«Nem mesmo uma Alemanha vitoriosa, no seu antigo modo, ousaria ditar a paz em termos reaccionarios; jámais seria aceite pela opinião publica, e não duraria se a violentasse. Mas a Alemanha de amanhã será muito diferente da Alemanha de ontem; a experiencia deste transe te-la-ha mudado muito. Como a França, como a Inglaterra, como a Russia, ou terá encontrado a sua nova alma ou, pelo menos, não estará longe de a encontrar. E essa alma será a de uma nação intensamente democratica.

«Não ha pois razão para pessimismo, apesar do horror da situação presente. A guerra não póde ser senão horrenda, quando pelejada nas proporções gigantescas e com a intensidade de paixão que agora se mostraram. Se os melhores entendimentos parecem cegos e os melhores corações se deixaram turvar pelo odio, a condição da maioria deve ser pavorosa.

«Mas os factos, por mais angustiosos que eles sejam, significam muito pouco, desde que os homens durante a febre não são o que são; e a maior parte dos horrores serão logo esquecidos, tal qual como com as pessoas mais sadias que, depois de terem escapado de uma doença mortal, pensam pouco nos sofrimentos por que passaram.

«Não esqueçamos nunca que esta guerra significa uma crise constituicional e que nesta conformidade temos de a julgar. Só então seremos capazes de compreender as suas fases.

«Digo que a causa dos Aliados tem a vitoria certa. Isto não implica, todavia, que seja consumado, qualquer dos fins concretos que ela se propôs.

«Será impossivel assegurar uma paz de tal modo duradoura que de uma vez para sempre impeça a violação dos tratados; uma nação sósinha não terá possibilidade de decidir a sua propria sorte mais livremente do que um individuo póde desprender-se dos laços sociais e de parentesco e seguir exclusivamente a sua boa vontade; o principio nacionalista não tem possibilidade de triunfar desde que a maior parte dos paises estão habitados em comum por diferentes raças. Mas, em vez disto, teremos melhoria em outras cousas.

«Muito provavelmente, a ideia tradicional de um estado que autorisava uma nação a oprimir outras nações, será condenada, dando logar a uma nova ideia, baseada exclusivamente sobre considerações economicas e militares, e deixando plena independencia a todas as nações quanto aos termos da sua cultura. Muito provavelmente, o equilibrio futuro da Europa dependerá, mais do que dantes, da colaboração sobrepujando a oposição, o que só por si tornará menos frequentes as guerras.

«Mas são inuteis as profecias sobre o que desconhecemos. A unica cousa certa é que esta guerra do mundo, sendo uma crise constituicional, ha-de acelerar na vida interna das nações e nas relações internacionais aquelas transformações que cada ano se teem mostrado mais urgentes e cujas formulas ninguem, por agora, póde encontrar.

«Ha uma intenção no labor cego da Historia.

«Não quero dizer que todos os resultados desta guerra hajam de ser bons; muito longe disso. Os seus efeitos materiais imediatos não podem deixar de ser desastrosos. A morte prematura de milhões dos mais robustos e melhores não poderá beneficiar o remanescente. Os odios e ressentimentos semeiados hão-de estorvar por algum tempo toda a convivencia internacional.