—Não é preciso, a noite está clara.

E n'aquelle silencio sentiu-se só o estremecer da carroça sacudida no macadam da estrada á beira d'um juncal, caminho do cemiterio.

Monsieur, nous sommes à Alger, disse alguem perto de mim.

Levantei-me e subi. Na noite escura, mais escuro ainda um grande panno negro, uma montanha semeada de luzes; e em baixo sob um rosario de bicos de gaz, pernas e faces negras e nuas entre gorros vermelhos e farrapos brancos enxovalhados—foi o meu despertar no mundo arabe.

Um sonho mau entre um quadro de amor domestico e um quadro de miseria—são todas as minhas impressões d'esse Mediterraneo azul, limpido, sereno, dissolução filtrada de anilina que em tempos que já la vão faria a delicia dos janotas e a fortuna das engommadeiras de Lisboa, vendido a retalho.


Granada, 9 de Outubro.

Argel, vista de noite, nas sombras da luz escassa, dá-nos a impressão de uma grande miseria; mas, vindo a manhã, no movimento das ruas e dos mercados, essa miseria conver-te-se n'uma grande mascarada para os olhos surprehendidos do viajante europeu, pouco habituado ao contacto das civilisações mescladas e exoticas. Rimos d'essa confusão de arabes, de turcos, de francezes e marroquinos e rimos ainda mais do albornoz e do turbante; associados ao chapéo de sol e ás botas de elastico, vivendo em santa paz na mesma pessoa. Ao lado da franceza toda encalmada, de manga curta e collo descoberto, vêm as mulheres da terra, embiocadas em leves roupas brancas que a imaginação do nosso povo escolheria para trajo das almas do outro mundo; entre os mercadores de blusa azul, de pé, lestos em attender o freguez, como os vemos pelas nossas praças, está o arabe, sentado, de pernas cruzadas, indifferente e moroso, com um lento pestanejar de ruminante.

Rimos emquanto o pensamento não nos inicia em caminho differente; porque logo, reflectindo, entre o grotesco e o comico de associações disparates descobrimos o orgulho do vencedor, dominando imperioso e inflexivel, e, em baixo, a seus pés, a babugem de uma onda outr'ora forte e temerosa, agora fraca e quasi extincta, agitando-se semi-morta nas prisões de ferro em que a Europa a lançou. N'uma cidade, como Argel, em que passeiam hombro a hombro vencedor e vencido, a derrota é patente todo o dia como na hora do combate. Quando a Allemanha venceu a França, cada um recolheu ás suas terras e ahi recobrou altivez; mas Argel vencida foi tambem conquistada e o povo arrasta as algemas de uma escravidão mais ou menos real e mais ou menos consciente. Por aquellas ruas anda uma população que se agita e move, livre, risonha, altiva, calcando uma terra que lhe pertence, e rasteja tambem um denso rebanho que o pastor conduz, mas a que não falla senão para ordenar. N'uma hospedaria, um criado europeu manda vir o arabe para acarretar as bagagens com a mesma entonação com que mandaria vir um jumento.

Respondem-me que essa gente vive livre e feliz, sómente sob as leis e regulamentos que foi necessario dar-lhes. Nem tanto mereciam.