A liberdade, essa era para Alexandre Herculano um dogma, e capital. Sabia que «Deus era Deus e os homens livres». O reconhecimento de Deus implicava a liberdade; a existencia de um ser superior, ao qual tinhamos de obedecer, revelado em nossa consciencia e n'ella habitando, exigia a anniquilação de todo o estorvo á contemplação da sua grandeza e á insinuação e execução da sua vontade.
Para Alexandre Herculano, como para todos os grandes caracteres do seu tempo, a liberdade foi o primeiro dos artigos de fé. Sobre todos os demais prevalecia e a todos os outros synthetisava. Onde menos acatada a encontraram, ahi se esforçaram por lhe assegurar a soberania. E assim deram a precedencia á[{131}] revolução politica sobre quaesquer outras, e n'essa collocaram os principios de liberdade acima de qualquer outro principio ou conveniencia.
Seguiu-se ás esperanças d'essa geração um periodo historico adverso. É certo. Uma pleiade de philosophos e devotos da realidade, analysando os homens e as sociedades, e entrincheirando-se nos baluartes de uma sciencia que se reputou inexpugnavel e a ultima e terminante verdade, sorriu das crenças dos paladinos ingenuos de que era filha. Tomando-as sinceramente por illusão de romanticos generosos, aliás com a mesma candura que tinham posto em as amar aquelles de quem os novos prophetas immediatamente descendiam, apressou-se a desvanecer o erro e deu a mão ás arremetidas de um despotismo renascido e vestido em trajos desconhecidos e atraentes, mas herdeiro e fiel representante do absolutismo antigo e, a seu exemplo, fatal á felicidade dos homens.
A experiencia e mesmo o desenvolvimento da analyse scientifica e suas conclusões logo trouxeram, porém, o desengano. Pela segunda vez a supposta illusão de nossos paes se revela a verdade fundamental do progresso. Contradictou-se a religião da liberdade com a legitimidade da oppressão, a aspiração individual[{132}] com a razão d'estado; mas a ideia imperialista que d'ahi cresceu e teve longos annos de triumpho, parecendo por momentos absorver e desbaratar em sua gloria rutila de baionetas, os planos magnificos da ideia liberal, vae por sua vez e em nossos dias descendo ao accaso. Favoreceram-na a concepção biologica das sociedades, accentuadamente reaccionaria, que oppôz a força á justiça e ao direito e nos imbuiu na convicção de que a base de toda a aggremiação animal era um estado de lucta interior permanente e essa lucta significava um bem, factor essencial do desenvolvimento da sua capacidade. A victoria do mais forte e a subordinação do mais fraco seriam consequencias de leis naturaes indeclinaveis e beneficas, ás quaes nos cumpria prestar reverencia, auxiliando-lhes a execução em toda a extensão da vida physica e moral do individuo e da communidade. Os interesses materiaes, levados já por circunstancias economicas a um subido grau de concentração e anceiando por se constituirem n'aquelle estado de tyrannia soberana, a que o capitalismo europeu e sobretudo o capitalismo norte-americano souberam conduzil-o, aproveitaram habilmente as instigações crueis de uma sciencia alheia a inspirações moraes; se a lei da vida organica consistia na victoria[{133}] dos fortes e na escravidão dos fracos, as instituições sociaes, para serem salutares, logicas e efficazes, haviam de respeital-a, e a divisão entre servos e senhores seria tambem condição natural de boa ordem. E entretanto, emquanto semelhantes doutrinas se propagavam e captivavam os espiritos mais puros e os melhores corações, a guerra franco-prussiana e a formação do imperio formidavel que ella creou e consolidou, antepondo ao cesarismo desmoralisado, que derrubava, um cesarismo disciplinado, rigido, e intellectualmente riquissimo de saber, justificava e apregoava de modo pratico, com esplendor, o principio, então por excellencia scientifico, da força brutal. Para o effeito da boa administração o mandavam acatar as boccas dos canhões e os sabres dos guardas do estado, convencendo por esse meio os menos promptos em lhe descobrir as virtudes. Homens d'estado e multidões fanaticas, governantes soberbos e doceis governados, uns por ambição, outros por cegueira, uns na avidez do mando e outros na esperança de ventura, e todos victimas dos vendavaes que repetidas vezes vergam a seu bello prazer as sociedades e as arrastam em delirio, inconscientes e desvairadas, abjuraram os evangelhos da liberdade que se lhes figurou um culto da debilidade e de rebellião[{134}] insensata contra o despotismo da natureza, e, preferindo o gendarme ao sacerdote, desconfiando da crença para se renderem ás armas, trocaram a reverencia da justiça e da caridade christã pela desapiedada glorificação da caserna.
