Depois, a fatalidade da propensão logica insistentemente pregunta porque é que o internacionalismo, sendo um facto culminante do nosso tempo, não ha-de estender-se á politica, ou melhor, como é que a politica ha-de conservar-se alheia ao seu espirito e acção. Internacionalisou-se a sciencia, a arte, a religião, o capital e o proprio comercio, apesar das suas infinitas rivalidades; não se concebe que este impulso exclua a politica. Pelo contrario, é sabido até que ponto o internacionalismo penetrou nas oficinas, não são segredo nem pouca cousa as tendencias de solidariedade que por lá se insinuaram e medram. Admitamos que da oficina trasbordem e se espalhem nos campos, onde a sua disseminação tem de ser lenta por virtude da inercia caracteristica do espirito rural, sempre moroso em seus movimentos, cautelosamente conservador, mas nem por isso menos tenaz nas inclinações. E mais não carecemos para sinal de tempos novos, mais ou menos proximos, talvez mais proximos do que remotos, se considerarmos a intensidade da actividade mental dos nossos dias, a renovação da consciencia que ela importa, e a ordem social a que essa nova consciencia conduz inevitavelmente.

O progresso, sendo como é unicamente fundado na fortaleza do espirito e no seu desenvolvimento incessante, é indestructivel em sua constituição e nos seus orgãos, em toda a amplitude da sua expressão e expansão. O que nos dá a ilusão de retrocesso ou de irreductibilidade da barbaria, são as desordens de funcção, não é uma lesão essencial organica, que não existe; são as enfermidades acidentais, passadas as quais as sociedades voltam a ser o que eram anteriormente ao acidente morbido—tal qual o homem doente recuperando o equilibrio normal quando findou o delirio da febre, reatando a vida no ponto em que a tinha no momento de ser perturbada, naquela edade, estatura fisica e capacidade mental que lhe eram proprias e caracteristicas. Nem porque adoeceu e se curou voltará o velho a ser moço e o adolescente ressurgirá criança. Uma identidade especifica se mantem com seus momentos de eclipse, ao fim vitoriosa de qualquer opressão passageira que por acaso sofreu. E assim o entendeu um esclarecido internacionalismo, pela voz dos seus chefes mais autorisados insistindo em nos assegurar que não renunciou, nem tem razão para renunciar, ás suas aspirações e esforços. Negando que a guerra o houvesse enfraquecido, tira das responsabilidades que lhe exigem e dos feitos que lhe atribuem a demonstração da sua força e vitalidade. As acusações de falencia com que a diplomacia dos politicos de profissão procura estigmatisa-lo e afasta-lo do caminho, no qual essa diplomacia serve as cobiças dinasticas e capitalistas, seriam em ultima analise um tributo á importancia que lhe assiste nas relações entre os povos e ao alargamento e amplitude progressiva do seu poder. Confessando que o nacionalismo agressivo teve um impeto de tresloucada ambição envolvendo nas suas paixões o mundo inteiro, crê cada vez mais profundamente na missão de paz que o zelo profetico dos seus mestres e o trabalho paciente dos discipulos tem exercido nestes ultimos cincoenta anos com tão religioso ardor como manifesta eficacia. As dificuldades que o assaltavam e os transes por que passou no desvairamento momentaneo dos seus apostolos e soldados, iludidos pela astucia dos que governam, não lhe abalou o fundamental optimismo, proprio da fé com que prosegue nos seus combates e vitorias.

Depois ainda, esta ultima guerra veio demonstrar com uma clareza terminante que já não ha neutrais possiveis nos conflictos das civilizações. Não se arrasaram fronteiras nem será possivel, e muito menos necessario, arrasá-las, porque a natureza e a historia as ergueram por longos séculos, senão para sempre; mas cresceu a intensidade de transito através dessas fronteiras, e com ela cresceu a simpatia mutua e a comunhão politica dos que nelas transitam. As relações dos povos estreitaram-se de tal modo que, se uma calamidade flagelou uma nação, todas as demais sofrem nos seus interesses e afeições. Ora por Deus, ora por Satanaz, ora por amor do espirito, ora por ambição mundana, a terra vai a converter-se em propriedade de um possuidor unico—o homem, um só e não muitos, como no passado encontravamos e distinguiamos, sobretudo quando os viamos em combate. E, se o possuidor é um só e a propriedade se acha portanto indivisa, o conflicto é impossivel onde a unidade organica se tornou essencial.

