Não foi debalde, como debalde não foi a sua passagem na côrte e a approximação das classes nobres, quer consideradas no convivio immediato, quer observadas nos fastos das eras passadas. Ahi teria visto e aborrecido «a etiqueta, as minucias de cortezania escolastica, as vaidades inquietas de todas as supremacias e eminencias politicas, litterarias, agiotas, artisticas, da impertinente aristocracia burgueza, mirando-se, escarnecendo-se, detestando-se»... «o egoismo das pequeninas vanglorias, as pontualidades parvoas e a sensaboria de convencional contentamento»[[78]].[{147}]
Tudo isso e a repulsão do espectaculo de miserias ainda maiores levaria deante dos olhos quando ia a caminho do seu ermiterio de Val-de-Lobos, a viver entre a gente rude, cujos thesouros de ingenuidade reconhecera e adorava. «As fileiras dos antigos pelejadores cujo ardor aliás se achava enfraquecido pelo cansaço, haviam-nas rareado os annos, e os novos não tinham braços assaz robustos para o combate. Então chamava-se á tibieza tolerancia, e aos calculos do egoismo e da pusillaminidade civilisação. Os velhos interesses e as velhas preoccupações tinham voz e voto, preponderante ás vezes nas cousas publicas. Os tumultos, as luctas das facções, as guerras civis, eram ainda possiveis: as revoluções não. Para isso requeria-se que nas veias dos homens houvesse sangue, no coração crenças, e na sociedade seiva moral»[[79]].
Fugido da mentira de requintes de sensualidade e perfidia em que os senhores do mundo folgavam; buscando uma atmosphera de sinceridade e de paz, não só pelo anceio de se banhar em summa candura mas tambem, decerto, pela alta sapiencia de collocar em ambiente adequado o poder de meditação do seu espirito, affastado assim das distracções[{148}] e constrangimentos que sem repouso o irritavam; «envelhecido antes de tempo pela contensão do espirito em comparar, conjecturar, deduzir»[[80]] e sobretudo pelo tremor de uma consciencia inquieta, meticulosa, votada a uma continua febre de acertar; a affastado pelas illusões de um momento das occupações litterarias a que se dedicára com intimo affecto e reconduzido por asperos desenganos ao tranquillo retiro d'onde não devera talvez ter saido; concebendo como, no desabar do imperio romano, tantas almas severas e energicas, desesperando do futuro de Roma, iam buscar os ermos, onde o christianismo nascente lhes indicava um refugio, e alli, a sós com as suas cogitações, cerravam os ouvidos ao importuno ruido de uma sociedade gasta e podre que esboroava, não tanto ao impulso dos barbaros, como pelos effeitos da propria dissolução interior»; convencido emfim de que «luctar com a Providencia não é esforço, é loucura»[[81]]:—uma fadiga mortal lhe reclamava horas de repouso, a defeza instinctiva do minguado alento de um organismo exausto de aspirações, contrariedades e desillusões, e rendeu-se-lhe. Reaccendeu então na alma o vigor amortecido[{149}] e quebrado em luctas vãs; e deu-nos o exemplo da nobreza na derrota quem primeiro nos mostrára dignidade e gloria nos combates.
Combates!... Os que o vulgo apreciou nas obras de Alexandre Herculano e nos actos publicos da sua vida seriam bem frouxos comparados com os que no seu peito se travavam para o isentar de cair em falta. Conheceu as profundezas fataes da fraqueza humana, e do vigor com que procurou e alcançou remir-se da sua atracção depõe uma existencia inteira de dignidade.
O trovador prisioneiro, «á vista dos homens, saberia esconder o seu delirio e morrer com firmeza; mas, na solidão, a saudade de uma existencia cheia de amor e d'esperanças, a vergonha de supplicio affrontoso, e o temor da morte lhe não consentiam velar-se deante de si proprio com a mascara que a vaidade e o orgulho põe na face humana ainda nas suas mais terriveis situações, para que a vida seja uma continua farça, da qual o coração é o actor mentiroso desde o berço até ao sepulcro»[[82]]. E Alexandre Herculano, tambem trovador e prisioneiro dos ferros das contingencias e convenções mundanas, teria[{150}] soffrido as angustias do seu irmão do romance medieval; mas, mais corajoso, tirou deante de si mesmo a mascara que a vaidade e o orgulho põe na face humana, e do mesmo modo, virilmente, descobriu o rosto perante as multidões atonitas de tão estranha fortaleza, provocando, sem duvida, a aversão e escarneo da debilidade vulgar, para a qual estabelecia um confronto accusatorio.
