Em caminho de Berlim para Varsovia, a alfandega russa, com uma severidade desusada, obriga-me a parar seis horas em Alexandrowo. A visita das bagagens é minuciosa, os passaportes são apresentados e registados; o comboio vinha com atrazo, partiu quando muito bem quiz, e os viajantes que não tinham ainda as suas coisas em ordem alli ficaram até novo comboio. Eram quarenta ou cincoenta, pelo menos; e este facto, que em qualquer parte da Europa levantaria uma tremenda algazarra, não provocou um protesto. Aqui comecei a vêr a paciencia e a indifferença russas.
Para mim não foi desagradavel, antes me deu prazer, pois tive occasião de passear nos campos d'essa desventurada Polonia, que desde as margens do Vistula vinha observando.
São grandes lavouras arenosas e planas, n'esta época cobertas de beterrabas e de pastos, cortadas de mattas de pinheiro de Riga, terrenos baixos, soltos como as dunas. A gente do campo anda geralmente descalça, e os cavallos desferrados, o que o commum dos viajantes attribue á miseria, mas que a meu vêr provém unicamente da natureza da terra; tal qual acontece no littoral norte do nosso paiz. Repete-se ahi o mesmo facto, sem que por isso as povoações sejam mais ou menos ricas do que as do interior com habitos differentes.
Uma arvore dá caracter a esta paizagem, o salgueiro, que com invariavel insistencia circumda os casaes cobertos de colmo, soltos e isolados, com largos intervallos, pelo meio das terras. N'estas planicies em que não se avista uma montanha, sem uma unica nódoa intensa e viva na verdura desmaiada a prender-se ao céo nublado, o salgueiro, sem destruir a harmonia, dá á paizagem o brilho que comporta com a sua folhagem alva, replandecente e leve como a nuvem. A paizagem do occidente é tecida de ouro candente; esta é de prata polida e fria.
Ao contrario do salgueiro, o pinhal, máte, sem brilho algum, assemelha-se na côr ás estatuas de bronze expostas ao tempo, o que reunido á brevidade das folhas e dos ramos, nivelando a superficie, o torna absolutamente differente do nosso pinhal, carregado na côr e cavado de manchas largas e profundas; resultado da ramagem longa e distante. Um é unido e plano, um lago coberto de cinza, o outro ondeado como as encostas do Vesuvio, feitas da tortura gigante da sua lava.
Já acclimado n'uma inteira passividade e resignação, segui de Alexandrowo a Varsovia com todos os atrazos e delongas proprios dos caminhos de ferro russos.
Era um domingo e cêrca da meia noite quando cheguei. Por isso não pasmei do extraordinario movimento das ruas, julgando que seria o terminar de um dia de festa e de repouso. Mas logo mudei de pensar na manhã seguinte: o que eu vira, era habitual e ordinario.
Que contraste com a enfadonha e sombria Berlim! Mulheres bonitas, elegantes, trajando bem, animadas, vivas, um fuzilar de carruagens em correrias doidas, e as ruas atulhadas de gente, fallando, gesticulando, movendo-se emfim;—tem tudo isto Varsovia. E tem ainda mais: desordem, immundicie, igrejas a cada passo com grande abundancia de devotos, ajoelhados á porta ou benzendo-se na passagem. A um carro coberto de lama atrella-se um cavallo estropiado, com uns arreios inqualificaveis, mas onde falta coiro e graxa sobejam adornos e ferragens; e por aqui imagino o resto, imagino o que vai por casa d'estas mulheres que na rua vejo tão airosas. Para nós, do sul da Europa, a vida intima das cidades como Varsovia ou Napoles, comprehende-se immediatamente.
São os instinctos artisticos, o amor do luxo, das festas e da elegancia, alliados á desordem e á devassidão dos povos excessivamente nervosos; são a ociosidade e a imprevidencia revelados na devoção que entrega ás mãos de Deus o que não sabe conquistar pelo seu esforço. Folia emquanto ha dinheiro e saude, e valha-nos Deus, Nosso Senhor nos acuda para os tempos de miseria... Vivem n'um sensualismo irreprimido, no desgoverno de todos os impulsos e de todos os instinctos; o luxo para elles não é, como por vezes succede na Inglaterra, o florir proporcionado de uma planta que tem no sólo boas e solidas raizes e nos ramos uma seiva abundante; não é a coroação da riqueza, é uma flôr precoce n'uma planta exhausta, consumindo todo o alimento e todo o vigor que devia nutrir o tronco, os ramos e a folhagem. Essas plantas florescem e como ellas morrem tambem as sociedades que não souberam equilibrar a distribuição da sua seiva.
Grande lição a da Polonia para quem souber e quizer aproveital-a!