A propria insolvencia da guerra pelos feitos militares, que em mais de trez anos de combates através de mil esforços, vitorias e derrotas não foram capazes de dar solução ao conflicto e, pelo contrario, demonstraram a sua inanidade como processo de solução dos antagonismos em oposição violenta, isso que fez que se chegasse á conclusão de que as nações teem força para fazer a guerra, mas não teem força para fazer a paz, isso significa um golpe profundo na doutrina da confiança militarista. Sobretudo a vitalidade dos interesses economicos mostrou-se superior a toda a ruina por mera violencia. Por seu poder e relações não tiveram força bastante para evitar a guerra, mas ficou de uma vez para sempre certo que a economia das nações, fruto da paz, e da inteligencia e dos afectos, não póde ser arrasada pela guerra. Essa economia subsiste apesar da guerra e durante a sua propria acção; não ha exercitos que possam com ela, e nem a dos aliados nem a dos imperios centrais fraquejaram e deram sinais de se submergir nesta pavorosa catastrofe, constituindo por essa maravilhosa resistencia uma prova formidavel do caracter de ociosidade cruel de todas as guerras na fortuna dos povos, que vivem de pão, não vivem de polvora. A arte de ser util emancipou-se das supostas necessidades de violencia, que algum tempo a fascinaram. «A violencia seduz porque nos dispensa de um esforço de reflexão, de um trabalho de razão. Porque é necessario um esforço para desfazer um nó. É mais facil cortá-lo.»[11] Mas desde que os homens e as sociedades chegaram á idade da razão, não só a sua honra mas tambem os seus interesses temporais os induzem a esperar da razão o que erradamente pediam á violencia.

Debalde essa tendencia, de que resulta a unidade de aspiração dos povos e o consequente declinar das guerras, tem até hoje procurado orgãos adequados que lhe sirvam eficazmente as funcções. É certo. Preponderante apenas em um mundo moral limitado, carece ainda da largueza de disseminação que lhe ha-de assegurar a consistencia, embora essa disseminação progressiva se mantenha na historia das sociedades cultas com uma constancia manifesta. Muitos tratados e tribunais de arbitragem, muitos compromissos de paz se reduziram a pedacinhos de papel, e logo se inflamaram e arderam mal se ouviram clarins de guerra. Outros, porém, se mostraram consistentes e rebeldes ao fogo em iguais circunstancias. Tambem é certo.

Aqueles que se rasgaram ou arderam, foi porque, significando unicamente uma esperança e uma tendencia, uma ambição e um fim, ainda não eram de facto uma lei, embora escritos fossem. Uma lei, para o ser com força executiva e real, carece de um estado de espirito em que se haja fundado e estabelecido antes de se estampar e consignar na definição verbal e nos contractos selados. Essa é a razão pela qual não se cumprem muitas leis que já foram cumpridas, e ainda não se cumprem outras que já foram apregoadas, e vigoram algumas que jámais foram traduzidas para o papel. É que as leis, antes de o serem e para o serem, hão-de viver no mero estado de aspiração do espirito; sómente são leis e prevalecem emquanto as aspirações dos povos as querem e confirmam. Como poder de criar o quer que seja nas sociedades e na consciencia dos homens, a lei escrita, nacional ou internacional, é de um valor nimiamente hipotetico; a lei será, muito mais do que isso ou muito diferentemente disso, uma verificação e explicação daquilo que natural e expontaneamente se criou. Quando vem antes da criação que pretendem representar, ou quando lhe sobrevivem, as leis vergam, cedem e anulam-se ao mais leve movimento contrario.

