Essas forças morais que governam a humanidade, não as queima o fogo. E essas são as que hão-de fazer a paz, a presente como a futura, e a futura mais robusta do que a presente.
Uma noite, em uma igreja, ficaram alguns soldados de sentinela a guardar a urna de uma eleição politica.
Havia no altar mór dois anjos magnificos, empunhando tocheiros, e a sua grandeza e resplendor dominavam o templo.
Para encurtar o enfado da vigilia, os soldados vestiram de guerreiros os anjos. Poseram-lhes aos hombros o capote e a mochila, cingiram-lhes as correias, ocultaram-lhes os cabelos no capacete e trocaram os tocheiros por carabinas. Ao fim, alguem deu a voz de «sentido», militarmente, e a companhia perfilou-se em continencia.
Havia alguma cousa de escarneo sinisiro no gracejo. Era um templo transmudado em caserna, a dureza expulsando a graça e a crueldade banindo a piedade.
Mas, quando amanheceu, o sonho de Satanaz havia passado, e os anjos, recuperando a liberdade das suas azas, de novo se ergueram áquela gloria que o menospreso desconhecera e ocultára sem poder destrui-la, porque era de sua condição indestructivel. Até sob o manto da injuria persistira.
Não é diferente desta a historia da humanidade—desta humanidade á qual todas as nações pertencem e que os tempos mostraram susceptivel de nobreza, de fé e de amor, de quanto constitue a gloria dos anjos. Póde um impulso impio perverte-la e tranfigura-la por um momento. Muitas vezes o tem feito e não poucas terá ainda, por certo, de o repetir. Mas a manhã sempre volta, porque o mover dos astros não cessou e, quando volta, logo fulge a gloria dos anjos. Nunca o fogo a queimou.