Riquezas? Não o tentavam. A simplicidade espartana dos seus habitos contentava-se com pouco; estava-lhe no animo, e confessava-a, a aversão a negocios e a aproveitar com boa arte mercantil os bens magnificos da sua intelligencia[[73]].
Honrarias? Detestava-as. D. Pedro V levou-lhe a casa a commenda da Torre e Espada. Recusou-a. E em uma carta publicada no Jornal do Commercio deu as razões do seu procedimento. «Pertenço», dizia, «a uma classe obscura e modesta, quero morrer como nasci. Ha nisto uma grande ambição solapada. No meio do immenso consumo que se está fazendo e que se tem feito, ha trinta annos, de distincções,[{141}] insignias, uniformes bordados, de titulos, gráus, tratamentos e rotulos nobiliarios, o homem do povo, que queira e possa morrer com esta classificação, deve adquirir em menos de meio seculo uma celebridade extraordinaria... Não sou commendador da Torre e Espada. O senhor D. Pedro V, que Deus tem comsigo, procurou-me um dia para pedir-me, dizia elle, um favor. Era o de acceitar a commenda da Torre e Espada. Recusei; e com a sinceridade, que elle sempre encontrou em mim, expuz-lhe amplamente os motivos da minha recusa. Aquelle grande espirito, complexo de extrema doçura, de alta comprehensão e de profundo sentir, debateu, sem se irritar, as ponderações, talvez demasiadamente rudes, que lhe fiz. Concluiu por me dizer que cada um de nós podia proceder n'aquelle assumpto em harmonia com as proprias convicções. Que elle cumpria o que reputava um dever de rei, e que fizesse eu o que a consciencia me ditasse. Como os outros homens, os reis, embora se chamem D. Pedro V, estão sujeitos a apreciar mal as pessoas e as coisas. Nem eu valia o que elle suppunha, nem a commenda valia nada. O que valia muito, apezar do seu innocente erro, era esse moço de vinte e quatro annos, esse filho de João I, D. Duarte extraviado no[{142}] seculo XIX, vindo pedir como favor ao filho do povo que lhe acceitasse uma mercê, porque entendia que o dever a isso o obrigava».
Não quiz mais á lisonja do mundo do que aos regalos da riqueza e á ostentação das honrarias. Por não perder uma liberdade de critica sempre severa com a propria pessoa e com as estranhas, não o atemorisou a fama de impertinente ou orgulhoso, e desprezou, aborrecendo-o, o titulo de excellente pessoa «que o mundo costuma dar a quem se acommoda com as suas opiniões, quer absurdas, quer judiciosas»[[74]]. Ouvindo, invariavelmente e exclusivamente, as indicações e o conselho da sua consciencia, desacatou com frequencia e por completo a opinião publica, «o mais sublime, o mais respeitavel, o supremo embuste d'este mundo».
A intuição moral não se limitaria, porém, á imposição de regras adoptadas na vida individual e intima. Fixando leis, conduzia ao julgamento de quantos as offendessem e á apreciação de toda a circunstancia em que fosse offendida.
O amor da patria, inspiração de Deus, levou Alexandre Herculano ao estudo da historia, e da conjuncção do historiador e do poeta e[{143}] crente devia resultar, e resultou, um moralista profundo e ardente.
O conhecimento do mundo e do fatalismo das suas leis, o mecanismo inconsciente e intransgressivel do seu movimento, que bem cedo a historia lhe revelou, posto em presença da aspiração divina, que mais cedo ainda se lhe revelou no coração, fatal tambem por inspiração da consciencia religiosa e por demonstração das civilisações e das raças, imperativa e absoluta por essencia, obrigava o poeta a cogitar e a estabelecer as formas de existencia dos homens e das sociedades nas quaes se conciliassem em virtude, belleza e felicidade os elementos diversos que a intelligencia e a observação lhe apresentavam.
Isso preferia mesmo á concepção de systemas, que para o fim pouco adeantavam, capazes de ligar e synthetisar o amontoado de relações e dependencias oppostas e desconnexas no seu aspecto exterior. Compadecendo-se mal a nitidez descarnada e fria das systemathisações com o prisma multiface dos factos concretos e as suas penas, o seu peso na ventura e na desgraça dos homens, a philosophia cederia a primazia á regra da vida, porque a instancia intima de crear belleza sob o poder de visões era evidentemente em Alexandre Herculano superior á sêde de saber[{144}] por mero orgulho ou simples curiosidade. A satisfação do dever podia mais na sua alma do que o deleite de penetrar e vêr e comprehender, exultando no reconhecimento das suas faculdades de aprehensão e exame. Ha na philosophia estreme, que em si contem e limita o seu destino e fim, qualquer cousa de peccaminoso egoismo e indifferença que o apostolo de uma missão divina não acceita sem correctivo. Se é philosopho, e não pode deixar de o ser em alto grau quando a robustez mental lhe descobre o encadeamento das cousas, logo aproveitará a philosophia, subordinando-a e apeando-a do throno, para instrumento e maior efficacia da sua missão, sem muito cuidar do mais que ella encerra ou se esforçar por o definir com clareza, em quanto não aproveita á fortuna dos homens e á elevação da sua dignidade. Só n'estes termos convém, e d'ahi resultou, sem duvida, que em Alexandre Herculano o moralista seguisse de perto o historiador, como este seguiu o poeta, deixando ambos a grande distancia e em manifesta obscuridade o philosopho e sua impassibilidade, a cujos dotes e companhia nunca mostraram grande afêrro, naturalmente porque lhes pareciam debeis na substancia, de caracter por demais altivo, insensato e vaidoso, e mesquinhos em beneficios,[{145}] se os referiamos á desmedida presumpção com que pretendiam representar a sabedoria das sabedorias.
Foi implacavel. Nada indulgente comsigo, Alexandre Herculano mediu os outros pela propria craveira, e sem piedade flagellou vicios, erros, crimes e fraquezas, em todo o logar, tempo e circumstancia, onde quer que os encontrou. Costumes, instituições, processos politicos, religiões e crenças, tudo apreciou e julgou com uma severidade indomavel, a que os impetos illuminados do seu genio e a isenção da sua vida deram uma auctoridade tremenda.
As intrigas politicas e occupações analogas, «que são o recreio, o comodo, o alimento, a respiração e a vida do estadista e do cortezão»[[75]], em que Alexandre Herculano andou «extraviado», não por «culpa da vontade mas do entendimento», serviram-lhe para comprehender toda a abominação de taes manejos e fins, astuciosamente occultos em verdades graúdas, porque «em cada seculo ha uma verdade graúda que predomina, e que vae ajudando os espertos a consolarem-se dos dissabores da vida á custa do animal, alvar por excellencia, chamado cidadão, para cujo consolo vieram á terra as bruxas, a therapeutica,[{146}] os fundos publicos, a ontologia, os duendes, as infusões, a esthetica, as petas e o palavreado»[[76]].
Quando emergiu do atoleiro, sentiu-se renascer. As circunstancias haviam-no «baldeado no charco da vida publica», mas «a Providencia, que provavelmente não o achou assaz corrompido para fazer d'elle um homem de estado, deu-lhe uma hora de contricção em que podésse desempegar-se, escorrer o lodo dos vestidos, lavar o rosto, e voltar ao gremio do mundo moral»[[77]].