Mas não o esqueceu quem, desconfiando das indicações dos tubos de laboratorio e de todas as estreitezas que muito vaidosamente chamamos sciencia, procurou uma mais larga e exacta concepção da vida no exame da consciencia e nos livros do passado, aí descobrindo as razões do presente e as possibilidades e probabilidades do futuro. Para esse, o passado assegura-lhe que «as civilizações não morrem por calamidades externas, mas quando no intimo se lhes finou a alma. A civilização romana caíu, não porque os invasores eram mais fortes, mas porque no seu coração estava fraca.» «Antes disso, o genio do helenismo morrêra nas longas guerras intestinas que paralisaram as cidades livres e lhes arrancaram o coração daquela vida civica que era simultaneamente a fonte de inspiração do poeta, do artista e do filosofo.» O que criou o conflicto da Alemanha com as nações do Ocidente e com a Russia, foi uma divergencia de alma, porventura um atrazo. «Na realidade, a Alemanha pouco participou daquele novo impulso democratico, humanisante, que se ergueu na Inglaterra do século XVII e ainda mais vivamente na França do século XVIII. «Por differentes vezes e por diversos lados, desde a Holanda do século XVI até á Bélgica de 1914, as nações da Europa ocidental e os povos que delas vieram, contribuiram para este espirito de liberdade, democracia e humanidade. Povos pequenos e grandes deles tiveram a sua parte; pensadores, homens publicos e filantropistas para aí deram o seu quinhão. Mas este espirito é a criação do Ocidente, e foram elementos da sua escola que em maior ou menor gráu levedaram a estrutura politica e social da Europa central e oriental.» «Tocam tambem a estrutura da sociedade alemã, mas não se tem ponderado suficientemente que o corpo principal do pensamento alemão se conservou alheio a este movimento desde o começo do século XIX. Não foi assim ao principio: Kant, o maior dos pensadores alemães, manteve uma inteira simpatia com o humanitarismo do século XVII, e Fichte foi um idealista cujas lições representavam uma força de peso a favor da liberdade na luta com Napoleão. Mas, com o advento da filosofia hegeliana, o pensamento academico na Alemanha associou-se, e cada vez mais, com os poderes estabelecidos.» «O liberalismo que havia na Alemanha morreu em 1848. A Alemanha fundou então uma cultura propriamente sua, baseada em uma noção do estado e das suas exigencias, do individuo e dos seus direitos sobre o resto do mundo, que a civilização ocidental repudiava.»

«Ora, olhando pelas nações do mundo, com excepção da Alemanha, não vemos sinais alguns de quebra de fé naqueles principios. Pelo contrario, vemos que as nações, uma a uma, atentam no facto de que são aqueles principios que estão em risco. E, se assim é, não se trata de uma civilização mortalmente enferma por falta de crença nos seus principios, por falta de confiança em si, pelo pecado mortal de se atraiçoar.»[6]

De facto, nas trevas da catastrofe sentiu-se desde o começo o poder de uma aspiração que vem de longe e não se engana no rumo; sentiu-se a obediencia a um evangelho espiritual e moral, de que a politica com o seu cortejo de ambições e degradações será apenas um turvado espelho, um acidentado esforço de realisação, sujeito aos vaevens de toda a traducção concreta dos sonhos de nossa alma, da de cada homem como da de cada raça e da de cada momento da civilização, ora deformada e oprimida por virtude dos seus combates, ora vitoriosa e prospera, mas afinal, em derradeira sumula, invariavelmente progredindo e progressiva. Um alto e profundo idealismo determina muito daquilo que, no primeiro movimento de repulsão e de horror perante a guerra, nos poderá parecer sómente a assolação de uma torrente de abjecções e vilanias.

Clutton Brock, cuja autoridade de pensador cresceu com as considerações de elevado caracter moral que publicou sobre a guerra, incita o seu país a fortalecer-se na disciplina de uma filosofia, de que o acha desprovido.

Por esse motivo e com o fim de traçar os fundamentos essenciais dessa renovação espiritual escreveu um opusculo[7], onde pretende que uma das grandes vantagens da Alemanha na guerra foi encontrar-se robustecida pela insinuação organica de uma filosofia que inteiramente lhe repassou todas as actividades—uma filosofia má, pervertida, conduzindo ao crime em vez de conduzir ao bem, mas, sem embargo, uma filosofia, a concepção de um sistema das relações do mundo e dos homens, crente na sua justiça e nobreza, e só por isso uma fonte incomparavel de energia, uma arma formidavel de combate, senão a mais eficaz das armas de combate, aquela sem a qual todas as demais são frouxas. E isso teria faltado aos Aliados.

