Estamos á beira-mar; mais vinte e quatro horas e bateremos ás portas do mundo arabe.

Pela manhã trovejou, e das bandas de Africa sopra um vento asphyxiante e morno.

A um canto do vapor uma criança ao collo repete com o olhar fixo de mysterioso scismar que as crianças têm ás vezes: Pa... pá, pa... pá... Ao lado, uma mulher nova e galante conversa com o capitão, brandamente, n'um tom meigo de saudade.

—Vamos, disse elle.

Bon voyage.

Au revoir. E abraçaram-se, silenciosos, mudos, sem uma lagrima.

Ella seguiu pelo caes, voltou-se e olhou quando o vapor partia e perdeu-se no borborinho da rua, caminhando ao lado do filho, lenta, tranquillamente, o coração envolto na dôr, na esperança a na virtude.

Vi ainda uns vagalhões titanicos e cambaleando deixei-me rolar como um fardo no canto de um divan. Na ancia e na fraqueza semi-febril obscurecem-se os limites do sonho e do pensamento consciente.

Via o enterro d'um amigo; um enterro civil. A porta desconjuntada e carunchosa d'um quintalejo, n'um sitio ermo, veio uma carroça empoeirada de cal, puxada por um macho escuro, somnolento, orelha derrubada, uns arreios sujos, de pregos amarellos, resequidos e gretados do sol. O caixão appareceu sobre a carroça, não sei como, e sobre elle, o carroceiro, um soldado francez, de largas calças vermelhas e jaqueta azul, sentou-se, perna bamboleante, costas para o macho. Fallou-lhe e partiu. Ao lado da carroça pendia uma lanterna; no limiar da porta ficára uma mulher da Beira, morena, espadaúda e baixa, o cabello empastado na testa e as mãos cruzadas debaixo do avental.

—Não quer a lanterna accesa, tio Manoel?