Incapaz de queimar, ou sequer prejudicar ou interromper a vitalidade essencial dos principios, o fogo das batalhas apenas reduz a cinzas as sarças que os ocultam e que por os ocultarem nos transviam; é um arrojo de sinceridade, é um processo terrivel e crudelissimo de pureza, desprendendo os principios, a suprema razão de ser da humanidade, das miserias infinitas que os contrariam e envolvem. Alguem disse, pondo essa aparente contradicção em uma imagem feliz, que só de noite as estrelas brilham.
Se «ha certas cousas eternamente belas que subsistirão quando a guerra passar, tais quais eram antes da guerra começar e tais quais serão sempre, e se o nosso dever é concorrer para as manter vivas, compreendendo-as e amando-as» (Gilbert Murray), a guerra que nos angustía seria talvez perante «essas cousas eternamente belas» uma experiencia, um transe de morte precedendo uma ressurreição esplendida, de esplendor mais alto que todo aquele que precedentemente as houvesse coroado. Porventura a guerra veio a combater pela violencia uma civilização turbada e enlouquecida pela sensualidade, uma civilização que nem soube acautelar-se pela persuasão nem corrigir-se pela experiencia pacifica; será a febre de uma infecção que a higiene não foi capaz de prevenir, por debilidade de animo e cegueira de inteligencia, que não por escassez de recursos.
O que vimos á luz desse brazeiro e que não viamos claramente antes que ele se acendesse, embora surdamente minasse a terra e a felicidade, é como uma aurora de redenção e esperança, como uma certeza divina.
Agora vemos, como nunca vimos, que de que o mundo carece, não é de inteligencia, é de caracter. De que o mundo carece não é de uma nova ordem nas cousas e nas instituições e inventos que as regulam; a antiga muito bem lhe satisfazia todas as necessidades. De que o mundo carece é de melhor ordem nos corações; o passado lho revelou pela sua historia e o presente lho confirmou pelas provações. De que o mundo carece, para sua luz e ventura, é de mansidão, dessa eternidade que o fogo não queima; não é de oficinas que as chamas arrazam e o fumo lança ao vento.
De facto, uma lei de identidade inviolavel faz que a guerra não possa gerar senão a guerra, por mais subtil que seja o esforço para a transmudar em benignidade. A paz, como obra politica, ou diplomatica, ou militar, ficará por nascimento sujeita á concepção inseparavel do ventre de soberba e avareza que a gera; sómente será efectiva e fecunda quando derivar de um renascimento da politica, da diplomacia e dos exercitos no espirito religioso que se lhes insinuar. Fóra disso será uma ficção e uma ilusão, transitorias e mentirosas como todas as ficções e ilusões que os cataclismos infernais das criações humanas se encarregam de dissipar com a maior dureza. É inutil cogitar combinações, tribunais e semelhantes subterfugios para protelar em esperanças vãs o que só ao espirito pertence e só ele póde dar. As civilizações vulgarmente chamadas decadentes e decaídas, porque minguaram em poder militar ou de todo o perderam, são bastas vezes as que predominam, embora destituidas de bens e forças temporais. Avassalaram pelo espirito aqueles e aquilo que pelas armas as venceram. Nos individuos como nas raças são os mortos que governam, como o filosofo pretende. A eternidade das ideias e das aspirações, e das energias morais em que essa eternidade se revela, sobrepõe-se ás vicissitudes efemeras do tempo e completamente as subordina, ainda que essas vicissitudes importem a morte de milhares de homens e a aniquilação de riquezas inumeraveis. A Grecia inspirando-nos a liberdade, Roma disciplinando-nos na ordem ou Israel prostando-nos na piedade foram superiores a toda a corrupção, ruina ou escravidão, governam hoje mais ampla e firmemente do que na hora em que o poder politico as servia; como, modernamente, a França no fulgor da sua inteligencia, ou a Inglaterra na acuidade dos instintos morais, ou a Russia na abdicação religiosa, ou a Alemanha na intuição das temporalidades, são imperios fundados de uma vez para sempre, insubmersiveis no dominio do nosso espirito e na pratica da nossa existencia, sejam quais forem as vicissitudes politicas que o futuro lhes tenha reservadas. A vida dos estados é nada, um instante passageiro, comparada com a vida das civilizações que, se realmente o são, se realmente significam o desenvolvimento e afirmação progressivos de uma alma, de uma relação com o infinito na existencia sensivel, não admitem perda nem retrocesso, e nem sequer quebra de expansão. A riqueza do espirito, porque não é deste mundo, embora neste mundo habite, não depende das contingencias politicas das nações; a todas é superior, e porque é superior, por nenhuma foi ou será vencida. Só pela riqueza do espirito os povos se engrandecem e vencem ou serão vencidos; o resto é acidental.
O que o espirito ganhou nas batalhas sangrentas em que a politica ultimamente precipitou os estados e as nações é qualquer cousa como um terramoto. O abalo moral confunde pelos efeitos proximos e remotos as ruinas de que os canhões cobriram a terra. Uma revolução social se efectuou durante a guerra. O direito de propriedade foi de todo abolido por instancia de interesses colectivos. E o que mezes antes parecia a maior iniquidade e levantaria as pedras das calçadas, subitamente foi admitido como o mais justo e natural dos acontecimentos. O estado monopolisou o pão e o fogo, e os povos submeteram-se; todos os interesses individuais e de classe foram indistintamente imolados a obrigações sociais, demonstradas ou hipoteticas, e, embora no tumulto proprio de semelhante radicalismo se insinuassem as torpezas inseparaveis do remexer das riquezas, os povos consentiram pacientemente na dolorosa e inaudita expoliação. Naufragaram na tormenta liberdades que haviam custado o sacrificio de gerações inumeraveis e o martirio de centenas e centenas de vidas, e as vitimas desta renovação de despotismos curvaram-se sem lamentos á fatalidade que lhes vinha em nome da salvação publica. Evidentemente, se não houve a criação instantanea de novos deveres, houve, pelo menos, uma revisão pratica e efectiva da escala e amplitude dos deveres e dos direitos, a qual não pode fundar-se em outra cousa senão na transformação da consciencia moral das sociedades.
Foi um progresso que nos abre reinos novos de grandeza economica e moral, ou é uma ruina na qual vão sepultar-se os melhores sonhos que nos alentavam a coragem para suportar as miserias do mundo?
O conde Hermann Keyserling, em um artigo publicado na Atlantic Monthly de abril de 1916, e intitulado Juizo de um Filosofo sobre a Guerra, responde a esta interrogação com uma precisão e profundeza devéras notaveis. Quanto dessa lucida apreciação das duvidas angustiosas que a guerra provocou veio ao meu conhecimento, pela transcrição feita na Public Opinion[3] onde as fui buscar, aqui procurarei traduzir e guardar, pois melhor condensação da suprema e decisiva influencia dos problemas morais deste momento da nossa civilização não encontrei na torrente de escritos que a preocupação dos aspectos morais da guerra suscitou, interessando os mais altos e nobres espiritos do nosso tempo.
«A causa dos Alliados vencerá», diz o conde Hermann Keyserling, «de uma forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, mediata ou imediatamente.»
«É inconcebivel que possa sobreviver o sistema de politica internacional que provocou esta catastrofe; é inteiramente inverosimil que os novos tratados que teem de se fazer, não sejam uma reflexão das aspirações e esperanças de todo o mundo; o purgatorio desta guerra terá de consumar a decadencia, transmudar em novas as velhas formas, acelerar o seu desenvolvimento, aclarar o espirito-das nações.»