria da religião; o povo «póde ser injusto, voluntarioso, insolente, cruel; póde arrastar pelas ruas bispos traidores, donas prostituidas, alcaides vendidos ao rei estranho; mas tem uma virtude: é franco e sincero; franco e sincero no seu amor e no seu odio; usa verdade, e dil-a sem curar se dóe ou não dóe»[[52]].