Para compreendermos como atravez de todas as obscuridades e reacções de uma fermentação mental e material prodigiosa houve um progresso, uma logica, uma direcção e um adiantamento em uma linha invariavel, bastará considerarmos esta lenta renovação psicologica que graduou em diferente altura o valor militar e o valor do trabalho, por virtude da expansão dos germens inoculados em a nossa organisação pelo pensamento democratico tradicional. «Já aprendemos», disse W. J. Bryan, antigo secretario de estado nos Estados-Unidos da America, «que é mais vantajoso alargar a terra que possuimos, duplicando-lhe a producção, do que acrescentar-lhe por conquista uma nova área. ... Ha mais inspiração em uma vida nobre do que na morte heroica.» Entre tantas cousas que as convulsões politicas e militares destruiram e arruinaram no correr dos séculos, sempre cresceram aquelas que o fogo não queima, certa essencia espiritual, a razão de ser e proceder das sociedades, que inflexivelmente as encaminha, quer na paz, quer na guerra, ainda mesmo quando a sua acção se ignora ou parece aniquilada para sempre.

Heroismos de hoje, todos constituidos pela força de servir e criar, expressão ultima de uma actividade de amor e de uma compreensão da virtude dos homens, lentamente elaborada dos germens da nossa civilização, vão a eclipsar as glorias de ontem, inflamadas no impeto de conquistar e no arrebatamento de esmagar e vencer, paixões do odio, por vezes fecundas e grandes pela coragem e até pela isenção que significaram, mas invariavelmente barbaras pela crueldade dos impulsos, inseparavel da sua força intima. O trabalho que algum dia foi vileza e escravidão e arrastou o carro dos capitães de armas em seus triunfos, converteu-se agora em uma religião, e é ele que pouco a pouco vae subjugando os capitães de armas ao serviço da sua defesa e culto. Emquanto as balas cobriam de cadaveres as trincheiras de Verdun, fumegavam as fabricas no seu labor sob a metralha, os arados sulcavam o chão sem temor da morte que pairava sobre as leivas, e a consciencia duvidava, sem saber a quem mais glorificar e engrandecer, se aos que sucumbiam heroicamente nas batalhas da morte, se aos que, não menos sagradamente, ofereciam o peito e o sangue nas batalhas da vida. Alguma cousa sentimos, senão mudada, pelo menos crescida, por certo apenas crescida, visto que nasceu comnosco, com a nossa civilização, em todos os seus modos a encontramos vivaz e alargando-se, a dizer-nos que, «é tão digno ser ferido ou morto trabalhando pela saude e bem-estar de uma nação como combatendo por ela.»[9]

«A gloria militar só pode ser iniqua. Por cada heroi que ela regista, quantos morrem desconhecidos, e todavia tão grandes que nem sequer tiveram a ideia da gloria... O heroi maior é o que não conhece o seu valor. Morre sem a si mesmo se conhecer, desconhecido dos homens, e a terra absorve o seu corpo anonimo. Mas quanto é grande a grandeza de ser humilde! O soldado mais humilde é o maior, aquele que se submeteu á regra até á morte, sem imaginar que é notavel o que ele fez. Faz o que tem de ser feito. Faz o seu oficio de soldado. A pura grandeza do homem reduz-se sempre a bem fazer o seu oficio. O que é necessario, não é o entusiasmo; é a consciencia profissional. O entusiasmo é apenas uma desigualdade de temperamento.»

Os combates que o trabalho combateu em França durante a guerra, igualam, onde não sobrepujam, toda a sua estupenda gloria militar. «Através da morte, através do fogo, os trabalhadores consumam tenazmente a sua tarefa. Este heroismo do trabalhador encerra uma grande esperança porque a força eterna da nação reside no trabalho. A guerra não é mais do que uma desordem momentanea. Sempre ha-de acabar pelo regresso ao trabalho.» «O campo, o trigo, o moinho conteem uma invencibilidade que a guerra não subjugará. Nem as ceifeiras tiveram medo dos obuses, nem o moleiro teve medo de servir de alvo. Sob a violencia passageira, a terra prossegue na sua eternidade, e vemos as mãos das ceifeiras ligarem as paveias com um gesto que é sempre o mesmo desde o começo do mundo. Ha na humanidade forças que a colera do homem nunca será capaz de prostrar, e é delas que se alimenta. Que poder domina tudo aquilo? O soldado sabe vencer o soldado. O trabalhador sabe vencer a morte.» «Ha um patriotismo guerreiro que é sublime, porque afronta a morte. Todos devemos inclinar-nos perante ele. Ha um patriotismo trabalhador que é ir para o trabalho.»[10]

Esse patriotismo que combate imperturbavel os combates do trabalho e que o critico comovido contemplou com orgulho na sua patria, esse foi e é invulneravel a toda a injuria do fogo, e, sentindo-o crescer na nossa alma e através da historia, sentindo-o avassalar-nos a consciencia, ilumina-nos e alenta-nos a esperança de que, sendo a maior força e o supremo padrão da gloria humana, só a esse está reservado todo o imperio em que as nações e as raças viverão para melhores destinos. Isso que permanece sob as cinzas, e não as cinzas que o vento leva, isso será o sustento e a razão de ser da humanidade. É mais do que uma esperança; é uma certeza e a mais vivificante das muitas que a guerra deixa erguidas entre os seus destroços.

