Como é de uso n'esta especie de palestra viemos de parte a parte a um interrogatorio sobre o estado social de Portugal e da Russia. Repeti o que disse na minha ultima carta, que a religião me parecia a maior força do moscovita.
É e não é religioso, respondeu-me o conde. Entre Gogol e Beliensky levantou-se um dia essa questão e estou em dizer que ambos tinham razão. Se julga pelo numero das igrejas e pela sua concorrencia, dir-lhe-hei que o russo não é religioso; isso é um habito, como o alcool ou o chá, sem maior significação psychologica. Mas acontece que, differentemente do que succedeu com a Igreja romana, traduzimos o evangelho ha novecentos annos e as suas maximas divulgaram-se no povo em que ainda agora actuam energicamente. Por este lado a Russia é um paiz religioso.
Se me é dado acrescentar alguma coisa, direi que o é ainda por outro lado, o fundo fatalista, Deus, Acaso, Providencia, negação da previdencia e reconhecimento de uma vontade superior incognoscivel. O proprio conde Tolstoï representa esta feição. Mostra-a nas suas obras e conversando commigo sobre as fórmas futuras da propriedade, disse singelamente:—Quem póde prever o que acontecerá d'aqui a vinte annos?
Ao vêr o enthusiasmo com que Tolstoï me mostrava a aldeia e as habitações do moujik, ouvindo fallar dos campos e das seáras, fazendo a apologia ardente do trabalho braçal como tonico indispensavel para o corpo e para o espirito, comparando os actos e as palavras, pareceu-me que os grandes sentimentos que determinaram o seu modo de viver tão anormal, foram o amor da terra e a humildade christã. Conhecendo profundamente toda a sociedade e a alma humana, só ahi encontrou paz e satisfação á sua consciencia, e por isso envergou o habito e professou n'essa nova religião.
Quizera reproduzir todo o longo discurso de Tolstoï, mas a memoria nunca me ajuda e muito menos n'este momento, em que a successão e diversidade de materias a contrariam. Ficou-me porém esta impressão—que o pensamento vôa mais alto em duas horas de palestra com um homem de genio do que em dois annos de meditação solitaria.
Copenhague, 26 de Setembro.
Deixamos em Moscow uma cidade, producto espontaneo, e portanto caracteristico, do genio d'um povo em cujo sangue se amalgamam differentes raças, e em S. Petersburgo vamos encontrar a capital d'um grande imperio consciente da sua grandeza; a primeira é uma construcção historica, a segunda a revelação do pensamento e dos sonhos d'um imperador. A igreja da Assumpção, no Kremlim, na sua pequenez, com a profusão dos seus adornos e do seu ouro, é gigante como documento da concepção artistica do moscovita; Santo Isac, de Petersburgo, com os seus monolithos de vinte metros de altura, singela, sobria e grande, foi traçada por um francez e, se demonstra alguma coisa, é a victoria da architectura greco-romana em todo o mundo civilisado. Aquella infinita variedade de fórmas e de linhas em que se fundiam ou baralhavam a China, a Persia, o Oriente e a Italia, perdeu-se nas margens do Neva, entregues á imitação do occidente; e emquanto Moscow parece ter sahido da terra como o desenvolvimento natural e facil dos germens que continha, S. Petersburgo mostra uma vontade, um esforço de adaptação a habitos, costumes e fórmas estranhas, reflectidamente julgados melhores. É uma cidade afrancezada, como de resto o são todas as cidades modernas.
Ha muito passou ao dominio da banalidade extasiar-se a gente perante a vastidão de Petersburgo; mas essa vastidão é unica no mundo, e por isso não importa repetir o facto, porque vêl-a será sempre uma impressão surprehendente. Entre o Neva abundante e profundo a espraiar-se n'um amor barbaro, insaciavel de terra, ao fundo d'essas planicies infindas povoadas de florestas e aldeias, para encerrar a corôa que liga as neves do Himalaya ás neves do Baltico era necessaria uma cidade, cuja vastidão eclipsasse todas as capitaes do mundo. Ruas, igrejas, palacios, pontes e caes, tudo é d'uma largueza unica.