Guardava-o Deus de cair em tentação. Resoava-lhe do continuo nos ouvidos a harpa do crente e, perpetuamente, sem hesitar, rendeu-se ás modulações das suas cordas. Cria que «Deus era Deus e os homens livres». «A terra vacillava ante o olhar do Senhor». «Louvaria o Eterno!» Quando se ergueu a voz d'aquelle moço «velador de angustias», pallidas as faces, nas veias a febre, alagada a fronte de um suor frio, os olhos humidos de pranto e dentro do peito a dôr que o ia roendo; quando a poesia lhe murmurou na alma a «ultima nota de quebrada lyra», «o triste adeus do trovador que expira», que hymnos cantou, que visões perpassaram
«No delirio febril d'aquella mente
Que, balouçada á borda do sepulcro,
Volve apoz si a vista longamente?»
Turvou-o a Desesperança; segredou-lhe maldições do Deus que «por insania» adorára. Aos pés do seu throno não chegavam os[{113}] gemidos da terra. A Providencia era uma crença vã, e mentia quando apontava ao poeta, em ancia de gloria, a immensidade. Mas o Anjo da Guarda impôz silencio á rebeldia blasphema. Se o misero agonisante podesse comprehender a amargura com que o anjo lhe chorava a perdição no amor terreno, e a doçura que ha no affecto do homem aos mensageiros de Deus, despiria, rindo, o corpo enfermo, para se lhes unir, «para aspirar o goso celestial do amor sem termo». E logo, sem tardar, respondendo á voz do anjo, a Graça ungiu o moribundo. Era uma «harmonia suave», perante a qual a sombra da morte se aclarou e o coração, alliviado do peso da dôr, pediu «o hymno da oração em vez do canto irado». O poeta sentiu então de novo o que o «revocava a Deus». Inspirava-o a esperança. E adormece na Resignação, contricto, rogando ao anjo bom que não o abandone na «hora fatal», e lhe repita aquelles segredos de doçura onde aprendera
«Que é o céu a patria nossa;
Que é o mundo exilio breve;
Que o morrer é cousa leve;
Que é principio, não é fim»[[68]].[{114}]
A successão dos estados da sua alma, os termos pelos quaes attingiu a constituição ultima, a religião, «abrigo extremo», consolação de toda a miseria terrena, da deshonra, do exilio ou da injustiça, essa formação progressiva do seu ser espiritual, deixou-a Alexandre Herculano marcada, estampada, na pintura da morte do trovador, de resto apenas um incidente e exemplo, porque toda a sua obra poetica é uma profissão de fé quasi ininterrompida. Em toda ella prevalece o cantico religioso sobre o anceio mortal; resume-se em louvor, adoração e abdicação do homem em face do principio divino, embora considere esse principio nas modalidades transitorias, como convém ao poeta, embora o encontre e veja com os olhos do corpo e da lembrança, extasiando-se em delicia, nas capellas, nas ermidas, nos mosteiros, nos templos, pelos campos desertos, pelos adros, pelos cruzeiros e pelos cemiterios das aldeias, nas tradições e nos momentos ingenuos disseminados pela terra patria.
O confronto do caracter de Alexandre Herculano com o de José Estevão poderá talvez definir melhor do que qualquer outra explanação os attributos proprios de cada um.
Foram ambos figuras primaciaes da grandeza moral do seu tempo. Sel-o-iam em qualquer[{115}] epoca, culminantes. Resumem as duas formas mais nobres da dignidade humana. E, todavia, quanto são differentes! Alexandre Herculano procede por principio religioso; José Estevão por humanitarismo. Um tira a sua força da obediencia a uma Vontade suprema, que n'elle vive e se realisa mas que não é d'elle; o outro é arrastado por sympathia e inspiração fraterna, basta-lhe para razão de heroismo o sentimento da solidariedade, auxilio mutuo e reino da justiça entre os homens. D'ahi, d'essa reducção essencial da sua natureza psychologica, conjunctamente synthese e centro de derivação da vida de cada um d'elles, as consequencias praticas diversas da expansão das respectivas individualidades. Amaria José Estevão a vida civica e a vida urbana, até mesmo caprichos e complexidades mundanas, o calor de carinhosas amizades, tudo aquillo em que os homens se juntam mais estreitamente e é filho do seu aturado commercio; inclinar-se-ia Alexandre Herculano á solidão, ao labor silencioso dos campos, ao isolamento meditativo, a tudo aquillo em que mais por completo podia conceber a invariabilidade do divino e a relatividade das relações do contingente e do infinito. Este nunca trocaria pela glorificação de faculdades humanas o culto do[{116}] Eterno, como era corrente nas revoluções do seu tempo que trouxeram na rua, postas em andores, mulheres figurando a Razão. Ás tendencias de Alexandre Herculano para o claustro, para a contemplação, e para o estudo e apologia dos primeiros seculos do christianismo e do seu vigor e dilatação na edade-media, corresponderia em José Estevão a paixão politica e a actividade impetuosa, e o sentimento da justiça fundada, não em determinação divina, mas na imposição dos principios abstractos concebidos e affirmados pela intelligencia humana e em seu nome enthronisados. Dum ao outro ia toda a distancia que medeia entre uma philosophia, embora de affecto sublimado, e uma religião de amor que, ainda por amor, algumas vezes será rigida em excesso, nada propensa á indulgencia. E da diversa