Um dia, um conde d'esse dourado imperio dos czars vestiu-se de moujik, e mais do que simplesmente, pobremente, foi esconder-se na sua aldeia e começou a ceifar o trigo, semear o grão e construir a cabana. Tinha tudo o que a vaidade ambiciona, uma fortuna immensa, um nome illustre, uma mulher formosa e, sob traços grosseiros, uma rudeza viril alliada ao encanto d'um olhar limpido em que brilhava a doçura que lhe vinha da alma. Sobre tantos dons da natureza e da fortuna tinha ainda um prodigioso talento de artista. Nada lhe faltava para conquistar a lisonja e a veneração do seu tempo, e esse homem, que podia ter uma côrte de admiradores e thuriferarios, tudo deixou pelo trabalho da terra e pela companhia do aldeão, que ha pouco ainda era seu escravo.

O mundo viu com espanto tamanha abnegação, sorriu e, sem ousar dizel-o, chamou-lhe loucura. Não o é; mas uma tal energia em conformar o sentimento e a acção surprehende n'uma época em que a simplicidade, a modestia, a religião e o christianismo, são essencias preciosas para uso verbal e devaneios litterarios apenas. E todavia o proceder de Tolstoï está ainda muito longe do ascetismo de outras eras em que princezas e fidalgos abandonaram familia, os palacios e o luxo, trocaram todos os prazeres, os prazeres santos e os prazeres impuros, pelo extasi divino e pela solidão do claustro.

Vejamos brevemente que idéas e sentimentos levaram o conde ao novo claustro em que se encerrou.

Dizia-me: Não conheço nações, ha homens apenas; e a sua lei divina e christã é a fraternidade. Por ahi devemos regular as nossas acções e aferir o seu valor.

Respondi-lhe que não me parecia que o espirito nacional fosse incompativel com a fraternidade. Tomemos um exemplo, a protecção industrial aduaneira, uma consequencia do nacionalismo. Destroe a fraternidade? Não; pelo contrario, realisa praticamente uma equitativa distribuição de riqueza entre os differentes povos e, se não, lembremo-nos dos effeitos da liberdade commercial que seria manifestamente a miseria para uns e a opulencia para outros. Concedendo que dos motivos concorrentes na actividade humana, os motivos de ordem moral devem governar os da ordem natural ou physica, temos que a fraternidade, o amor, ou como melhor deva dizer-se, carecem de dar aos ultimos a satisfação devida para completa realisação dos primeiros. E assim é necessario que para os povos haja nações, como para cada familia uma casa.

Erro! replíca Tolstoï. Para lançar uma pedra sobre determinado ponto carecemos de apontar mais longe, e assim tambem, para vivermos segundo o christianismo, precisamos não contar com os motivos de ordem natural. Elles se manifestarão espontaneamente; pensar n'elles é mal empregar a razão que deve guardar-se para as coisas superiores.

Singular raciocinio, direi eu, que não quer contar com um elemento cuja existencia reconhece! Por este caminho vamos ao nihilismo, e Tolstoï era perfeitamente logico quando acrescentava: Para que servem os governos? Se ámanhã Moscow e Petersburgo desabassem, que importava a esta aldeia? Seria inteira e completamente o que hoje é. E contava-me, como esclarecimento e demonstração, que da Russia emigram familias inteiras, e na simples carroça que leva todos os seus bens vão muito longe, á Siberia e quasi á China, fazer as colheitas. Com o producto d'esse trabalho levantam a casa, estabelecem uma lavoura n'esses desertos incultos e são felizes até que o governo os descobre para lhes pedir impostos e os filhos para o exercito.

Nova illusão, a meu vêr. Para que esta especie de nihilismo seja possivel são precisas duas condições, terra em extensão superior ao pedido e a simplicidade de costumes do moujik. Desde o momento em que a terra necessite partilha, ahi temos inevitavelmente um principio de governo; e desde que a vida se complique, igualmente apparece a necessidade de uma actividade collectiva, uma força que mantenha a ordem, e preste os serviços communs. Ora pelo que respeita á terra todos sabemos se ella abunda, e pelo que respeita á simplicidade de vida a historia e a observação dos instinctos naturaes são sufficientemente claros. O desenvolvimento e complexidade da civilisação demonstram historicamente uma tendencia irreprimivel e, se esta prova não existisse, bastava attender aos appetites e desejos dos mais simples, para descobrirmos um inicio de evolução para a complexidade. Na choupana do moujik vamos encontrar um mealheiro e estampas coloridas a adornarem as paredes; entre essa choupana e a galeria de quadros do capitalista a relação é manifesta, uma contém o germen da outra.

De fórma que essa simplicidade, individualmente possivel, é collectivamente impossivel. O que não importa a negação de uma vida mais simples do que a actual, como fim ultimo da civilisação; o balanço dos prazeres e penas da plena expansão natural, combinado com os sentimentos piedosos e aspirações christãs, conduzem a uma reducção reflectida das nossas necessidades, mas entre esta e o estado primitivo ha uma enorme differença que devemos vêr e pesar; e, sendo a simplicidade consciente um producto superior da civilisação, seria erro esperal-a do vulgo que para a attingir carece de ser educado. D'este ultimo facto a necessidade de governo e instituições educativas, que não serão portanto um mal e uma desobediencia á doutrina christã, mas sim a condição da sua realisação pratica.