Esse amor illuminara-se duma vez para sempre aos olhos de Alexandre Herculano no «clarão do Evangelho triumphante». Toda a consolação e todo o saber encontrou no «Verbo que renovou o mundo corrompido». Os arrebatamentos do poeta, as affirmações do publicista e os combates do soldado e do apostolo, toda a sua vida e toda a sua obra estão[{122}] repassadas de christianismo. Vibra em cada palavra e em cada gesto, nas victorias e no desalento, na ira e nas bençãos, na lucta e no repouso. Até a propria historia e a obra d'arte imaginativa, não menos que a contemplação da natureza, seriam para elle desenvolvimento de verdade religiosa do christianismo e ensejo da sua propagação. A visão da cruz e a atmosphera moral que d'esse symbolo irradiava, acompanhavam todos os passos do sonhador; os seus poemas são uma floresta espessa de cruzeiros e templos onde de continuo perpassam murmurios de orações e canticos de louvor. Toda a enredada architectura do Monge de Cistér parece erguida, quando no conjuncto a observamos, para inscrever alli, em traços d'uma fulguração diamantina, a sentença do Evangelho que lhe serve de fecho:—Se não perdoardes, tambem Deus te não perdoará.
Humanisou o christianismo; quebrou-lhe a rigidez e a seccura, amortecendo os rigores da consciencia, que elle facilmente accusa, pela uncção da suavidade, que a cada passo vae derramando entre os homens. Mais do que isso: soube como ninguem, pelo poder do genio, trazel-o á terra, infundil-o em todas as cousas creadas, vividas e sentidas, infundil-o em a natureza inteira por uma insinuação cheia[{123}] de mysterio, que todavia nos arrebata em encantos de doçura e luminosidade intraduziveis. Esse dia santo, que elle celebrou com palavras que ficam como pergaminhos da nobreza de uma geração e seu orgulho, maravilha da união subtil mas vigorosa do amor divino e do amor terreno, do amor das cousas da terra santificado pela presença de espiritos angelicos, será perpetuamente o espelho da candura religiosa. «Um dia santo; um dia santo!...» disse o poeta comovido, deixando transbordar os seus affectos. «Assim juntas, estas duas palavras são as mais sonoras, as mais pinturescas, as mais saudosas da nossa lingua; para mim, ao menos. De todas essas memorias passadas, cujas ruinas o descrer da edade de homem me tem alastrado pelo coração, uma sei eu que vive ainda n'elle fresca e viçosa, e que me parece morrerá só quando eu morrer. É a lembrança dos dias santos dos meus tenros annos. Um domingo de então ainda me sorri suavemente quando deito olhos longos para o caminho tortuoso e agro, por onde já derramei, sem saber como, um terço de seculo da vida. Na orla d'esse horisonte crepuscular do passado avulta-me a capellinha da habitação da infancia ao dia santo, e o altar com os seus castiçaes de talha dourada e as jarras de flores, que lá se punham[{124}] no sabbado á noite, e o alevantar cedo para todos e tudo estar lavado, espanejado, escovado e ordenado para a missa. Sabe Deus com quanta fé e devoção a minha alma tenra se balouçava na toada monotona que murmurava o velho frade arrabido, calvo e macilento, cujo burel desapparecêra debaixo das vestes variegadas do sacerdocio! Atravez da alta gelosia o sol vinha, semelhante a uma columna de vidro amassado com pó de ouro tombada do seu pedestal, bater de soslaio nos degraus do altar. As luzes trémulas das velas, cuja claridade se annulava no esplendor do dia, pareciam-me espiritos que se inclinavam esperando a presença real de Deus para o adorarem. Depois o frade que viera de longe, do convento de Ribamar ou da Boa-viagem, almoçava e jantava. E todos estavam contentes; porque era um santo mas jovial frade o bom do arrabido, e contava historias que era um pasmar. N'aquelles dias abençoados juraria eu que a folhagem das arvores era de um verdor mais vivo, os fructos mais saborosos, o ar mais diaphano, a agua mais transparente, o ceu mais azul, e até as alfaias da casa mais novas, e o caio dos muros mais alvo. Á tarde corria pela relva com os outros moços da minha edade, e travava luctas e gritava e ria e suava e tripudiava[{125}] nos jogos e brinquedos que são proprios d'aquella edade; mas quando o sol descia para o horisonte ia assentar-me á sombra de uma grande nogueira, sósinho, a ouvir cair n'um tanque uma pequena bica d'agua, e alli ficava muito tempo a scismar. Em que? Eu sei lá! Em nada, provavelmente. Mas scismava e sentia levantar-se-me no coração um fumosinho de tranquilla melancolia, fumosinho, que se condensava brevemente nos olhos em lagrimas, que não chegavam a rolar, mas que n'elles bailavam. E alli me achava á noite, e buscavam-me, e desfaziam-me o encanto; mas ficava-me cá a saudade... Domingos dos doze annos, em que o meu espirito se harmonizava com o hymno eterno da natureza, salvé! A gloria litteraria, o amor da independencia, e talvez até o orgulho de proceder honesto, todos os meus sonhos de ambição dal-os-ia a troco de me sentir viver comvosco; comvosco, oh dias santos; porque os outros, esses, se não eram palidos como os de hoje, eram acres, dolorosos, inquietos. As paixões fervidas e insensatas da mocidade vinham chegando; e como que já sentia rugir a pouca distancia as tempestades que iam agitar e devorar-me os annos mais bellos da vida... Não tenho saudades dess'outros dias. Não tenho. Deixal-os ir. É pelos meus ricos[{126}] dias santos de então que eu hei de sempre chorar.