Ora, em materia de guerra entre os povos, as propensões pacificas, que são aliás uma força manifesta e crescente, não vão tão adiantadas que possam constituir-se em tribunais e sancionar-se em sentenças. Foi esta antecipação do desenvolvimento de um principio e de uma alta realidade que, mostrando-se o que na realidade era, revelando a fragilidade propria de uma constituição incipiente, deu a muitos a ilusão de que esse principio e essa realidade não existiam em absoluto e não eram uma força em acção, e, porque acontecera que se mostraram incapazes de afrontar as injurias de um momento adverso, jámais poderiam subsistir.

Quizemos talvez começar a casa pelos telhados, em vez de lhe dar principio pelos alicerces. E, muito provavelmente, o radicalismo socialista acerta quando, reconhecendo que o internacionalismo organisado anteriormente á guerra foi impotente para a conter, explica o desastre e confia no futuro, dizendo que, «emquanto os governos andarem divorciados dos povos, emquanto eles forem autocracias e plutocracias, emquanto os homens forem governados pela corrupção, pela violencia e pelo engano, não haverá garantia real de que a paz, mesmo quando nominalmente observada entre as nações, produza os frutos ou assegure as liberdades da paz de Deus. Emquanto os povos não dirigirem a politica dos governos, emquanto a democracia não for uma realidade, não haverá paz permanente, externa ou domestica; e, quando esse dia chegar, pouca necessidade haverá de uma força de policia internacional.»[12]

Se assim é, e a observação dos factos decorridos nestes ultimos anos de profundissimas convulsões sociais e progressiva consciencia das suas origens e remedios de todo confirma a esperança dos apostolos da renovação politica do mundo, se assim é, não podem vir longe os tempos de paz.

Porque a vitoria da democracia, ainda que na revolução da Russia não se houvesse mostrado triunfante ou não fosse carregação inevitavel dos navios vindos dos Estados-Unidos da America, republicanos e livres pensadores, afeitos incorrigivelmente á liberdade politica e religiosa, e naturalmente propensos a comunica-la aos povos aos quais se unirem por amizade, a vitoria da democracia tornou-se a sumula deste terramoto que foi a guerra de 1914. Obedecendo a impulsos politicos originarios da civilisação, mantidos e medrados em uma evolução muitas vezes secular, grande legado das cogitações filosoficas do século XVIII e da abundantissima experiencia do século XIX, a democracia é da essencia constituicional do latinismo e de quanto ele de perto ou de longe criou ou tocou, sem distincção de gentes ou de latitude para onde se transportasse. Diferentemente se organisará conforme as necessidades e tradições e acidentes da existencia dos povos sobre os quais impera; poderá ser aqui um sistema de fragmentação comunista, acolá a constituição de centralisações colossais, e além o livre jogo do individualismo; poderá ser na estrutura e na hierarquia das funcções uma monarquia, ou uma republica, ou um imperio, uma arregimentação despotica das plebes ou a associação livre das actividades sociaes. Mas em todo o mundo se tornou a tendencia irrefragavel e invencivel da constituição dos governos para servir os povos e a recusa indomavel da subjugação dos povos para servir os governos. No espirito das comunidades decaiu a ideia de serem possuidas e a obediencia correlativa, e a essa ideia sobrepoz-se, vencendo-a e condemnando-a, o pensamento de possuirmos a terra em comum e em comum obedecermos, não áqueles a quem a fortuna ou a audacia deu a força de mandar, mas sómente áqueles a quem a consciencia deu o talento e a obrigação de ser util e de proceder isentos de interesse proprio, em beneficio do proximo. Uma democracia, aquela democracia que persiste, cresce e ha mais de vinte séculos ressurge de cada revez mais poderosa do que era antecedentemente, «não é uma mera forma de governo. Não depende de urnas ou de leis de sufragio popular ou de qualquer maquinismo. Isso é apenas o seu adorno. A democracia é um espirito e uma atmosfera, e a sua essencia é a confiança nos instintos morais do povo. Um tirano não é um democrata, porque crê no governo pela força; como não é democrata o demagogo porque crê no governo pela lisonja. Um país democratico é um país onde o governo tem confiança no povo e o povo tem confiança no governo e em si, e onde todos se unem na fé de que a causa do seu país não é materia apenas de interesse individual ou nacional, mas está de harmonia com as grandes forças morais que governam os destinos do genero humano.»[13]