Os alemães «fizeram um estado que é um perigo para o mundo, porque o fim desse estado é ruim; mas o estado da Inglaterra não tem um fim. Usaram todas as suas virtudes com um fim material, e não viram que ele era material; mas nós (os inglêses) deixamos as nossas virtudes ao acaso. Se os alemães veem no seu país um absoluto falso, nós não temos absoluto algum, nem verdadeiro nem falso. Ha gente, e não é só alemã, que crê que a cultura alemã póde salvar o mundo e que por isso anseia por uma vitoria alemã. Para ela, a cultura alemã é qualquer cousa positiva, qualquer cousa na qual os homens se esqueceram de si por amor do estado, e, procedendo assim, se erguem acima das suas forças naturais; e crêem que os alemães podem ensinar-nos todo este segredo de abandono do interesse meramente individual, de modo que todos nós faremos a nossa obra tão sistematica e completamente como os alemães. Mas em nós não encontram inteiramente nada de positivo, e parecemos-lhes combater meramente pelos metodos do passado, da mão á boca, e com esses metodos. Não teem razão, sem duvida; combatemos, pelo menos, contra um egotismo que o mundo nunca suportará, seja qual fôr a limpeza que ele possa trazer; porque com essa limpeza impõe a escravidão. Mas carecemos de tornar bem claro ao nosso entendimento que combatemos por um abandono do interesse puramente individual muito mais alto e completo do que o que prepondera no espirito alemão. Os alemães põem o valor da Alemanha acima de todas as cousas; mas nós, o que é que nós aprendemos a apreciar acima de todas as cousas? Toda a nossa sociedade sofre da falta de valores, de uma desvairada mundaneidade que nem sempre está contente comsigo. Este descontentamento e este desvairamento envolve esperanças, mais esperanças do que a intencional perversidade da Alemanha; mas nem o descontamento nem o desvairamento são bons só por si, e não conduzirão ao quer que seja, se nós não formos capazes de encontrar valores, e os justos valores.»[8]

Na verdade, embora a afirmação categorica de que carecemos de uma filosofia da vida se ache singularmente moderada onde o exame do moralista reconheceu que «carecemos de tornar bem claro ao nosso entendimento que combatemos por um abandono do interesse puramente individual muito mais alto e completo do que o que prepondera no espirito alemão», a acusação não será de admitir-se em toda a extensão. As suas proprias palavras a combatem, confessando que a questão é de clareza de entendimento e de consciencia, e não de escassez de causa intima ou ausencia de uma filosofia fundamental.

Essa filosofia, que o critico quereria sentir na gente da sua patria, de facto subsiste desde já e activamente. Trazemo-la no sangue, neste sangue que é o legado de muitas gerações, e no qual se fundiram e consubstanciaram, em uma tenacissisima aspiração, aquela liberdade que a Grecia sonhou, a ordem que Roma fundou, e, coroação maravilhosa do pensamento politico constituido pela antiguidade greco-romana, o nacionalismo acalentado pela Renascença, movendo-se e medrando dentro daquela catolicidade que uma vez nascida do poder e governo do imperio romano viveu na igreja catolica, prevalecendo-se de um momento de unidade religiosa, e hoje se prolonga nas aspirações do internacionalismo, fundando na comunidade humanitaria o que algum tempo foi resultado da unidade religiosa—sem muito querer persuadir-se, diga-se de passagem, que, ou se fale em nome de Deus, ou em nome da Humanidade, ou se invoque a Razão, ou nos inflamemos na Fé, a conclusão moral é em toda a hipotese una e invariavel, e o racionalismo e o cristianismo juntam-se na mesma concepção da ordem humana, nas mesmas liberdades e responsabilidades, nas mesmas aspirações e deveres de igualdade e amor.

De filosofia não carecemos, realmente. Temos enraizada no peito toda aquela, e profundissima, que a tradição e a experiencia de muitos séculos nos legaram. O que nos afasta da Alemanha não é a mingua de uma razão intima, da mesma natureza daquela que a alenta e move; o que nos afasta é apenas o grau de consciencia e a forma pratica correlativa em que o mundo latino e o mundo germanico sentem essa razão e os termos em que lhe obedecem. A Alemanha cultivou e definiu a sua filosofia, aparentemente oposta de todo á nossa, em circunstancias apontadas por Hobhouse nas passagens que acima traduzi, mas entretanto nós, descuidadamente, sem nos esforçarmos por definir e sistematisar os motivos do nosso esforço, fomos vivendo a nossa vida e seguimos por instinto o nosso caminho, sem o errarmos, não obstante não preguntarmos para onde iamos e porque. Ao fim, quando o conflicto nos iluminou tragicamente a jornada, é que vimos onde estávamos e que especie de filosofia nos tinha conduzido até ali. Claro está que mais seguros se encontravam em seus baluartes os que com mais paciencia e metodo os haviam edificado; mas nem por isso os nossos reductos deixaram de se mostrar inexpugnaveis. Se o não fossem, se uma filosofia muito diversa da que animou a Alemanha e lhe deu força e coesão não nos inspirasse, se aspirações muito diferentes não nos arrebatassem, a guerra ter-se-hia reduzido a uma marcha triunfal dos exercitos teutonicos, portadores de um genero de civilização pelo qual todos os povos da terra estavam suspirando, ansiosos por abdicarem das suas aspirações ingenitas no seio do povo eleito. A invasão alemã teria sido uma benção recebida de joelhos e com hinos de louvor; não significaria a violencia, para nos libertarmos da qual sacrificamos vidas e bens, o melhor da nossa riqueza e da nossa alegria, e comprometemos por largos anos a sorte dos que nos vão suceder e nos hão-de herdar encargos tremendos.

Ainda mais. Não só traziamos no peito uma filosofia e lhe obedeciamos, embora o prolongado habito de a seguir nos tivesse em grande parte dispensado de lhe reconhecer e cultivar intencionalmente o poder, mas o desenvolvimento dessa filosofia não deixou de se operar de continuo e nos termos da sua essencia. E chegados ao momento de dar contas do passado no presente, de revelar as ideias e paixões em que nos criamos e mostrar pelos resultados ultimos a sua legitimidade, verifica-se que temos sido fidelissimos servos dos principios da nossa civilização, bastas vezes contrariados e oprimidos pela adversidade do destino mas sempre renovados, e ressurgidos e maiores, pela constancia da nossa crença.