É uma cidade sem plano, sem principio nem fim, sem um centro de convergencia, caprichosa e emmaranhada, como a imaginação oriental. Chamo a tudo aquillo byzantino, n'este sentido, que, á força de distinguir, confunde e enreda a mais não poder resolver. Cada rua deseatranha-se em mil bêcos e ruas tão grandes ou maiores que a via-mãe; de cada florão de architectura rebentam novos florões que se emendam, sobrepõem, sobem, descem, voltam ao ponto de partida para recomeçarem a mesma teia; taes quaes as discussões da nossa camara dos deputados. São as imaginações insaciaveis de subtilezas no pensamento, nas artes e em tudo, porque o espirito humano é um para cada povo e para cada época; são a negação da lucidez e da precisão.

Com esta concepção da fórma esthetica coincide o brilho anteposto á côr. Indifferente ás delicadezas de colorido, o moscovita adora o ouro e as pedrarias: o bronze, a prata e o aço são pouco, é preciso doural-os. As igrejas estão recamadas de ouro, nos bazares abundam os bronzes trabalhados no paiz, mas sempre dourados; o thesouro do palacio imperial não terá maravilhas de Cellini, mas tem ouro e pedras preciosas que bastam a adornar todas as côrtes da Europa.

Pelos atalhos d'essa montanha de riquezas anda uma população mesclada, cossacos e chinezes, circassianos e finios; porque Moscow, uma terra de commercio, um bazar, um genuino e simples mercado, tem de notavel sobre os seus congeneres do occidente e do centro da Europa, ser intercontinental e trazer ás suas barracas uma população que dos mais remotos cantos da Europa vai quasi a tocar na America. Quasi, agora; quem sabe se um dia a tocará de facto, e que medonha convulsão reserva ao mundo esse combate.

Dizem ter mil e seiscentas igrejas, e creio ter devoção para edificar outras tantas. Não ha casa sem uma imagem do Christo; nem os restaurantes com frequencia muito suspeita lhe escapam. As offrendas não têm numero, tudo se faz por milagre. Direi todavia que esta é a maior força d'aquelle povo.

Entre Paris, o epicurismo, Berlim, a força, e Moscow, a religião, eu preferirei a ultima, porque n'este reconhecimento de uma vontade superior, de quem tudo dimana e provém, está o germen e o fundamento da paciencia, da resignação e da obediencia, forças invenciveis que os factos externos deixam intactas e não quebram.

É difficil dizer onde termina a fraqueza e onde começa a doçura e a piedade, que dimanam d'essa essencia, mas é certo que a maior de todas as forças é a força de soffrer. Não ha obstaculo mortal para a actividade de quem a possuir, e por isso o russo, apathico, soffredor, todo confiado á vontade de Deus, tem sobre todos nós, racionalistas do occidente, a maior das vantagens.


Stockholmo, 22 de Setembro.

Vindo á Russia, não pude roubar-me o prazer de visitar o conde Tolstoï, o famoso romancista que hoje todo o mundo conhece. Como tantos outros estrangeiros, dirigi-me pois á cidade de Tula e d'ahi a Yasuya Polyand, propriedade e habitação de Tolstoï.

Em torno d'este nome fez-se uma verdadeira lenda que representa o conde como um louco, fazendo sapatos e lavrando as terras. E na verdade tem não sei que de singular e de poetico a sua vida.