O caracter do povo, comendo o pão com o suor do seu rosto, revestiria uma grandeza austera no labor rude, se o comparava com a dissolução e dissipação das aristocracias, de todo o tempo occultando sob o manto do cavalleiro e suas armas fulgurantes, avidez, luxuria e cobiça. Santificava-se, se o confrontava com os fidalgos do reinado de D. João I, jogando nas tavolagens «o producto dos terradegos, chavadegos e maninhadegos, das osas, gayosas e luctuosas, das eiras, angueiras, perangueiras, carreiras e fossadeiras, e dos mais fôros, direituras e costumagens em[{72}] adegos, em osas, em eiras, e em todas as rapinas possiveis da rapina legal e tradicional»[[53]]. Clamava justiça e bradava aos céus, parecendo imploral-a do rei, quando pela bocca dos procuradores dos concelhos se lhe ia queixar «dos senhores, que, rodeiados dos seus vassalos e clientes, costumavam residir nas terras a elles sujeitas, e que, para evitarem os tedios da triste vida provinciana, consummiam, em lautos banquetes, ás vezes n'um mez, as subsistencias d'um anno, esquecendo-se de pagal-as, queixa absurda, visto que elles por serem nobres não eram isentos das debilidades da retentiva humana; e se por ahi violavam donzellas e viuvas, segundo os artigos rezavam, menos por fartar paixões más o faziam que por benevolencia para com essa raça achavascada, meio-mourisca meio-servil, de labregos desagradecidos»[[54]].

Aquella mesma burguesia, cuja erupção Alexandre Herculano presenciava convertendo em desapiedadas usuras descaradas os sonhos da ingenuidade liberal que lhe facultou o poder, essa mesma, dissimulada em trajos de modestia e com gestos patrioticos, era aquell'outra, igualmente abominavel, que no[{73}] tempo de D. João I se viu representada a primor em mestre Esteveannes, «uma parcella rudimental d'essa classe media que se ia organisando no meio das transformações sociaes de edade media, classe cujos caracteres appareciam já no modo de pensar do honrado mester—a má vontade para tudo quanto a fortuna ou o berço pôz acima d'ella, e um orgulho tyrannico para com as camadas inferiores do povo, d'entre as quaes foi surgindo;—classe egoista e oppressora como a que substituiu em influencia e riqueza, e peior do que ella na hypocrisia, tendo na bocca a liberdade, a moral, a justiça, e no coração o despreso do pobre e humilde, a cobiça insaciavel, a vaidade e a corrupção; classe, emfim, ácerca da qual a historia terá no porvir de lavrar uma sentença ainda mais severa, do que ess'outra que já pesa sobre a memoria dos ferozes e dissolutos barões e cavalleiros dos seculos de barbaria»[[55]].

Não perdoou Alexandre Herculano á classe media a impostura e astucia que a tornou algoz quando jactanciosa apregoava a sua misericordia, como não perdoou nem podia perdoar o crime de lesa-sociedade e traição do seu mandato á monarchia absoluta, que[{74}] desrespeitou o povo e as instituições populares, «mostrando-se parenta proxima do liberalismo moderno no desprezo estupido e brutal dos mais venerados monumentos d'essas epocas de liberdade incompleta mas sincera, em que o monarca era o alliado dos povos, o braço que estes estendiam para annular a tyrannia da casta privilegiada, se ella ousava quebrar-lhes os seus foros, avexal-os ou opprimil-os»[[56]]; degradando em comedia «qualquer cousa grande e forte», a vida municipal, que essa mesma monarchia absoluta legou «transformada em farça de titeres, ás hexarchias ministeriaes, que acceitamos benevolamente como governo representativo»[[57]].

Todas as formas do poder politico, todo o systema de direito publico em qualquer gráo que o presentisse, todo o dominio de senhores e classes Alexandre Herculano desamava, se opprimiam o povo e não eram filhos do seu genio. «A mais bella, mais energica e mais vivaz» instituição, derivada do principio da associação, a mais perfeita consubstanciação da aspiração commum no seu modo de ser politico, para elle «era e seria sempre o municipio»[[58]].[{75}]

Ouçamol-o. Necessario se torna ouvil-o com mais pausa do que até aqui o temos feito. Tocamos no amago da sua politica, no coração da cidade que elle sonhou. Meditemos as suas palavras. Comparemos a sua concepção da sociedade politica com todas aquellas muito captivantes que architectaram os mais profundos pensadores do nosso tempo e os mais zelosos apostolos da democracia, ao fim de innumeraveis annos de estudo e de experiencias cruciantes que devoraram milhares de martyres. Talvez depois possamos entrever como o poeta, o crente e o historiador geraram o propheta, que clarão elle accendeu nos amortecidos fachos do passado para nos illuminar uma rutila estrada no futuro:

