Ora, devo advertir aos que tiveram a paciencia de me acompanhar até aqui que desde longos annos me inscrevi na segunda das categorias que esbocei e não abjurei nem espero abjurar a primeira confissão. Temperamentos! Já vê, pois, o leitor o que póde esperar d'estas breves palestras, escriptas de relogio em punho e sob a respeitavel auctoridade dos horarios do caminho de ferro; nem poderei despertar-lhe transportes de enthusiasmo, em segunda mão, pelos quadros e monumentos notaveis, nem lhe contarei quantos viajantes me acompanhavam, nem como vestiam e dormiam, nem mesmo poderei dizer-lhe, e isso com verdadeira magua, se, realmente, n'esta parte da Europa que vou percorrer, é lei universal de todas as hospedarias deixar á noite os sapatos á porta do quarto de dormir e encontral-os de manhã bem lustrosos de graxa. Nada d'isto terei tempo de dizer-lhe; apenas alguns factos e idéas muito geraes.
Já temos quanto baste de declarações prévias para que possamos entender-nos; passemos pois á viagem.
D_ Porto a Salamanca o caminho é bem conhecido. Atravessa^do _ Minho, nas proximidades de Penafiel, póde observar-se o aspecto bem differente do Minho suburbano e littoral, como a Maia e Rio Tinto, e o Minho interior, aproximando-se das montanhas. N'este, a vegetação nos valles é mais abundante e viçosa, talvez resultado do maior abrigo; os montes circumvisinhos são mais elevados e muito despidos, differentemente do que acontece no littoral onde as eminencias são bem povoadas de pinhal que desce até á margem dos campos. A casa caiada e branca, construida de argamassa e coberta de telha, deu logar á cabana de pedra solta e de colmo, defumada e baixa. São de uma grande belleza as pequenas aldeias do interior do Minho; sombrias pela luz frouxa, pelo verde carregado da vegetação, pela côr terrea dos montes escassamente povoados de urze, e pelo colmo e o granito das habitações; mas ha no quadro uma grande harmonia de tons, deliciosas linhas pittorescas, e, na falta de arte, uma grande expressão, a que resulta da completa communhão do homem e da terra. A aldeia e o homem são pouco, quasi nada, a confundirem-se com os milharaes e com os pampanos.
Do Minho passamos á margem do Douro e ás suas encostas devastadas pela phylloxera.
A meu vêr, a paizagem carece de belleza; a natureza menos consistente dos terrenos schistosos produz a molleza de contornos; e a cultura, fazendo dos montes escadarias, destruiu toda a harmonia natural e substituiu a paizagem, não por outra paizagem mas por cachos d'uvas em prateleiras. Alem d'isto, os valles são demasiado estreitos e falta por isso a distancia necessaria para vêr bem as montanhas.
São de uso e de bom gosto as lamentações sobre a sorte infeliz do Douro; e, de facto, os olhos menos penetrantes vêem alli a miseria e a destruição de uma opulenta riqueza que, nos seus melhores tempos, deu ao lavrador uma vida sumptuosa.
Mas está o Douro perdido para sempre? E as florestas, e a acclimatação de plantas novas e de novos animaes? Assim como a giesta cresce por aquelles montes, não haverá plantas exoticas de maior utilidade que supportem igualmente os rigores d'aquella região? Não têm os lavradores um vasto campo a explorar na criação dos pequenos animaes como as aves e os coelhos? Não seria possivel fazer grandes reservas das aguas que no inverno correm em torrentes pelas montanhas? Se me não illudo, os grandes males da regeneração agricola do Douro não vem da sua natureza physica de que com arte necessariamente poderiamos tirar proveito; o grande embaraço é a falta de instrução e de capitaes. Para restituir á cultura as suas terras agrestes e hoje em completo abandono, é necessario que o lavrador saiba e possa; e, dado que viesse a saber em pouco tempo, quantos mil contos de reis não custaria a empresa?
Subindo sempre, entramos em Hespanha, e pouco depois, vinhas e olivaes e amendoeiras, tudo nos desapparece para nos internarmos em plena região montanhosa. Nenhuma cultura, mas a paizagem é granitica, cheia de grandeza, os contornos nitidos e arrojados. Seguem-se planaltos arenosos, cultivados na maior parte; rarissimas videiras, os cereaes dominam e, parece, formam o tronco, a parte essencial da lavoura, como, de resto, succede nas grandes elevações do nosso clima. As aldeias não são frequentes, mas os campos murados e extremamente subdivididos.
Sobreveio a noite. Pelos campos do Tormes, imagino que a paizagem não muda até Salamanca, pois o que vim encontrar aqui é em tudo semelhante ao que deixei, com a simples differença de que as hortas abundam, consequencia manifesta das proximidades de um mercado urbano.
Resta-me fallar de Salamanca, falta-me o tempo. De Paris conversaremos.