Nós, europeus aferrados a todas as aristocracias, de espirito como de bens, destituidos de elasticidade moral e economica, facilmente nos envergonhando da pobreza, tardos em sentir como sem prejuizo da dignidade e até da alegria um homem passa de magistrado a caixeiro e de caixeiro a magistrado, não raro inclinados a tomar por honra a hierarquia social e a profissão, rebeldes a perceber que a honra é um facto de consciencia e não depende da condição economica e da classe,—com qualquer coincide e a todas póde ser alheia,—temos visto com frequente desconfiança o desenvolvimento da grande Republica Norte-Americana, suspeitando da sua nobreza e temendo, senão mesmo aborrecendo, a rudeza das suas energias violentas, desprendidas de todos os moderadores que entre nós lhes minguariam a expansão e os impetos. O governo da multidão e a paixão mercantil afiguram-se-nos por vezes uma degradação, quando os referimos ás hierarquias tradicionais e hereditarias que nos andam no sangue, e a velhas e equivocas fidalguias de desprendimento dos bens da terra que essas fidalguias desprezam por ignominiosos, sem embargo de consentirem que o seu desprezo sirva tanto á elevação da alma e á generosidade como á ociosidade indigente e ao desamor do trabalho.

Mas, chegados a um momento de calamidade, como o presente, e atentando mais uma vez na condição dos que nos aparecem melhor armados de espirito e corpo para afrontarem as horas de desvairamento e ansiedade, não podemos furtar-nos a duvidas, e preguntamos se de facto não haverá constituição social mais simples e feliz do que esta, muito confusa, das velhas civilizações europeias, e se aqueles nivelamentos e liberdades democraticas que desde Platão tivemos por portadores de depressão, não redundam afinal na supressão de todas as superioridades e excepções, compensando-a amplamente pela elevação economica e mental da mediania e do comum. Sem embargo dos muitos descontos que necessariamente ha a fazer em todas as prosperidades, o certo é, e evidente, que os Estados-Unidos da America, dentro das suas formulas democraticas e seja qual fôr o muito mal que das democracias possa dizer-se e verificar-se, alcançaram uma situação politica admiravel, emquanto os Estados-Unidos da Europa, tão orgulhosos de saber, experiencia, ordem, categorias e tradições, são ainda do reino da utopia, para o maior numero, e uma vaga esperança, para um reduzido optimismo que teima em não descrêr do progresso moral da humanidade. Não sem boas razões, a democracia europeia pregunta-nos se o imperialismo capitalista transatlantico, precario, a praso, sujeito á sorte da inteligencia e dos bons negocios, será mais funesto e menos cruel do que o imperialismo militar dinastico, nascido e mantido por ordem do acaso hereditario, sem obrigação de capacidade mental nem dependencia das contingencias mercantis. Alguem mesmo quereria saber dos mestres da sciencia social e politica das nossas terras se os Estados-Unidos da America viveriam entre si na paz em que vivem se, em logar de se organisarem democraticamente, tivessem fundado monarquias com as respectivas dinastias. E os factos recentes, particularmente o que se tem passado nos Balkans, e estes opressivos e indeclinaveis confrontos semeiam perplexidades, demasiado bastas para nos deixarem caminho aberto e plano pelo qual possamos sair afoitamente de semelhante labirinto.

Nem mesmo será de prevalecer o argumento usual contra a legitimidade da comparação da Europa e da America, alegando que as tradições da Europa e a juventude da America não autorisam aproximações. Não, as tradições da Europa são as tradições da America, e a idade da consciencia e da razão de um e outro continente é a mesma; quem fundou as nações de além do Atlantico foram europeus repassados do que as civilizações europeias tinham de mais profundo. A diferença, onde a haja, depende apenas de descriminarmos em que ramos da tradição, que muitos eram, se fundou a civilização americana, e em que ramos da tradição se manteve a civilização da Europa. E, feito isto, teriamos ainda, para tirar as ilações praticas do confronto, de saber se foi a Europa ou a America que se desenvolveu nos ramos sadios, qual dos dois continentes teve a infeliz sorte de se aferrar aos ramos decrepitos, invadidos de toda a casta de musgos e liquenes, continuamente sujeitos a inumeraveis doenças parasitarias.

