Não derramarei lagrimas sob a sua sorte nem mesmo direi que seja má a sua condição material e que tivessem merecimentos para melhor. Apenas aponto um facto; é que no momento actual Argel nos da o espectaculo altamente interessante e instructivo do aviltamento moral de uma raça conquistada em frente dos seus senhores.
Uma outra coisa nos offerece Argel, não menos interessante. É um bairro arabe, quasi uma cidade, que o camartello europeu ainda não alcançou e em que os costumes, a gente, e as habitações indigenas são ainda de grande pureza.
Nada direi d'essas viellas ingremes em que as casas quasi se tocam de um ao outro lado, especie de fortalezas com uma pequenina porta e raras frestas nos muros. Tudo está minuciosamente descripto em muitos livros e, de resto, esses recintos são vedados aos simples viajantes. Deixaram-me uma pequena impressão—pequenez e frescura. Tudo me pareceu acanhado e pequenino, fresco e humido como os logares profundos onde o sol não penetra.
O arabe vem descendo até aos bairros europeus, e ahi abundam as lojas e officinas. Bordam, tecem, costuram, têm as suas cozinhas e cafés e tudo aquillo se assemelha tanto á nossa regularidade que naturalmente perguntamos como tende a aniquilar-se uma raça que chegou a organisar o trabalho, a arte, a familia, a religião, a politica, que creou uma civilisação, uma ordem social, funccionando e correspondendo na sua organisação á capacidade ethnica. Parece que um povo que chegou a este estado não deveria ser tão facilmente destruido e dominado dentro do seu proprio habitat.
Não soube defender-se—é a resposta que mais immediatamente encontramos no nosso espirito; se tivessem inventado os canhões de Krupp talvez os seus destinos fossem outros. E vamos a dar razão á Allemanha: Pois a primeira necessidade de um povo não é ser forte? Virtude, grandeza d'alma, um ideal, para que? Se não tem musculos sãos, armados d'aço e lançando fogo, esse povo será devorado pelos lobos sempre á espreita das ovelhas.
Mas lançados n'esta ordem de cogitações encontramos a Allemanha receiosa e timida diante do cossaco esfarrapado que vi nos acampamentos da Polonia. Já não vale a força; tudo ameaça dissolver-se n'essa infinita vastidão em que já um dia se perderam setecentos mil homens. «Vive em paz com a Russia», recommendára, diz-se, o velho Guilherme moribundo a Frederico, seu filho; no seu espirito fluctuava já o desanimo com que Napoleão voltou de Moscow ás margens do Niemen e antecipadamente se entregava a essa amizade obrigada.
E o espirito perde-se buscando em vão uma base de força duradoura, eterna, indestructivel! Não pensará assim o arabe, que tudo aceita sem espanto, como derivado da ordem logica e natural das coisas, se é que podemos aventurar-nos a penetrar tão intimamente no espirito de uma raça estranha. Duvido.
Muitas vezes na Argelia, pensando no arabe mysterioso, surgiu no meu espirito esta duvida. Podemos comprehender inteiramente a psychologia de uma raça estranha? Modos de vêr e de sentir differentes devem conduzir a differentes ordens de pensamento e, embora vejamos as suas conclusões externas e praticas, no modo de funccionar intimo poderá existir qualquer coisa mysteriosa que nos escapa. Comprehendemos claramente a psychologia da criança; não ha entre ella e nós senão graus de desenvolvimento e de actividade sendo iguaes a tendencia evolutiva e o modo de funccionar, tendencia e modos que devem variar de raça para raça. É verdade que o nosso espirito não concebe duas logicas, mas fóra d'esse estreito terreno commum que margem não fica para variantes incomprehensiveis? Pasmamos muitas vezes da logica excentrica de certos espiritos, da maneira por que n'elles se prendem e ligam as idéas, e este facto, combinado com uma reconhecida differença de base physica, não basta para nos levar a qualquer conclusão mas deixa no espirito certa desconfiança quanto a affirmações positivas sobre a psychologia das differentes raças.
Talvez que sobre o espirito arabe o juizo mais acertado seja o de uma senhora americana muito instruida com quem conversei largamente sobre essa gente. «Só gostava de saber o que elles pensam...»—«Creio que pensam muito pouco», respondeu-me.
É possivel que n'estas palavras se resuma toda a sua psychologia. Um clima ardente congestiona e opprime, como o frio entorpece; em qualquer caso ha uma paralysação de vida. A indifferença arabe não seria como a do russo uma conclusão final do cogitar sobre a inanidade de todas as previsões, seria uma abdicação por indolencia, seria a aceitação das coisas sobre o que o pensamento se nega a reflectir. Mata e morre friamente, n'um torpor de somnolencia invencivel. Sabe lavrar e conduzir os rebanhos na pastagem, caminha arrastadamente, e apto para o trabalho lento; não sabe cavar, repugna-lhe o trabalho activo e diligente.