Essa sinceridade, essa facilidade e até sollicitude em patentear em todos os actos da sua vida os mobis intimos, como para se certificar da rectidão do proprio procedimento sujeitando-o ao julgamento de estranhos, indifferentes, amigos e inimigos, constitue um dos mais finos traços da delicadeza o escrupulo da moral de Alexandre Herculano. A cada passo se confessa. Voluntariamente, com uma corajosa franqueza, expõe-se á affronta e á calumnia que da revelação do seu intimo lhe possam derivar; dava aos homens as contas que de todas as suas acções dava a Deus, sem temer a injustiça do mundo que tantas vezes lhe ignorou e menosprezou a inteireza e a candura. O sentimento da responsabilidade, filho dilecto da liberdade e seu fiel companheiro, obrigava-o a julgar-se frequentemente com o rigor que o dever lhe impunha na apreciação dos actos alheios, e até mesmo, não[{151}] raro, com a severidade que por indulgencia e amor não tinha com os outros.
As relações de Alexandre Herculano com D. Pedro V e os termos em que nol-as expõe no prefacio da terceira edição da Historia de Portugal, são testemunho da sinceridade mais perfeita, mais repassada de grandeza moral, que pode coroar as faculdades portentosas de um talento peregrino. Nem amesquinha o proprio valor nem o isenta de confronto e subalternisação ao valor alheio; não cede um palmo do que lhe pertence e não regateia uma pollegada do que deve a outrem. Reconhece a propria força, sem jactancia, descobre com uma serena e firme justiça os escudos da sua fortaleza; e sem pejo, sem córar por se sentir vulneravel e fraco á semelhança dos communs mortaes, é o primeiro a apontar os golpes com que um outro mais forte lhe rompia e penetrava a armadura.
Emprehendera o estudo da historia de Portugal para educação do principe. Pagava ao filho a divida que contraira com o pae; a este devera a situação isenta de encargos pesados, que lhe permittiu dedicar-se por completo ao aturado trabalho da compilação da historia. Levára o estudo quasi até ao fim da primeira epoca da monarchia, quando a parte publicada suscitou a «animadversão d'aquelles que[{152}] querem accomodar a historia ás crenças do vulgo, ás preoccupações nacionaes e aos interesses que n'ellas se estribam.» Abriram então na imprensa e no pulpito uma campanha contra o auctor de tão estranhas revelações, e os seus inimigos encontraram adeptos até nas regiões do poder. Difficultaram-lhe a edificação da sua obra. Inhibido de proseguir sem sacrificio de dignidade, abandonou-a.
Reagindo contra essa violencia deploravel, que privava a nação de conhecimentos fundamentaes para a sua vida e consciencia moral e politica, «demonstrações incessantes e sempre crescentes dentro e fóra do paiz»[[83]],[{153}] obrigaram os poderes publicos a reconsiderar. Os homens do poder, «se não respeitam, geralmente fallando, a moral e a justiça, quando estas tão sómente se affirmam, acatam-nas quando estribadas em qualquer genero de força e quando, portanto, significam um risco. Por isso e só por isso, do mesmo modo que por meios indirectos lhe fôra tirada, a possibilidade de continuar a Historia de Portugal foi emfim indirectamente restituida» a Alexandre Herculano. Mas era tarde. Na lucta contra a torpe estupidez que o assaltára, «a ambição litteraria, a confiança no futuro, a energia e o vigor da alma, o habito dos penosos estudos e das meditações, a perseverança no trabalho, e, até, a robustez physica tinham em grande parte desapparecido».
Depois, passado algum tempo, ainda tentou um ultimo esforço para proseguir no trabalho. Se porém o tentou, ingenuamente confessava que «não fôra para servir o seu paiz.» Só por uma grande amizade o fazia. «Emquanto alheio, não ao estudo dos homens e do mundo, mas ás suas ambições vulgares, consumia os[{154}] melhores dias da vida em trabalhos a cuja sinceridade, ao menos, o futuro havia de fazer justiça, um acontecimento impensado tinha chamado ao throno aquelle para quem, na sua puericia, fôra destinada a Historia de Portugal. Devera-lh'a por mais de um titulo; mas, annulados, sem culpa sua, os meios de pagar, a obrigação desapparecia. Fôra, todavia, por elle, e só por elle, que ainda uma vez tentára o que a razão lhe representava como quasi impossivel.»