«Ainda hoje ha um individuo, que exerce singular predominio sobre mim, e ignora-o. É o sineiro da minha meio-rural, meio-urbana parochia. Na escala das reputações de sinos, os da minha freguezia occupam logar modesto, e todavia, quando repicam antes da missa do dia, sinto passar em volta de mim uma como aura fugitiva dos dias santos da meninice, e o sol illumina-se da luz d'aquelle tempo. O repique, por estes sitios, é ainda patriotico e tenaz: ainda não o perverteu a peste da civilisação. Nem as cantigas populares, nem as harmonias do theatro se atreveram a pôr pé sacrilego nos degraus do campanario. Abençoado sineiro, que me parece has de morrer abraçado com as tradições do teu antecessor. Oxalá que, se eu te sobrevier, tenhas um herdeiro digno de ti! Mal sabes tu, quando no teu ardor d'artista te penduras por essas cordas, e as fazes vibrar, saltando de um a outro lado, banhando-te numa catadupa de sons estrugidores, que se despenham sobre ti, jorram pelas sineiras, e vão ennovelados esmorecer por esses ares; mal sabes tu, que, a certa distancia, no alto da montanha, alguem larga o livro, a pena, as ideias, e fica abstracto e immovel a aspirar as harmonias que lhe[{127}] mandas frouxas, sacrosantas, ricas de saudades da infancia! Mal sabes tu quantas cogitações profundas, quantas dôres do espirito tens suspendido com essas divinas toadas. Oh, que se me podesses restituir a capella, e o velho arrabido, e a sua missa, e as suas historias, e o murmurio que tinham outrora as pequenas bicas a correr nos pequenos tanques, e a sombra que davam as nogueiras, e a melancolia do sol posto de ha vinte annos; se tal podesses!... Eu sei!? Caindo adorar-te-ia, fosses Deus ou Satanaz.
«Ai, não pódes; não pódes! Isto tudo sumiu-se. Hoje sou cidadão, jurado, eleitor, homem de lettras; podia ser commendador, conselheiro, governador civil, deputado, ministro, se navegassem para esse rumo as minhas ambições, e Deus me houvesse concedido o ser um nada mais parvo.
«Vida positiva, realidade do mundo, se tu fosses uma realidade tangivel, uma realidade que sentisse, uma realidade real, quizera ver-te jazer ante mim, para te pôr um pé sobre os peitos e calcar-te e cuspir-te nas faces! Só isto me consolava das saudades dos dias santos infantis e d'este viver miseravelmente desbotado.»[[70]][{128}]
Esta interpenetração das cousas e da alma, esta vibração unisona da essencia etherea do espirito e da materia visivel e palpavel, esta harmonia religiosa da consciencia e de toda a creação terrena, marcarão a orbita da qual nunca se affasta a alma de Alexandre Herculano.
Em Val-de-Lobos, no ermo da sua clausura, construiu uma capella. A religião carecia de symbolos, e reclamava para si um pedaço de terra onde os guardasse e fossem invocados e venerados. N'elles se havia de encontrar e integrar a adoração de Deus em espirito e nas visualidades tangiveis. O idealismo germanico e o symbolismo romano juntavam-se e completavam-se fundindo aspirações do espirito, absolutas na sua abstracção, e tradições da ordem terrena, essenciaes tambem pela permanencia e pela vitalidade historica, e captivantes pela belleza sensivel. E, assim, o templo, a que Deus descia para olhar os homens, seria o degrau mais alto a que os homens subiam para vêr a Deus.[{129}]
[II]
Ha no Monge de Cistér «um filho das Hespanhas» em que «a côr, o gesto, o olhar, tudo dizia que ahi dentro havia o espirito dum godo e ao mesmo tempo que n'essas veias corria o sangue dum arabe»; e as cartas de Alexandre Herculano a Oliveira Martins, que este ultimo publicou no Reporter, quando se fez a transladação dos restos do historiador para os Jeronymos, referem-se a «estas sociedades, meio romanas, meio germanicas na indole, e celto-romanas na raça, que estanceiam ao occidente.»
Porventura, estão alli designados os elementos ethnicos e tradicionaes que se associaram na formação do genio de Alexandre Herculano, meio romano e meio germanico na indole e na raça, com o espirito dum godo na idealisação da vida e o senso pratico dum romano na concepção da sociedade, por vezes sonhador e ethereo como um bardo errante das margens do Rheno, a espaços accordando e rompendo em impetos dum cavalleiro nado e tisnado nas terras ardentes do islamita, e de[{130}] repente recobrando a serenidade e a capacidade de ordenamento pratico que distinguiu e tornou famoso o conquistador romano. Tinha a sêde de liberdade, a consciencia da responsabilidade, a paixão da sinceridade, a febre de apostolado e a tenacidade de combater caracteristicas do sangue anglo-saxonio, e possuia ao mesmo tempo aquelle espirito de sequencia, lucidez e justa distribuição, aquelle horror do desequilibrio e do incerto e indefinido, a percepção penetrante das realidades e a arte de as sujeitar á regra e á lei que engrandeceram o mundo latino.