Em todo o caso, para os de mais desdenhosa ufania da civilização europeia, imaginando a America demasiado moça ainda para muito poder sentir e pensar, para quem apenas tenha observado na America a torrente do seu mercantilismo e a julgue destituida da alta espiritualidade que é o nosso brazão, convém notar que os livros de Tolstoi se vendem aos milhões nos Estados-Unidos da America, e os de Ruskin «são lidos mais largamente na America do que na Inglaterra.»[4] A mais alta elevação da alma de que a Europa foi capaz no século XIX e que esta personificou esplendidamente em seus profetas, é comum na sua disseminação e influencia ás praias de aquem e de além-mar, porventura mais querida na terra virgem do que no chão exausto. E quem hoje reler A Americanisação do Mundo, do extraordinario jornalista que foi W. T. Stead, irá encontrar ensejos de aplauso e de admiração de uma larga previdencia, nas mesmas paginas por onde ha alguns anos passou os olhos estimulado apenas pela curiosidade de conhecer os sonhos e devaneios dos publicistas. Na bagagem militar dos Estados-Unidos da America que os seus navios desembarcam na Europa, vem envolvida uma outra e muito volumosa bagagem politica e moral. Tenhamos isso como inevitavel e feito em grande parte. Não se amiudaram os momentos em que as palavras do presidente Wilson teem sido o texto da politica dos Aliados e nelas juraram os estadistas encanecidos do velho mundo?!...

Destas divagações do espirito em busca de melhores dias, uma cousa se salva, porém, intacta—a condenação da violencia como processo politico. Em toda a hipotese chegamos á certeza—e essa certeza constituirá um poder politico de suprema importancia—de que para a prosperidade dos estados e das nações valerá sempre mais organisar do que armar; mais se fortalecem as nações pelo desenvolvimento e coordenação das suas relações internas e externas do que pela invulnerabilidade restrictamente militar. Nas nações como nos individuos, a saude politica, como a saude fisiologica, será mais um facto de equilibrio e ponderação das suas energias do que o desenvolvimento sumo de qualquer delas, seja qual fôr, força militar ou capacidade muscular. Se os Estados Unidos da America não nos facultassem elementos decisivos nessa demonstração, bastaria para nos induzir em semelhantes conclusões o confronto da soberba e prolongada expansão pacifica da Alemanha antes da guerra com os destroços de varia especie, economica e moral, acumulados pela cegueira da sua febre guerreira, desde o dia em que se julgou capaz de manter e acrescentar a grandeza por efeito e graça da violencia militar. O seu imperio e prestigio, cujo alargamento participava da natureza dos prodigios do engenho humano, dissipou-se em uma extensão incalculavel na hora em que, desprendendo-se de toda a simpatia pelos povos que a acolhiam em termos de fraternidade, preferiu a arrogancia da força á insinuação do amor, ou mesmo ao simples comercio das comodidades mutuas. Na hora em que a Alemanha ateiou o incendio infernal que prostrou a terra e os nossos corações na desolação, nessa hora brilhou com um novo e imperecivel esplendor e que o fogo não queima; nessa hora nos convencemos, subjugados pela dôr e esclarecidos pela experiencia, que a essencia da vida das nações, o que torna os seus povos eleitos ou condenados, dignos ou infames, felizes ou desgraçados, ou até mesmo ricos ou pobres, é a sua alma, a sua aspiração, a sua fé e a sua crença, o seu caracter moral e religioso, perante o qual o saber e a força são unicamente uma ilusão e uma insidia, uma traição tarde ou cedo destinada a conduzi-los á vergonha e á miseria, se um instinto salvador não lhes ensinou a disciplinar e conter esse saber e essa força na obediencia a uma aspiração superior.

