O stoicismo bastaria para infundir na alma de Alexandre Herculano uma robustez inviolavel; mas não teria sido sufficiente para lhe facultar um contentamento indefectivel e povoar de alegria a soledade. É que o stoico commungára do amor de Christo, e esse annuncia desgraça a quem se encontrar sósinho. Mandava-lhe amar a Deus sobre todas as cousas, e esse bem o encontrava no ermo; mandava-lhe porém simultaneamente amar o proximo como a elle mesmo se amava, e esse preceito não dispensava a presença constante dos homens, desvairados ou santos que elles fossem, para lhes minorar a desgraça ou para lhes seguir o exemplo, em todo o caso para correr seu destino e o partilhar. O stoico pôde fortalecer o seu adepto com uma disciplina mas não pôde supprir o alento humano que anima o christão, esse anceio de dar e receber constantemente que é a sua razão de ser. Por isso, sentindo que lhe faltava, corria a juntar-se em espirito aos homens e a partilhar das suas preoccupações quem pela pressão cruel de sua sorte fôra pessoalmente lançado fóra dos turbilhões do mundo.[{179}]

Sem duvida, pela firmeza de animo e mais pelo exemplo do que por qualquer tentativa de systematisação philosophica ou defeza intencional de doutrina, a vida de Alexandre Herculano abunda na conformidade com os preceitos do stoicismo. Em grande extensão, poderia Seneca descobrir n'elle um discipulo. Acceitou-lhe leis fundamentaes. Confiou na virtude, teve-a «pelo maior dos bens»; «n'ella se alegrou e desprezou os accidentes da fortuna». Attingiu a «invulneravel grandeza de espirito que não se eleva nem abate com a boa ou má sorte». Sentiu que «em todo o homem bom habita um deus», um espirito sagrado, indicador e guarda do que é bem e do que é mal, «um ser divino e razão que reside no mundo e em todas as suas partes». Pela temperança, pela paciencia, pela coragem e pelo culto vigilante da integridade do caracter moral, saccudindo todas as servidões, e sobretudo as servidões dos sentidos, da cobiça, do luxo e da avareza, dominando as paixões e submettendo-se puramente aos mandados da razão, ensinou-nos eloquentemente como se enriquece «não augmentando os bens mas diminuindo as necessidades». Mostrou-nos assim como a virtude é accessivel a todos e até como a adversidade se converte em benção, porque «conheceu[{180}] a sua propria força e valor pondo em prova a virtude», quando a desgraça lhe bateu á porta.

Mas esse stoicismo que podia ser e foi alicerce de fortaleza, não tinha o calor bastante para fóco de irradiação, para inundar de luz e conforto a alma estranha. E inflamou-o então no evangelho de Christo, ungindo-o de piedade e por ella o convertendo á humildade, supplicando dos céus para os outros a indulgencia e auxilio que por intangivel capacidade de soffrer não carecia de pedir para si.

Abrangendo d'este modo todos os gráus da dignidade humana, da acção á contemplação, da firmeza á caridade, do humano ao divino, do heroismo á santidade, Alexandre Herculano a todos honrou igualmente, engrandecendo-se e legando-nos um exemplo unico e supremo na historia do povo portuguez.[{181}]

[[1]] Alexandre Herculano, Poesias. Lisboa, 1860, pag. 165.

[[2]] Poesias, pag. 172.

[[3]] Poesias, pag. 178.

[[4]] Poesias, pag. 182.

[[5]] Poesias, pag. 182.

[[6]] Poesias, pag. 56.