Não cessavam, todavia, os estudiosos na observação e cogitação das leis intimas da vida; e os ideaes do humanitarismo e da religião desthronados não tardaram a rehaver um logar de proeminencia. A doutrina da evolução, que parecera o seu peior inimigo, provou ser o seu apoio mais solido; por ella deixaram de representar o sentimentalismo absurdo e enfermiço, de que foram acoimados, para se reduzirem a uma comprehensão exacta de lei organica das sociedades, producto e derivação do proprio desenvolvimento evolutivo. Um dos mais notaveis espiritos do mundo scientifico vinha a concluir o exame da doutrina evolutiva pela demonstração de que a resistencia e o progresso da especie resultavam, não da lucta mas da sua atenuação, não da força mas da união e auxilio mutuo; a livre cooperação substituiria pois a sujeição oppressiva dos fracos ao capricho e engrandecimento dos fortes, se quizessemos, como deviamos, respeitar a ordem natural. E, simultaneamente, a miseria dos trabalhadores, precipitados[{135}] na escravidão do capitalismo pela torrente dos interesses materiaes, accelerada e engrossada pela abundancia de doutrinas que consagravam o imperialismo em toda a sorte de relações, desde as de amo e creado até ás das nações e estados, o clamor dos servos tornou-se uma ameaça e uma dôr, para as quaes os piedosos procuravam balsamos, os timidos e previdentes inventaram prevenções attenuantes, e os homens d'estado buscavam remedio, vendo periclitante a estabilidade e a propria vida do corpo social, e cumprindo-lhes defendel-a.
Apoz o eclipse de algumas decadas, o idealismo liberal resurge, inscrevendo nos livros da lei o principio da igualdade juridica dos homens, da igualdade de opportunidade, como modernamente se diz, corrigindo a phantasia do absolutismo igualitario de outras eras. Nos corações restaurou-se o culto da liberdade. E n'este renascimento da luz que um sonho de terrivel barbarie escureceu, a figura de Alexandre Herculano, protegida pelas sagradas paixões que o animavam, reapparece no resplendor de uma aureola eterna. Como o poeta de Além-mar[[71]], Alexandre Herculano, sentindo[{136}] a onda de imperalismo que nos seus derradeiros dias avassalava a Europa, poderia exclamar:—«Triste, desthronada rainha, oh liberdade! Ainda que contra ti se volte todo o mundo, hei de eu ser-te fiel!» Na sua adoração da liberdade havia laivos de fanatismo, o unico talvez que em toda a vida revelou. D'ahi viriam todos os seus temores em acceitar normas de organisação social que de toda a parte lhe apregoavam efficazes para salvação de angustias. Na ordem moral, o socialismo estava justificado. Não o contestava; «não se lhe afigurava que chamar socialista a quem discute, que impôr um labeu mais ou menos affrontoso desfizesse um argumento, nem que fosse demonstração concludente e irresistivel o affirmar que taes ou taes theorias são más porque são socialistas, e que o socialismo é mau porque propaga essas theorias. As escolas socialistas, (que nem elle já sabia quantas eram então), teem doutrinas positivas e critica negativa. As doutrinas positivas pareciam-lhe longos rosarios de despropositos; a critica negativa, embora frequentemente exaggerada, era a seu vêr uma coisa seria. Havia ahi indicações de males profundos e dolorosos no corpo social, que faziam estremecer as consciencias; que faziam cogitar tristemente os espiritos liberaes e sinceros»[[72]].[{137}] Mas apavorava-o sómente o perigo que em cada explosão de socialismo ameaçava a democracia de se converter gradualmente em uma burocracia ou em uma oligarchia, perigo que a violencia despotica do espirito de partido e o odio das classes expropriadas temerosamente asseguravam, inevitavel.
