Todavia, através d'essa grandeza, que é porventura espontanea, e através da imitação do occidente, que é manifestamente pensada e deliberada, transparece certo sabor do torrão, qualquer coisa de barbaro. Muitas vezes o pensei ao atravessar a perspectiva Nevsky. No isvochik ligeiro e rapido, o cavallo ligado por uma especie de bridão (pavotkin) ao arco (duga) que liga os varaes, o cocheiro envolvido n'um amplo caftan, curvado para a frente, braços abertos, cada uma das guias em sua mão, vai levado como o vento ao trote solto dos seus formosissimos animaes, A rua é um hippodromo de barbaros, no trenó o quadro será completo; a carruagem não é ainda uma commodidade, é um meio de andar rapidamente. N'essa vastidão da Russia é preciso voar para não morrer antes de chegar ao ponto de destino.

De repente, no breve espaço de uma noite, que contraste! Para atravessar o Baltico vim embarcar em Helsingfords, capital da Finlandia; do ruido e da vastidão cahi na estreiteza e no silencio. Ou seja porque não chegou até aqui o sangue oriental ou sómente porque as condições da terra e do clima são outras, o finio é absolutamente differente do moscovita e mais se aproxima dos seus irmãos do outro lado do mar do que d'aquelles a que está sujeito. É possivel qne a constituição e quasi independencia da Finlandia proviesse simultaneamente de circumstancias historicas e do reconhecimento de insuperaveis difficuldades na russificação d'este reino.

Descendo o golfo, viemos a Abo, ainda na Finlandia, e d'ahi a Stockolmo. Com excepção de poucas horas, navegamos sempre por meio de ilhas de uma deliciosa belleza. Bem povoadas de abetos e vidoeiros, não muito elevadas mas com as inclinações abruptas, que só a firmeza das rochas graniticas permitte, aqui e além cabanas de pescadores, raros animaes na pastagem, e sempre um mar tranquillo em volta, essas bahias e ilhas têm uma paizagem rica de sensações e aspectos.

Além, na planicie, o vidoeiro absorvia os abetos, aqui na collina e na montanha separaram-se, e cada um apparece com as suas fórmas. São paizagens d'um genero que geralmente se aprecia e, a meu vêr, por esta razão são as que encerram maior riqueza. Emquanto a planicie nos dá a maxima repetição na minima e constante variedade, uma successão de manchas repetindo-se innumeras vezes mas variando constantemente na successão (como demonstração offerecerei o effeito das pinturas japonezas em sêda), na montanha temos toda a belleza linear possivel na paizagem, resultante da nitidez de traços com que se desenha no espaço e do isolamento que no arvoredo provém da disposição. Belleza a que o mar e os lagos dão maior relevo ainda, porque introduzindo novos tons e novas côres ao mesmo tempo destacam, emmolduram, dão luz. É o que n'essas ilhas acontece.

Não lhes chamarei marinhas, porque o mar aqui é accidental ou pelos menos não tem maior valor do que os outros elementos constituintes. Esse nome reservo eu aos quadros que nos mostram o mar em toda a sua immensidade, tendo para mim que o prazer que em nós despertam provém não tanto da côr ou da fórma, que é nulla, como de uma sensação de grandeza de espaço e intensidade de luz. E se me perguntam porque razão sobre esse espaço põe tamanha belleza uma nuvem, uma vela, um ponto negro que seja, responderei que é um effeito de contraste para dar relevo ao elemento capital. Na escóla hollandeza encontraremos maravilhosos quadros n'este genero: grandes barcos no primeiro plano, uma torre ou um mastro no extremo horisonte, o mar, o céo e nada mais; e os olhos naturalmente fixam-se no espaço que medeia entre o primeiro plano e o horisonte contemplando a sua vastidão, cheia de luz.

A riqueza da paizagem nas ilhas e costas da Finlandia e da Suecia não póde porém comparar-se com a riqueza das paizagens similares do occidente; a vegetação é comparativamente pobre de vigor e de variedade, e a luz é frouxa. Ás horas do poente, em vão procurei a onda trespassada de esmeralda das minhas praias; apenas um collar de perolas desbotadas sobre o dorso negro da vaga.


Paris, 29 de Setembro.