O scepticismo desdenhoso, mais propenso a lidar com a miseria, de que faz seu lucro, do que a exaltar-se em visões que não lhe matam a sua fome de prazeres caracteristicos, está pronto a advertir-nos de que pouco importa que nos homens haja impulsos eternos de robustez, paz e nobreza. Outros, e de baixeza, os combatem; nestes temos de confiar, e destes havemos de nos socorrer, porque sempre os encontramos arrogantes e muitas vezes os vimos dominar, e sempre lhes sentimos a crueldade atroz. Esse scepticismo não desistirá de procurar convencer-nos de que toda a aurora de justiça e amor conhecida dos homens, e muitas teem sido, é invariavelmente entenebrecida por uma ruindade ingenita indomavel que logo a confunde em uma noite cerrada. Não ha que esperar paraisos da bondade humana; sempre existiu e nunca governou o mundo. É isso o que o scepticismo nos assegura, tal qual como se nos dissesse que não vale a pena semeiar a floresta nem crêr no seu crescer, porque sempre houve tempestades e as tempestades derrubaram muitas arvores, e sempre houve vermes e os vermes muitas outras corromperam, ás vezes das mais frondosas e melhores.

Em socorro dos scepticos e da sua filosofia comoda, isentando de muita obrigação, esforço e dever, viriam os homens praticos, esses de que Cristo foi a negação, quando julgou pratico morrer na cruz para ressurgir em espirito, no mais activo e criador espirito da humanidade.

Os homens praticos não se convencem com semelhante loucura, e esses pretendem que o unico modo eficaz de salvar a humanidade é organisar a sua vileza em vez de invocar a sua nobreza. Fazendo o inventario comparado das guerras e das aspirações de paz, acharão que as guerras teem prevalecido sobre as aspirações de paz e, porque assim aconteceu, não poderá acontecer diferentemente. No seu obstinado entender, a guerra para ser fecunda terá de preparar novas guerras, cogitando de continuo na força futura dos exercitos e no seu poder. Tudo o mais é utopia. Homo hominis lupus. A unica esperança de sustentação dos homens é avigorar-lhes as queixadas, afiar-lhes os dentes e banir-lhes do peito a piedade. Devorar e ser devorado será o ciclo infernal em que a politica tem de penar. Amar e ser amado é ilusão contraria á natureza e, mais do que perigosa, mortal.

Nem lhes abalará a firmeza o proprio testemunho da Historia que eles invocam e que aliás demonstra o progressivo desenvolvimento da boa vontade entre os povos e as nações, um declinar constante de aversões e incompatibilidades, até mesmo entre aqueles que ainda ha pouco eram inimigos e cruzavam armas. No fundo do desenvolvimento politico das sociedades humanas ha um alargamento e fortalecimento constante das suas faculdades de afeição, mas, como esse desenvolvimento é um facto de evolução e conquista gradual e não uma revolução ou um fenomeno de cataclismo, nunca poderá isentar-se totalmente de um remanescente de barbaria e crueldade que só progressiva e lentamente decáe. E porque esse remanescente persiste, o scepticismo, e a avareza, ambições, e até mesmo certo heroismo, que todos são os seus acolitos, exaltam-se na ilusão de que os homens não mudam; e por isso fazem da má vontade reciproca entre os povos uma lei e um sistema politico e uma moral publica. Mas, sem embargo, os factos frequentemente desrespeitam as suas profecias tenebrosas. Quando terminaram as guerras napoleonicas, todo o mundo imaginou que a paz era apenas uma tregua entre a Inglaterra e a França; não tardaria a renovação dos combates entre estas duas nações. Um dia, um homem publico eminente da Inglaterra repetia esses temores diante do duque de Wellington, e o duque, respondendo-lhe, aconselhou que «se mais tarde ou mais cedo tinham de entrar outra vez em combate, fizessem por todos os meios que fosse o mais tarde possivel.» O proprio guerreiro desejava a paz e suscitava uma politica conforme os seus desejos; e o futuro deu-lhe razão. Guerra não tornou a haver entre a França e a Inglaterra. Passados cem anos, encontramo-las aliadas. A solução pacifica mostrou-se mais pratica do que a solução belicosa.

Entre a maior violencia das batalhas ouvirão agouros de paz aqueles que os quizerem ouvir. Ao fim de dois anos de guerra entre a Inglaterra e a Alemanha, na hora de suma inimizade, o professor Munsterberg, alemão de uma alta autoridade, lembrava que a liberdade dos mares poderia ser eficazmente assegurada por uma aliança da Inglaterra, da Alemanha e dos Estados-Unidos da America. E a imprensa inglêsa, respondendo-lhe, abstinha-se de dar opinião sobre a justiça e praticabilidade de semelhante insinuação, advertindo apenas que as incompatibilidades suscitadas pela guerra eram um obstaculo formal a essa solução—o que equivale a dizer que, apagadas essas incompatibilidades, não será talvez uma utopia o alvitre. Pelo visto, o obstaculo é apenas de natureza moral, outro não ha de natureza politica ou economica. Não será de todo ilegitimo pôr esperanças em hipotese tão ousada, sobretudo se nos lembrarmos de quanto foi breve a inimizade entre a França e a Inglaterra, e se cremos, com muita boa gente, que, se não houvesse esse espinho da questão da Alsacia, talvez a Alemanha e a França fossem hoje aliadas em vez de inimigas, apesar da guerra de 1870.