Em ultima analyse, a tendencia politica de Alexandre Herculano, no encadeamento logico da sua crença espiritual e religiosa, seria o que actualmente se chama anarchismo, por absurda que a muitos possa parecer á primeira vista uma tal classificação applicada a um tradicionalista fervoroso;—anarchismo no bom sentido, no sentido de uma doutrina philosophica, temperado, ou, digamos melhor, limitado pela visão historica e sua demonstração da força de organisação inherente a toda a vida em communidade, mas, sem embargo, suspirando por toda a sorte de libertação, crendo no resgate da humanidade em Deus e aborrecendo todo o constrangimento imposto pelas vontades humanas isoladas ou colligadas. Aquelle socialismo de que mostrou signaes na presidencia da camara municipal de Belem, não se lhe teria figurado traição ao principio[{138}] da liberdade; tornava-o inoffensivo, quebrar-lhe-ia todas as velleidades de despotismo a descentralisação extrema em que se realisava. E são de notar os compromissos a que no presente veio a ideia socialista para se conformar com o principio de liberdade,—as restricções que a si mesmo vae impondo, o desamor das grandes aggremiações, tão promptas em degenerar em tyranias, o valor cada vez maior attribuido á communa como instrumento da distribuição das commodidades elementares da vida. O socialismo contemporaneo da Inglaterra com a sua caracteristica insistencia na liberdade da terra e na liberdade do commercio, essa concepção da sociedade renovada, tão diversa do socialismo continental facilmente propenso á restauração cesarista, está mostrando até que ponto a intransigencia do apostolo da liberdade em Alexandre Herculano era a voz do propheta dos tempos proximos, ainda mesmo quando parecia combater-lhes o advento.
Essa crença na liberdade que obrigações não importava aos que passavam no mundo levando-a no peito?!... Conquistar a liberdade era servir a Deus, facultar aos homens a inteira sujeição aos seus mandados. A responsabilidade perante Deus, a todo o instante exigida na consciencia, em que elle se revelava,[{139}] não podia tornar-se effectiva senão pela liberdade. Os despotismos da terra figurar-se-lhe-iam uma offensa á divindade. Urgia derrubal-os onde quer que se acoitassem, sob o manto dos reis ou sob as vestes do sacerdote, em nome do estado ou em nome da egreja, nos castellos do feudalismo ou nas officinas dos mestéres, na altivez dos capitães de guerra ou na vilania cupida dos rebatedores.
A religião determinava uma politica. Mandava desembaraçar o caminho que conduz a Deus. A predica, o sacrificio e o martyrio, as luctas civis e as guerras dos homens, todas as armas eram de Deus e Deus reclamava para sua defeza e triumpho, se pela liberdade, sua filha e serva, combatiam. Mas a religião determinava sobretudo uma moral, o exame constante da conducta da actividade humana, em toda a extensão, e a sua conformidade com a essencia divina, até aos movimentos minimos, até ao mais pequeno objecto em que da nossa vontade dependesse.
Pessoalmente, emquanto se tratava de dar exemplo, a tarefa não foi difficil a Alexandre Herculano. Por virtude do seu raro vigor quebrou de prompto muito estorvo ao proposito de servir em acção os principios que adorava em espirito. Cedo se libertou, e com firmeza e audacia, das escravidões vulgares do[{140}] commum dos homens, e até das de muitos que se elevam não pouco acima do commum.