«Na procella em que naufragára o seu pobre livro o nome do soberano fôra murmurado em voz baixa, associado ao dos satellites da reacção, calumniado, como tinha de o ser depois, com torpeza sem exemplo, em negocio mais grave. Ouviu esse murmurio: conhecia bem os homens de que vinha, deu-lhes o asco que pediam e volveu a face. O facto tinha uma significação e um valor bem sabidos.
«Malquistar o soberano com o cidadão era nobre e grande; mas era incompleto: completava-se malquistando o cidadão com o soberano. Infelizmente a tentativa falhou. O vago, o mysterioso, o terrifico teem attractivos para as almas novas de profundo e energico sentir; para as intelligencias juvenis e robustas que a ambição da ideia devora e que, impacientes, forcejam por se precipitar nas vastidões do[{155}] mundo moral para lhe devassar os segredos. A alma do rei era d'essas. Buscou-o e desceu, como diria o mundo, a justificar-se, porque nunca inquiriu se para chegar do throno ás regiões do dever ou da justiça era preciso descer ou subir. Movia-o, além d'isso, o instincto proprio da sua edade e da sua indole. Queria sondar o abysmo de orgulho, de odios implacaveis, de impiedade, de paixões tempestuosas de que lhe fallavam com susto. Parece que a lenda exaggerava: o precipicio, o abysmo, eram de dimensões menos amplas. Verdade é que os precipicios e abysmos fascinam e atraem: póde tambem ser que fosse isso. Que, porém, se illudisse ou que acertasse, o rei achára que todas essas negruras do feroz plebeu se reduziam a uma sinceridade talvez rude, e a sinceridade, ainda rude, tinha para elle o attractivo do novo, do impensado. Achava onde retemperar o animo lasso do incessante espectaculo da condescendencia interessada, do applauso grosseiro que vale o insulto, da devoção requerente, do regirar e mentir dos que buscam recamar-se de avellorios e lantejoulas para se inebriarem, para esquecerem que se arrastam porque são lesos. Entrava apenas na edade de homem e estava já saciado do serpeiar flexuoso das linhas curvas: attrahia-o por isso irresistivelmente a[{156}] dureza da linha perpendicular, recta. Aquella alma, tão rica de abnegação de si, quanto o era de affectuosa sympathia para com todos os opprimidos, para com tudo o que padece, comprazia-se em fitar a vista em olhos que não se abaixassem deante dos seus, em encontrar na ideia alheia a resistencia á propria ideia. Não tinha ciume de uma soberania superior á sua, a da razão, nem o humilhava a dignidade humana, que equivale no subdito á magestade do rei. O que repugnava profundamente a esse espirito era o baixo, o abjecto. O reptil, infusorio em grande, inquieta-nos, tenta a nossa fé na immortalidade com o dogma horrivel da geração espontanea, da omnipotencia do fermentescivel: o homem, que é homem, esse é que prova Deus.
«Foi na affeição de D. Pedro V, no desejo de lhe comprazer que achou alentos para galgar de novo a ingreme ladeira d'onde o tinham despenhado; foi animado por elle que proseguiu em ajuntar materiaes, não para levar a cabo os ambiciosos designios concebidos na edade das grandes audacias, mas para concluir o quadro sincero da epoca mais obscura da nossa deturpada historia; para deixar no mundo um livro em vez de um fragmento. Expressa apenas como desejo, a sua vontade tinha-se tornado para elle irresistivel:[{157}] nem se pejava de confessar que elle começava a exercer já sobre o seu espirito aquella especie de absolutismo moral que, provavelmente, aos trinta annos havia de exercer, se vivesse, sobre o geral dos animos; singular especie de absolutismo, que encerrava a esperança da regeneração dos costumes publicos e, conseguintemente, a unica esperança da manutenção da nossa autonomia e da nossa liberdade; autonomia e liberdade que foram para elle crença e culto, porque lh'as tornavam santas a voz de uma consciencia virgem e as revelações de uma poderosa intelligencia.»[[84]].
Que alma segredava essas confissões! Que essencia sobrehumana as animou! Que resplendor divino nos confunde! O orgulho do stoico e a rigidez do crente abdicaram perante a personificação candida da justiça. Não temeram degradação no desprendimento. Conscientemente o tributavam, pesando sem impostura o proprio valor e sem aviltamento depondo-o no altar do affecto que o reclamava, devido por gratidão e não offerecido pela livre generosidade do devoto. O crente engrandeceu-se[{158}] renunciando á altivez do propheta e trocando-a pela humildade do servo.
Nem sempre, porém, o espirito de Alexandre Herculano pairava n'essa esphera religiosa de adoração, e não raro de indignação, a que tão altos impulsos o erguiam. Por vezes, baixando ao meio das vulgaridades terrenas, benignamente as viu e lhes sorria.
