«Sob as azas do amor abrigue o Eterno
Homens, nações e o mundo; o amor por elle
Nasce, cresce, avigora-se enredado
Com os beijos da mãe, com sorrir amigo
De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,
O por do sol da nossa terra, o choupo
Da nossa fonte, o mar que manso geme,
Nosso amigo da infancia, em praia amiga.»[[4]][{XI}]
Soffreu o supplicio da revolta impotente, algemada em prisões inexpugnaveis, e entenebreceu-lhe o espirito a turbação negra da impiedade e da duvida, a derrota da fortaleza do proprio coração, mais cruel para o crente do que a ruptura de todos os laços d'affecto imposta pela violencia estranha. Para o proscripto, quando tudo o que amava se converteu em sombra, a cada passo evocada pela lembrança desperta em mágoas,
«Quando em confuso passado apenas surge
Qual fumo tenuissinio ou phantasma
Á meia noite visto, á luz da lua,
Ao longe, entre arvoredo, quando o sopro
Da tempestade assobiou nas trevas
Pela antena da náu do vagabundo;
Quando a dôr sua em olhos d'ente vivo
Não achou uma lagrima piedosa,
E nos seus proprios são vergonha as lagrimas,
Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam
Não sobre seio que as esconda e enxugue,
Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa
Sem as sentir; então o soffrimento,
Filho de longo padecer, converte
O coração do desditoso em marmore,
Onde nunca penetra um puro affecto,
Onde o nome de Deus sossobra e morre
Entre o bramir de maldições e pragas.»[[5]][{XII}]
Ao rigor da desventura juntou-se a agonia do desfallecimento. Não a morte! Porque de toda a oppressão o sonho renascia. Para os loucos d'amor que por amor combatem, os golpes da fatalidade ateiam a exaltação em vez de a suffocarem, e nem o nome de Deus jámais «sossobra e morre», nem as pragas e maldições respondem aos flagellos da desgraça, sem que logo as condemne e cale uma outra voz intima e soberana. Fortificam-se nas provações. Amarguras da alma e mortificações do corpo, pobreza extrema, abandonno sem lenitivo, o opprobrio da derrota, o insulto dos vencedores, torturas dos inimigos e a altivez dos ricos, em vão passaram pelo vencido. Perdido na solidão de ilhas inhospitas para o seu coração a trasbordar de tristeza, não houve adversidade que lhe vergasse o animo, inflexivel na firmeza de combater e na confiança da victoria.
E cantava, o peregrino! As tribulações incendiavam-lhe o genio. Esse mesmo sangue denegrido pelas pedras contundentes d'asperos caminhos creava e alimentava flores altas e resplendentes de celeste pureza. O peso das armas não partiu as cordas da lyra. Ia occulta e guardada no seio, murmurando de continuo seus gemidos e preces. Nem o fragor das batalhas e as blasphemias atrozes[{XIII}] de luctas inhumanas lhe perturbariam a harmonia religiosa. No soldado habitava o poeta, e não foi necessario que o soldado pousasse o fusil, para que o poeta deferisse apaixonadamente a voz grandiloqua.
Advinhava o «dia de ventura» que o destino lhe reservava.
O tempo justificou-lhe a aprehensão. Pela audacia heroica de guerreiros destemidos, a que o sonhador foi juntar-se, pelejando as suas duras pelejas, os desterrados voltaram «ás plagas da saudade e á terra dos seus sonhos», e de novo avistaram «os gestos tão lembrados, os campos tão risonhos, o tecto amigo da infancia, a fonte que murmura, o céu puro da patria», que no exilio haviam chorado, consumidos de saudade.[{XIV}]
[III]
Ah, a sua patria! A sua desvairada patria!... O poeta imaginava trazer-lhe legiões angelicas para a abençoarem d'infinitas bençãos, e trazia-lhe apenas um bando de homens, muitos quasi santos, todos denodados, e muitos outros fracos porque á intrepidez do braço não correspondia a generosidade do animo. E o paladino ingenuo viu rebentar d'esse mesmo sólo que a imaginação lhe cobrira de pomares umbrosos e doces, paradisiacos, os fructos mortiferos de seivas envenenadas. A furia das ambições agitadas, a desordem e o egoismo vilmente triumphantes, o delirio das obsessões afogueiadas dos fanaticos, ondas de impiedade céga e estupida, o fraco desprotegido contra o forte e a victoria degenerando em ferocidade, o misero recalcado na miseria pela cobiça infrene do opulento, a virtude insultada, o escarneo e o roubo, tudo quanto ha de infimo nas perversões humanas, tudo o poeta viu manchando o
«Berço do seu nascer, sólo querido,
Onde cresceu e amou e foi ditoso,
Onde a luz, onde o sol riem tão meigos
Seu pobre Portugal!................»[{XV}]