natureza do impulso fundamental veio a diversidade de attitude no decorrer da existencia terrena d'aquelles dois genios, conduzindo Alexandre Herculano ao recolhimento e á fascinação do ermo, porque para elle de prompto se purificava n'esse estado e se mantinha illesa a crença religiosa, a consciencia da presença de Deus no universo e os estimulos de obediencia á sua vontade, emquanto José Estevão, atravez de todos os desenganos e recobrando animo de[{117}] todos os desalentos, voltava constantemente á interferencia nos combates das multidões, porque assim sentia de perto effectuar-se a aspiração humanitaria, em absoluto dissolvida, reduzida a nada, fóra d'esse ambiente. Para o crente, impregnado de adoração e abdicação, o amor, mensageiro do Senhor e seu interprete, poderá encarnar em toda a materia e em todo o orbe; não percebe quebra do principio divino ou infidilidade aos seus mandados consagrando-se ás arvores e fugindo dos logares em que o convivio dos homens é activo. Porém para o humanitario, o amor, symbolisado em justiça e acção, só nos homens teria o seu principio e não podia, por uma logica instinctiva e imperiosa, desviar-se d'elles sem em absoluto se perder pela ausencia de objecto que o consubstanciasse. José Estevão vivia cercado de amigos em todas as contingencias da vida publica e da vida intima, nas alegrias e mágoas do seu lar e nas luctas politicas; Alexandre Herculano, que tambem teve amigos, e exaltados na admiração e no affecto, aliás retribuindo com infinitos carinhos do seu coração, era facil em se refugiar no isolamento e consolar-se de toda a amargura na beatitude do silencio da vida ingenua, onde por certo acharia realisada e integra a aspiração de serena e plena conformidade[{118}] com a vontade do destino. Não valeria tanto para o poeta religioso a meiguice das petalas das rosas como o sorrir de labios humanos, e não mentiria menos á missão divina?
Assim tambem, ainda por consequencia de um mesmo pendor, a religião que para Alexandre Herculano era uma força intima, immanente, inflexivel, e por isso essencialmente sujeita a suscitar conflictos insoluveis com a ordem mundana, para José Estevão podia sem difficuldade acceitar-se em termos de compromisso entre necessidades presentes, tradições e principios eternos, resolvidos os antagonismos, quando se declarassem, a beneficio da paz publica e dos interesses da sua causa. O caso de consciencia, intransigente na primeira d'essas duas concepções religiosas, admittia na segunda concessões mutuas e limites convencionaes, formulas de conciliação politica, subordinada por momentos á salvação da republica, e por contradicções estranhas, mas afinal beneficas, corroborando-se e negando-se ao mesmo tempo. O clero, a egreja constituida, não quiz mais a José Estevão do que a Alexandre Herculano, mas por differente motivo. Um desfazia-lhe a virtude dos milagres, atacava-o na capacidade intrinseca e arguia-o de traição a Christo: o outro deixava-lhe a liberdade dos milagres e não o[{119}] incommodava nas relações divinas, e apenas se esforçava por lhe restringir o despotismo e as cobiças terrenas, cerceando-lhe regalias e reduzindo-lhe a auctoridade de adquirir, mandar e dispôr, e accusando-o de infidelidade aos interesses do povo e da nação[[69]].
O confronto do modo de ser religioso d'esses dois grandes caracteres não significará, todavia, que a religião de Alexandre Herculano fosse inactiva, e muito menos deshumana. Revelará apenas que a sua alma, religiosa por essencia, dependente conscientemente de uma outra alma infinita e eterna, da qual se reconhecia mero instrumento e frouxo reflexo,[{120}] encontrára, por virtude d'essa constituição e prisão, as obrigações supremas de vida entre as quaes a primeira seria o amor, imposto pela abdicação no principio divino. O humanitarismo não seria n'esse systema de deveres uma religião, como de facto foi no sentir de José Estevão; consubstanciaria sómente a summula dos deveres religiosos, e manifestamente aquelles a que Alexandre Herculano mais quiz e com extremo ardor se consagrou. O mundo estava subordinado a Deus; e não seria absorvido pela humanidade, renegando a subordinação, posto que na humanidade tivesse a obra de Deus mais bafejada do seu alento.[{121}]
De resto, a emoção religiosa em Alexandre Herculano, sendo christã e demais educada na tradição do christianismo latino, tão rematadamente caridoso e, por concreto, distante da abstracção cruel em que redundou no espirito oriental, não poderia tender ao extasi, esteril e mortifero além do resgate individual, mas logo se transfundiria na objectivação pratica, na traducção do seu principio dominante em forma e movimento, em acção. Não resultaria em ascetismo, mas na moralisação de todas as energias organicas, aliás livres em sua esphera, reconhecendo-se-lhes a legitimidade da expansão. Assim como lhe impunha entre os impulsos iniciaes o amor da terra e da patria, levava-o consequentemente ao amor dos homens que a povoam e á intervenção em toda a complexidade das suas relações, tão extensas na multiplicidade de manifestações e aspectos como coordenadas e indivisiveis na unidade do espirito que as liga e rege.