Esta ironia grave, e affirmativa todavia atravez dos reflexos inquietos da multiplicidade dos seus prismas, objecto de justiça e simultaneamente desenfado de austeridade, o rigor sem crueldade, o rir sem malevolencia ou escarneo e ao mesmo tempo sem indulgencia, sem cobrir a nudez da falta, jocoso sem insolencia e agressivo, por corrigir, sem durezas de expiação ou vindicta; esse humorismo caracteristico do sangue anglo-saxonio insinuou-se na obra de Alexandre Herculano e nos seus prolongados combates de polemista. E é de vêr a doçura, salpicada de ingenuidade, com que nos colloca em frente das ambições e cobiças barbaras d'outras eras, no intimo condemnadas e condemnaveis, embora sejam pesado attributo das miserias humanas de todos os tempos.
Exemplifiquemos.
Na côrte de D. Thereza, mãe d'Affonso Henriques, ricos homens, cavalleiros e clerigos[{159}] discutiam acremente, entre si e ao sabor de cada um, a legitimidade das pretensões do filho á posse do reino e o direito da mãe em lh'a negar. «As injurias voavam de parte a parte, os ferros polidos dos punhaes principiaram a reluzir meio-arrancados dos cintos, e a sala do conselho ia a converter-se n'um campo de batalha, quando dois homens, talvez os unicos que pelo seu caracter politico e ainda mais pela sua condição moral o podiam alcançar, atalharam as scenas de sangue de que os paços de Guimarães estavam a ponto de serem theatro. Quasi ao mesmo tempo dois sacerdotes se alevantaram a pedir treguas em nome de Deus. Era D. Tello, arcediago de Coimbra, um d'elles: o outro: Fr. Hilarião, o bom velho abbade do mosteiro de D. Muma. Áquelle dissera muitas vezes D. Thereza que assaz grato lhe seria vel-o bispo da sua sé, a qual então se achava orphã de pastor; a este, a predilecção que sempre mostrára ao seu mosteiro e a elle em especial o moço principe, fazia crêr com bom fundamento que não eram vãs de todo varias palavras que uma vez lhe ouvira soltar ácerca não sabemos de que doação ao santo asceterio de Guimarães, de certa villa ou herdade, com cincoenta homens de creação, e seus montes e pastos, fontes e lagoas, exitos e regressos.[{160}] Não os moviam na verdade estas circunstancias que apontámos casualmente, a serem, D. Tello, inclinado a favorecer a justiça da bella infanta, e Fr. Hilarião a justiça de Affonso Henriques. Pregoava-os o mundo por virtuosos: nós ajuntamos o nosso brado ao do mundo. Mas é indubitavel que ambos elles estavam persuadidos de que o outro seguia uma causa má e affligiam-se profundamente de verem assim a virtude desvairada e perdida no campo contrario... Ainda cremos na virtude dos cultores de politica: sabemos por experiencia que a maior parte das vezes as suas expressões são singelas e nascem de crenças mui fundas; sabemos tambem que as suas opiniões são em geral desinteressadas, e que jámais é o medo que os incita a prégarem a concordia e a paz. E se isto é assim n'estes tempos de perversão moral, com bom fundamento affirmamos que eram puras e generosas as intenções d'aquelles dois ministros do Senhor, n'um seculo em que as doutrinas do christianismo estavam vivas e a caridade era fervorosa e sincera. É certo, porém, que apezar das deligencias que faziam cada um d'elles para aquietar o furor da respectiva parcialidade, por muito tempo o alarido dos cavalleiros, que se doestavam com bastas e grossas injurias, cobriu as debeis vozes dos[{161}] varões apostolicos. Finalmente foram ouvidos. A reputação de santidade de que ambos gozavam,—no seu bando já se entende,—porque em epocas de odios civis as reputações facilmente tocam o extremo da profundeza, mas na extensão ficam sempre em metade; essas reputações, dizemos, mais ainda que a força das suas ponderações, fizeram pouco a pouco asserenar a tempestade. Os ricos homens, infanções e cavalleiros vieram emfim a uma conclusão razoavel; isto é, sairam d'alli cada vez mais afferrados ás suas opiniões e sem concluirem nada»[[85]].
Assim nol-os pintou o romancista historiador, em momento de os considerar sem impaciencia.
Se necessario fosse descobrir a couraça de ferocidade dos fundadores de dynastia, com tal destreza e arte procederia Alexandre Herculano n'essa tarefa que sorrimos, quando aliás poderiamos sem injustiça voltar a face indignada pelo espectaculo de crueldades barbaras. Assim, por exemplo, que sacrilegos aggravos não se teriam feito ao conde D. Henrique, duvidando-lhe da bondade! Apressa-se o historiador a corrigil-os, porque «devemos crêr, ao menos piamente, que o conde D. Henrique,[{162}] na epoca em que alevantou o castello de Guimarães, não lançou nos fundamentos do seu edificio soberbo um carcere seguro e vasto com os intuitos de rapina que guiavam o commum dos senhores n'estas tristes edificações. Ainda que algum documentinho de má morte provasse o contrario, cumpria-nos pol-o no escuro, ou contestar-lhe francamente a authenticidade, porque o conde foi o fundador da monarchia, e a monarchia desfunda-se uma vez que tal cousa se admitta. Assim é que se ha-de escrever a historia, e quem não o fizér por este gosto, evidente é que póde tratar de outro officio»[[86]].