A fortuna dos povos é em ultima analise questão moral, questão de psicologia, traducção do idealismo de cada um e de cada epoca, acidente positivo de uma alma.

Um publicista eminente da Inglaterra, professor da Universidade de Londres, o sr. L. T. Hobhouse, examinando as causas da guerra e as suas consequencias, assim como as possibilidades e probabilidades de uma paz imediata e duradoura, acentuou este aspecto essencial de derivação psicologica da fortuna das nações em dois livros[5], que, a meu vêr, são das lições mais lucidas e serenas que o tremendo conflicto provocou.

Segundo o seu pensar e dizer, a culpa da calamidade que pagamos caro, com rios de sangue, e da qual as gerações futuras terão de resgatar por meio de incalculaveis e prolongados sacrificios as nações modificadas e de todo empobrecidas, não foi o Kaiser nem a diplomacia, modestos colaboradores e interpretes de sinistros desvairamentos. A guerra proveio das tendencias e desordens da psicologia dos povos; as cogitações da filosofia e as inquietações morais e politicas correlativas que precederam a catastrofe e se amiudaram durante largo tempo antes da guerra, traziam claramente no ventre as convulsões em que haviam de rematar. Durante estes ultimos doze anos, imediatamente antes de 1914, juntaram-se e cresceram na Europa os elementos de desgraça—«um grupo de estados inflamados pela consciencia da sua nacionalidade, avidos de grandes presas, descontentes com cada distribuição, emancipados de todo o senso do direito pelos seus novos guias espirituais, endoutrinados em todos os sistemas eticos da violencia, prontos a sujeitar-se á disciplina e ás fadigas por amor de esmagar os outros, e, se a confiança agressiva abrandava, sustentados na sua propensão pelo medo dos rivais que eles despresavam e todavia provocavam. Esta foi a dilatada condição de combate moral que vimos tomar corpo em sua traducção fisica, nos factos.»

Aqueles que ha trinta anos saíram das escolas impregnados de naturalismos, lutas pela vida e ambições e processos politicos consequentes, sabem perfeitamente a que especie de direitos e deveres essa sciencia e essa moral conduziam, e o que logicamente preparavam á Europa, quando das bibliotecas e dos compendios universitarios, todos revestidos da dignidade do amor á verdade, passassem a ser trocadas em moeda corrente na pratica da vida publica e do comportamento individual, em toda a escala das relações com o proximo, ou o proximo fosse uma nação de alguns milhões de habitantes, ou um simples mendigo que se nos atravessasse na estrada e despedissemos por vencido e inferior, ou um mercador que nos acotovelasse no caes da alfandega e atropelassemos para dar a precedencia ao nosso fardo. A sciencia e a filosofia, legitimando toda a casta de soberba e avareza, acharam natural a brutalidade. Era o colapso absoluto da simpatia, do respeito, da caridade e da justiça, de todos os velhos bordões, apoiados nos quais tinhamos feito uma jornada honesta de mais de vinte e cinco séculos, para fundarmos as criações singulares a que chamamos a familia, a nação e a religião do amor dos homens.

Simplesmente, a sciencia e a filosofia, na rajada da invasão materialista, esqueceram, porêm, que a arvore tinha raizes e que, por muitos ramos que lhe partissem e queimassem, as raizes ficavam na terra, e ao primeiro alento da primavera novos ramos iam crescer do tronco e florir, em tudo semelhantes aos antigos. Esqueceram que as nações, como a nossa alma, teem uma historia e instintos alimentados e avigorados no correr dos tempos, e não haverá forças de raciocinio nem impetos de destruição que os arranquem do seu temperamento; esqueceram que a nossa civilização tem um caracter e esse caracter, residuo da fermentação de uma longa vida, constante em sua essencia, é que afinal ha-de marcar-lhe a linha de progresso atravez de todas as contingencias.