«Só o progresso no idealismo cria uma base segura de desenvolvimento material. Demais, tarde ou cedo esse progresso se exprimirá, por si mesmo, em sua face externa. Ora esse progresso ha-de inquestionavelmente caber-nos depois da guerra, seja qual fôr o caminho que os acontecimentos materiais tomem.

«Nós, os contemporaneos da guerra mais destruidora que o mundo viu, julgamos muitas vezes injusto que fossemos nós os escolhidos para esta terrivel experiencia.

«Console-nos a ideia da retribuição deste sacrificio.

«Não fossem os nossos sofrimentos, não fosse a desgraça que nós ao mesmo tempo padecemos e causamos, e aqueles que hão-de vir depois de nós não seriam capazes de conhecer nem de viver vida melhor do que a nossa. Se o conhecimento ha-de incarnar um dia, inevitavelmente, em acção e vida, não é menos verdade que só as acções consumadas dão origem, em regra, a novas realizações.

«Um mundo novo nunca nasceu senão da agonia do que o precede.»

Nem porventura será necessario esperar o fim da guerra e das suas calamidades, para que possamos sentir o alvorecer da transformação salutar que a rapida mas profunda analise do conde Hermann de Reyserling agoura em termos de evidencia. Alguma cousa ha mudada desde já; alguma cousa dessa redenção se mostra já fundada e inabalavel.

Se o mundo se acha ainda entregue á violencia estupida e cruel da força puramente fisica, se ainda abundam os que nela crêem com um fetichismo barbaro, e a tomam pela prova ultima da civilização, entretanto a propagação de um sentimento vigoroso de desprestigio da força a condena, senão á miseria de um facto de abominação, pelo menos a um estado de sujeição e escravidão sob o dominio de poderes mais altos. Não será propriamente o desprestigio da força esse julgamento dos seus feitos e crimes ao qual temos assistido, mas é desde já, e claramente, o sentimento das responsabilidades da força. O imperialismo e as suas armaduras de aço e as suas tiranias e magistraturas vão a retemperar-se em um novo baptismo. Secretas leis da alma dos povos lhe exigem, por titulo de admissão, que de apanagio e privilegio, instituido em proveito da riqueza e do orgulho dos estados, das dinastias e das classes, se converta em instrumento da paz e da prosperidade dos povos. Depositario da força, e não o seu livre possuidor, o imperialismo moderno, para legitimar e manter a sua existencia e o seu poder, cede a impulsos que já de longe lhe vinham turvando a liberdade e o absolutismo, e tem de cohonestar a ambição do dominio, e os interesses dos que dominam e regem, com a consciencia zelosa e praticamente fecunda das responsabilidades impreteriveis que ele importa para a alegria e fortuna das nações e das gentes que compreender no seu ambito e tiver, mais sob a sua protecção e guarda do que sob a sua autoridade retribuida. De um simples instrumento de mandar e de usufruir riquezas, de um processo de avareza terá de passar, por efeito do progresso moral e das obrigações politicas correlativas, a um modo de servir isentamente. E essa transformação que a evolução moral das sociedades vinha reclamando lentamente, incitando e conquistando a custo, foi agora subita e singularmente apressada pela violencia da guerra, pelas suas dores, pela experiencia e desenganos de que ela se tornou portadora sinistra, todas inclinando a crêr que o imperialismo, para ser um processo de ordem politica e como tal escapar aos impetos de uma reacção anarquica, terá de fundar-se em nobreza, probidade, desinteresse e inspiração de altos e generosos deveres. Só por estes e pela fidelidade com que os observar, só pela actividade e pela soma de bens concretos que importar para a felicidade dos povos, será aceite e querido. Confiado apenas ao prestigio das armas e á ostentação da soberba e da crueldade, da avidez e da injustiça, erguidas estas em seus tronos de riqueza, jámais irá além das criações gigantescas que a historia nos mostra dissolvendo-se invariavelmente na corrupção do seu proprio sangue. A desilusão tornou-se completa no meio da catastrofe.

