Paris, 5 de Setembro.

Salamanca é uma cidade antiga.

As cidades antigas são como as grandes obras classicas que ora se encontram empoeiradas e amarellecidas na edição original, em que o texto e a fórma conservam a harmonia e a exactidão primitivas, ora se encontram nas edições modernas, annotadas, corrigidas, sob uma nova fórma material, corrompidas e alteradas o mais das vezes até se tornarem uma obra nova. São raras as velhas edições authenticas, e mais raras ainda essas outras especies de livros escriptos em pedra a que se chama cidades; porque, n'estas, as alterações são constantes, dia a dia, lentas e immediatamente imperceptiveis. Quando assim não é, a cidade morreu.

Salamanca, sem ter morrido, estacionou. É como estes velhos enrugados, magros, tomando com exactidão rigorosa as suas refeições, o seu jornal e o seu passeio, agasalhados n'um casaco que nenhuma tesoura hoje sabe talhar, o pescoço envolvido em gravatas cuja vastidão nos assombra: vivem ainda e são todavia um documento do passado. Entre elles e as cidades ha uma differença apenas: as cidades podem rejuvenescer, os homens nunca.

As bilhas da agua d'uma fórma tradicional, archaica; o trajar dos homens do campo, de calção e polaina de coiro, jaqueta e larga faixa, o collete curto com duas ordens de grandes botões de prata, a camisa sem collar, apertada com um só botão de filigrana, o peito todo de rendas; os palacios d'outro tempo, com janellas de todo o genero, largos portaes em arco e as mais bellas ferragens, agora tão infelizmente substituidas por informes pastas de ferro fundido; tudo nos transporta aos seculos passados e faz de Salamanca uma cidade interessante pelo valor instructivo, agradavel pelo desconhecido da impressão e finalmente bella por uma certa harmonia de quadro antigo que a vida moderna não logrou apagar.

Não quero especialisar. Era preciso ser artista e historiador e eu não passo de simples lavrador, viajando intellectual e materialmente com a mesquinha bagagem de estudante.

Duas observações apenas sobre a cathedral que, dizem os guias, é obra maravilhosa de gothico moderno. Confesso que não me arrebatou. Os rosarios de bispos e santos ornando as arcadas, estes paineis de reis magos com sandalias bordadas, elephantes e camêlos, anjos e oliveiras, christos e judeus, tudo acamado em muitas folhas de plantas desconhecidas, a Paixão e a Palestina inteiras e completas na fachada d'uma cathedral, são d'uma belleza que os meus olhos não percebem, por demasiado complicada, talvez. Quer-me parecer que a harmonia na obra d'arte se estende ás relações da substancia e da fórma e que os bordados, que convém ao linho e á sêda, são absolutamente deslocados na pedra. Poderão valer de muito como testemunho de perfeição e habilidade do artifice, mas da sua belleza desconfio.

Uma ultima observação, antes de deixar Salamanca. Aqui, como em toda a Hespanha, abundam as côres vivas no trajar; e os escriptores tem por norma basear n'este facto os instinctos artisticos do povo, comparando-o com o norte sombrio e melancolico. Não será antes uma prova de barbarie? Não demonstra uma inferioridade de sensibilidade physica e tendencia a só perceber as côres que ferem a vista com maior intensidade? Junte-se a isto um excessivo cuidado no penteado das mulheres, tendo sempre em vista que a ethnographia mostra que a necessidade do adorno precedeu a necessidade do agasalho, e teremos sobre que reflectir. Sobre que reflectir, note-se; ponho uma interrogação, não faço uma affirmação categorica.