«Na essencia de todas as associações humanas, em todas as epocas e por toda a parte actuam dois principios: um da ordem moral, intimo, subjectivo; outro da ordem material, visivel, objectivo. É o primeiro o sentimento innato da dignidade e da liberdade pessoal; é o segundo o facto constante e indestructivel da desigualdade entre os homens. As revoluções interiores das sociedades, as suas luctas externas, as mesmas mudanças lentas e pacificas da sua indole e organisação constituem phases mais ou menos perceptiveis do ascendente que toma um ou[{76}] outro d'esses principios em lucta perpetua entre si. Cavando até o amago de qualquer grande facto historico, lá vamos encontrar esse perpetuo combate. As conquistas, o despotismo, as oligarchias, seja qual for o seu nome, são manifestações diversas do predominio do mesmo principio de desigualdade, quer este se estribe na força bruta, quer na destreza e intelligencia, quer na propriedade: as resistencias, felizes ou infelizes, das nacionalidades ou das democracias, emquanto não degeneram na exclusão e na tyrannia do maior numero, são manifestações do sentimento da dignidade e liberdade humanas, do principio subjectivo ou de consciencia. Factos ambos innegaveis e indestructiveis, a grande questão social é equilibral-os, e não tentar o impossivel, pretendendo annular um ou outro: porque foi Deus quem estampou um na face da terra, ao passo que escrevia o outro no coração do homem. A inutilidade dos esforços d'este seculo para assentar a sociedade em novas bases, a frequencia dos terriveis abalos que agitam a Europa tentando regenerar-se não procedem, porventura, senão do exclusivo dos partidos que representam as duas ideias, da negação de legitimidade com que mutuamente se tratam. Sobranceiras ao immenso campo de batalha onde se disputa o[{77}] futuro, duas tyrannias esperam que se resolva a contenda para vêr qual d'ellas se assentará no throno do mundo, a democracia absoluta, que desmente a lei natural das desigualdades humanas, ou a oligarchia oppressora e materialista que se ri das aspirações do coração, que não crê na consciencia das multidões, que confunde o facto da superioridade com o direito de opprimir as classes populares, cujos membros são para ella simples machinas de producção destinadas a proporcionar-lhe os commodos e gosos da vida. Seja, porém, qual fôr o desfecho do combate, a paz que resultar do triumpho exclusivo dum dos principios nunca será duradoura; porque esse triumpho importa a condemnação de uma lei eterna, que não é licito offender impunemente: nunca a liberdade e a paz poderão subsistir emquanto concessões mutuas não tornarem possivel a coexistencia e a simultaneidade dos dous principios.

«A historia dos successos politicos que não é senão o resumo das experiencias do genero humano, quer se refira á vida interna, quer á vida externa das nações, cifra-se em descrever phenomenos mais ou menos notaveis dessa lucta interminavel. A conquista emprehendida ou realisada pelo mais forte corresponde a resistencia ou a reacção do[{78}] mais fraco, ao despotismo de um as conjurações de muitos; á opposição oligarchica a revolução democratica. Nenhum, porém, d'esses factos traz uma situação definitiva. Na conclusão da peleja em que um dos principios triumpha absolutamente começa a preparar-se a victoria do principio adverso. D'este modo a historia encerra um protesto perenne da liberdade contra a desigualdade, digamos assim, activa, e ao mesmo tempo attesta-nos que todos os esforços para a substituir por uma igualdade absoluta teem sido inuteis e que esses esforços ou degeneram na tyrannia popular, no abuso da desigualdade numerica, ou fortificam ainda mais o despotismo de um só, ou o predominio tyrannico das oligarchias da intelligencia, da audacia e da riqueza.

«Allumiada pelo clarão do evangelho triumphante, a edade media, epocha da fundação das modernas sociedades da Europa, offerece no complexo das suas instituições e tendencias um começo de solução ao problema que o mundo antigo não soubera resolver. Causas diversas preparam, durante os seculos XIV e XV, o estabelecimento das monarchias absolutas, que impediram o desenvolvimento logico d'aquellas instituições, na verdade barbaras e incompletas mas que, apezar da sua imperfeição e rudeza, continham os elementos do[{79}] equilibrio entre a desigualdade e a liberdade. Longe de negar ou condemnar com colera infantil as differenças de intelligencia, de força material e de riqueza entre os homens, ou de tentar inutilmente destruil-as, a democracia da edade média, representante do principio de liberdade, confessava-as, acceitava-as plenamente, acceitava-as até em demasia; mas, por isso mesmo, mostrava instinctos admiraveis em organisar-se e premunir-se contra as tendencias anti-liberaes d'essas superioridades. Foram semelhantes instinctos que produziram os concelhos ou communas; esses refugios dos foros populares, essas fortes associações do homem de trabalho contra os poderosos, contra a manifestação violenta e absoluta do principio de desigualdade, contra a annulação da liberdade das maiorias. Em nosso entender, a historia dos concelhos é em Portugal, bem como no resto da Hespanha, um estudo importante; uma lição altamente proficua para o futuro; porque estamos intimamente persuadidos de que, depois de longo combater e de dolorosas experiencias politicas, a Europa ha-de chegar a reconhecer que o unico meio de destruir as difficuldades de situação que a affligem, de remover a oppressão do capital sobre o trabalho, questão suprema a que todas as outras nos parecem[{80}] actualmente subordinadas, é o restaurar, em harmonia com a illustração do seculo, as instituições municipaes, aperfeiçoadas sim, mas accordes na sua indole, nos seus elementos com as da edade media. Sem ellas, o predominio do despotismo unitario, o do patriciado do capital e da força intelligente, que sob o manto da monarchia mixta domina hoje a maior parte da Europa, ou o da democracia exclusiva e odienta, expressão absoluta do sentimento exaggerado da liberdade, que ameaça devorar momentaneamente tudo, não são a nossos olhos senão formulas diversas de tyrannia, mais ou menos toleraveis, mais ou menos duradouras, mas incapazes de conciliar definitivamente as legitimas aspirações da liberdade e dignidade do homem em geral com a superioridade indubitavel e indestructivel d'aquelles, que, pela riqueza, pela actividade, pela intelligencia, pela força, emfim, são os representantes da lei perpetua da desigualdade social.

«A historia da instituição e multiplicação dos concelhos é a historia da influencia da democracia na sociedade, da acção do povo na significação vulgar d'esta palavra, como elemento politico»[[59]].[{81}]

Porque esse elemento politico era na vida social das nações o elemento vital, Alexandre Herculano teria de applaudir, e eloquentemente o fez, a obra revolucionaria de Mousinho da Silveira. Que fôra ella senão um resgate de servidões do povo?!...