A atrocidade dos combates imprimiu com uma profundeza desconhecida esta feição de serviço do proximo, não só ao imperialismo politico, ao que usa canhões, palmas e estandartes e aterra pela morte, mas tambem a todos os demais imperialismos seus parceiros, parentes e aderentes, aos imperialismos das oficinas como até aos simples imperialismos domesticos. Por força da dolorosa eloquencia de um momento que revelou na sua nudez a miseria de todo o isolamento orgulhoso dos homens e das nações, sucede a urgencia da solidariedade e da cooperação áquele apetite de dominio, exploração, sujeição e posse que tem sido a alma de todas as escravidões e servidões. Nesta lugubre escola, o capitão de armas aprendeu a respeitar o soldado, como o patrão o operario, e o amo o seu servo. A ideia de propriedade, dos homens como das cousas, a razão do dominio pulverizou-se para ser refeita em nova liga. Isentou-se de estranheza o clamor de Tiberio Graco, quando clamava ás multidões que o cercavam: «Os animais bravios que estão espalhados pela Italia teem suas tocas e cavernas onde podem abrigar-se, e os que combatem, que derramam o seu sangue em defesa da Italia, não teem outra propriedade senão a luz e o ar que respiram; sem casa, sem morada certa, vagueiam por todos os lados com as mulheres e com os filhos. Os generais enganam-se quando os exortam a combater pelos seus tumulos e pelos seus templos. Em tão grande numero de romanos haverá um só que tenha um altar domestico e um tumulo em que os seus antepassados repousem? Não combatem e não morrem senão para manter o luxo e a opulencia dos outros; chamam-lhes os senhores do universo, e não teem de seu um palmo de terra.»

Vinte séculos passaram desde que o mundo jazendo na servidão desmentiu na ironia e na crueldade dos factos a violenta aspiração do tribuno; mas, feita daquelas cousas que o fogo não queima, prevalecia e durava atravez de toda a derrota, e hoje vemos o que a justiça das gerações lhe guardava. Porque as plebes do nosso tempo, caminhando para a guerra, já aprenderam a preguntar porque e para que é que lá vão, e os que as mandam já não sentem em seu poder arte de engano ou energia de captação que lhes dê segurança bastante para negar e roubar aos que combatem o seu quinhão na patria. Com pasmo vimos a Inglaterra estabelecer o serviço militar obrigatorio, mas talvez na surpreza muitos se esquecessem de considerar que essa violencia feita ás liberdades tradicionais daquele país era a democracia continental com o seu cortejo de igualdades passando o Estreito, e, se não derrubava de um golpe o remanescente do feudalismo insular, o que o futuro dirá, suspendia-lhe, pelo menos, todas as garantias de estabilidade. O exercito deixou de ser o servidor assoldadado dos governos e das aristocracias, obediente á sua voz; tornou-se em obrigação de defesa, comum a todas as classes e para cumprir a qual se confundiram nas fileiras os plebeus e os nobres, e imediatamente, de burgo em burgo, alguma voz misteriosa apregoou a nova lei:—«Cada homem, cada voto». É a igualdade do poder politico, preludio certo e sabido das reivindicações igualitarias continentais, ameaçando as desigualdades monstruosas da fortuna economica, que na Inglaterra, com a liberdade de testar e a liberdade mercantil, mantinham o poder das velhas aristocracias e criavam aristocracias novas, diferentes pela origem das antigas mas com elas emparceirando no dominio politico. Meses depois de estabelecido o serviço militar obrigatorio, aparecia na camara dos comuns uma proposta abolindo todos os privilegios hereditarios, e o Times dava fóros de cidade á discussão da conveniencia da constituição de um partido republicano na Inglaterra, que esse jornal aliás combatia mas discutia, o que só por si é sinal dos tempos.

Por outro lado, a pressão dos confrontos proprios de toda a angustia em que as provações nos incitam a considerar a sorte dos que de semelhantes desgraças teem sido menos atormentados, levava-nos a verificar, em sentimentos menos platonicos dos que aqueles que até agora prevaleciam nas academias, que emquanto a Europa se enleiava em tradições e prejuizos, com um passado tanto mais pesado para a liberdade do seu espirito quanto mais longo e acidentado nos anos e nas vicissitudes insinuando-lhe o tumulto e turvação do conflicto de diversissimas aspirações, algures a situação era diferente. Emquanto a Europa arrastava entre fadigas e penas infinitas esse fardo que é a sua gloria e a sua grandeza, e tambem, bastas vezes, o residuo morto da sua vida e o estorvo fatal da sua vitalidade, além do Atlantico filhos seus, que ela criou e amamentou com o melhor do seu sangue, tinham fundado nações opulentas de riqueza e felicidade, e regendo-se por principios assáz diferentes dos que nos preocupam e governam, e emancipadas em larga escala do que a nós nos causa dano.