[I]
Um paladino illuminado e moço, intemerato no ardor da juventude e na exaltação da crença que nem o martyrio lograria dominar ou perverter, sonhou a redempção da patria desolada pelas guerras, pela fome, pela oppressão de tyrannias ávidas e corruptas, por hypocrisias sordidas e degradações monstruosas. Sonhou dias de luz e de ventura, de liberdade e de paz, de boa vontade entre os homens, de trabalho honesto, de civismo austero e de religião sublimada, formosura e virtude, o resgate da miseria desalentada e tenebrosa em que se afundava um povo, outrora são e justamente altivo e agora debatendo-se por se salvar e erguer dos abysmos em que a desventura o havia precipitado. E o paladino partiu a conquistar para a patria a fortuna revelada em visões de[{VIII}] claridade; e armou-se soldado, transpondo para exercitos do mundo aspirações divinas, a todos os perigos sujeitando a existencia ephemera, sem que algum fosse capaz de lhe turvar a fé.[{IX}]
[II]
Combateu. Foi vencido. Em vez de palmas de triumpho, recebeu as penas do exilio. Desterrado da «terra cara da patria», que saudou entre a dôr, verteu lagrimas de «saudade longiqua sobre as ondas do mar irriquieto», chorando o
«Berço do seu nascer, sólo querido,
Onde cresceu e amou e foi ditoso,
Onde a luz, onde o céu riem tão meigos,
Seu pobre Portugal..................[[1]]
Proscripto e errante, entre as brumas do norte,
«.......................as auras puras,
O murmurar do arroio, o canto da ave,
O fremito do bosque, o grato aroma
E o vistoso matiz do ameno prado,
O lago quedo a reflectir a lua,
As montanhas tão ricas de mysterios,
De éccos, de sombras, de tristezas santas:»[{X}]
isso tudo que eram encantos da sua terra, trazia-lh'o ante os olhos, cruelmente, a memoria inexoravel[[2]].
«..................A dôr está no coração do profugo
Como um cadaver hirto quando espera
De noite, em leito nú, que á tumba o desçam.
A dôr aqui é gelida, immutavel;
Pousa em labios alheios que sorriem
E até em sorrir nosso; está sentada
Ao pé do umbral do tecto que nos cobre,
Embebida na enxerga do repouso,
Entranhada no pão que nos esmolam,
Enroscada qual cobra peçonhenta
No nodoso bordão do peregrino,
E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.»[[3]]
Embora