«O que Romain-Rolland disse, mostrar-se-ha muito verdadeiro no primeiro momento:—Quelque soit le vainqueur, c'est l'Europe qui será la vaincue. A um tão longo e terrivel esforço ha-de seguir-se uma reacção, uma depressão temporaria tanto mais acentuada quanto maior fôr o levantamento. Podemos perder por algum tempo tudo aquilo que moralmente ganhamos nas horas de perigo. No primeiro instante, todos os efeitos imediatos desta guerra poderão ser francamente negativos.
«Todavia, não retirarei uma só das palavras de esperança que escrevi, nem que eu soubesse que nos estão reservados acontecimentos peiores ainda do que aqueles por que temos passado.
«Porque o progresso que realmente importa é o progresso no idealismo, e este não póde ser suspenso por periodos de retrocesso material, por mais longos que eles sejam.
«Em que sentido promoveu o bem o advento de Cristo ou o da Revolução Francesa? Materialmente não, nem em principio nem depois. Ainda mais: mesmo hoje se póde pôr em duvida se é consideravel o beneficio da condição material do mundo derivado de qualquer daqueles acontecimentos. Mas mudaram o espirito dos homens, mudaram a sua consciencia das cousas; e isto é que é superiormente importante, porque só uma mudança de consciencia das cousas é capaz de mudar intimamente as proprias cousas.
«O espirito afeiçoa a materia muito lentamente. É isso certo. Mas, por isso tambem, nenhuma outra cousa a afeiçoa absolutamente.
«A lei só começou a ser o reflexo da rectidão no dia em que os homens começaram a conceber o que a rectidão significava.
«As instituições, só por si, são nada. As mais perfeitas que se possam imaginar, são meramente uma crosta prestes a cair ao mais pequeno impulso da paixão, se não exprimem um grau correspondente de compreensão espiritual.
«Assim, a civilização perfeita da antiga Roma não pôde subsistir porque apenas exprimia uma compreensão limitada; e, pelo contrario, o germen de uma penetração mais profunda lançado pelo Evangelho de Cristo nas almas barbaras tornou-as aptas para um infinito progresso.
«Nunca como agora se encontraram em o mesmo nivel a penetração espiritual e a exteriorisação. No principio da nossa era a penetração era profunda, mas o estado de cultura externa era inferior; hoje, esta parece infinitamente superior áquela. Isto explica o incomparavel horror desta guerra. Isto revelou a disparidade monstruosa entre a nossa civilização externa e o estado das nossas almas. Mas este horror abre-nos os olhos do espirito.
«Nunca mais e em parte alguma a opinião publica suportará os processos tradicionais e profundamente imorais das relações internacionais; nunca mais admitirá conscientemente que o poder é o direito. A nossa consciencia das cousas ha-de mudar, e esta é a unica especie de progresso a tomar em conta. Não ha desastres materiais que anulem essa conquista.