Ás vezes pára, observa, contempla; luziu-lhe no coração um momento de aurora e sorriu. Olhava o retrato do imperador diante de tres crianças, seus filhos, em continencia militar; e tirou uma vibração de jubilo, ingenuo, intimo, d'onde nós tirariamos uma gargalhada a tombar o maior dos cesares. O seu primeiro museu é o de artilheria; levam-se alli as crianças, collegios inteiros, a vêr os canhões francezes rasgados como um farrapo pela metralha do Krupp. Um criado de hospedaria que diante da qualquer se curva até ao chão, perante um capitão ou um coronel dobra-se attonito, fulminado.
A piedade e a doçura, revelada no affecto da mulher, para que? A mulher é um animal, a sua lei a escravidão. Se não fosse... poderia supprimir-se, não representa nada.
A Allemanha, que Berlim nos mostra, afigura-se-me um elephante, a intelligencia e a força em um corpo informe. Toda a sua alma crystallisou n'esta aspiração—ser forte, invencivel.
Conta-se que Cellini, para fundir não sei qual das suas estatuas, lançára no fogo toda a baixella; a Allemanha de hoje fundiu n'um só sentimento todas as joias do coração do seu povo. Adora o exercito e o imperador, a expressão concreta da sua alma, entregou-se-lhes manietada e n'uma obediencia absoluta.
Conseguiu ser forte. As doutrinas dos philosophos de mãos dadas com o genio militar alcançaram emfim dar-lhe uma rara força politica.
Póde viver-se assim? É esta a ultima palavra da civilisação ou simplesmente uma gloria ephemera, sahida da coincidencia das aptidões d'um povo com as necessidades do momento historico? A revolução franceza, iniciando-nos no conhecimento dos direitos individuaes, simultaneamente deu aos estados constituições que conduzem á fraqueza e impotencia politicas; a Allemanha mostrou-nos novas vias conduzindo ao pólo opposto. Assim como só nós pudemos vêr os povos educados nas instituições derivadas da revolução, só os nossos filhos poderão saber o que é um paiz educado na admiração da força. Todas as prophecias serão prematuras, embora vagamente presintamos que a civilisação é mais alguma coisa do que a força.
Dizia-me o snr. Saunders, fallando de musica, que as pequenas côrtes dos ducados e monarchias allemães eram favoraveis ás letras e ás artes. Alargando o seu pensamento direi tambem que a Allemanha actual, com todo o seu saber e profundeza, sahiu d'essas côrtes minusculas; os que vierem depois de nós saberão o que deu a Allemanha imperial.
E visto que o leitor já deve estar habituado a vêr as minhas sympathias de permeio com a exposição dos factos, impenitente, recahindo na velha falta, acrescentarei que a Allemanha, que vi em Berlim, produziu inesperada antipathia no meu espirito, educado n'outras idéas, n'outros costumes sobretudo. Dizem-me que Berlim não é a Allemanha e que n'esse vasto imperio encontrarei costumes e idéas absolutamente oppostos; se assim não fôr garanto aos allemães a antipathia dos povos peninsulares. Não existiriam talvez na Europa caracteres mais accentuadamente antagonicos.